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domingo, 19 de abril de 2009

Bento XVI : Quatro Anos à Frente da Igreja





O Papa Bento XVI completou, no dia 16 deste mês, 82 anos de idade. E, no dia 19, comemora quatro anos à frente da Igreja como Sucessor de Pedro.No dia 19 de abril de 2005, o cardeal alemão Joseph Ratzinger foi eleito papa, adotando o nome de Bento XVI. A cerimônia de início solene de seu pontificado foi celebrada no dia 24, com missa solene na Praça São Pedro.Nesses quatro anos à frente da Igreja, nosso papa realizou 12 viagens na Itália e 11 fora da Itália, a última a Camarões e Angola, de 17 a 23 de março. E já está programada a 12ª viagem, de 8 a 15 de maio, à Terra Santa, visitando Israel e territórios palestinos. Escreveu uma exortação apostólica, duas encíclicas, 14 cartas apostólicas, além de outras mensagens. Presidiu a dois sínodos dos bispos: em 2005, sobre a Eucaristia e, em 2008, sobre a Palavra de Deus.Convocou a dois Consistórios para a Criação de Cardeais , um em 2006 e o outro em 2007.Canonizou 23 Novos Santos, 63 Novos Beatos foram Beatificados durante esses 4 anos . Proclamou o Ano Paulino que estamos celebrando e que se encerra no dia 29 de junho, comemorando os dois mil anos de nascimento do apóstolo São Paulo. E já anunciou a celebração do Ano Sacerdotal, por ocasião do 150º aniversário da morte São João Maria Vianney – conhecido como Cura d’Ars, a quem proclamará como padroeiro de todos os sacerdotes do mundo; a abertura do Ano Jubilar Sacerdotal será no próximo mês de junho, dia 19, festa do Sagrado Coração de Jesus e Dia de Oração pela Santificação do Clero, encerando-se como o Encontro Mundial Sacerdotal, na Praça São Pedro, em Roma, em junho de 2010.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Santa Missa de Páscoa



SANTA MISSA DE PÁSCOA

HOMILIA DE SUA SANTIDADE BENTO XVI

Domingo de Páscoa
12 de abril de 2009


Amados irmãos e irmãs!

«Cristo, o nosso cordeiro pascal, foi imolado» (1 Cor 5, 7): ressoa hoje esta exclamação de São Paulo que ouvimos na segunda leitura, tirada da primeira Carta aos Coríntios. É um texto que remonta apenas a uns vinte anos depois da morte e ressurreição de Jesus e no entanto – como é típico de certas expressões paulinas – já encerra, numa síntese admirável, a plena consciência da novidade cristã. Aqui, o símbolo central da história da salvação – o cordeiro pascal – é identificado em Jesus, chamado precisamente «o nosso cordeiro pascal». A Páscoa hebraica, memorial da libertação da escravidão do Egipto, previa anualmente o rito da imolação do cordeiro, um cordeiro por família, segundo a prescrição de Moisés. Na sua paixão e morte, Jesus revela-Se como o Cordeiro de Deus «imolado» na cruz para tirar os pecados do mundo. Foi morto precisamente na hora em que era costume imolar os cordeiros no Templo de Jerusalém. O sentido deste seu sacrifício tinha-o antecipado Ele mesmo durante a Última Ceia, substituindo-Se – sob os sinais do pão e do vinho – aos alimentos rituais da refeição na Páscoa hebraica. Podemos assim afirmar com verdade que Jesus levou a cumprimento a tradição da antiga Páscoa e transformou-a na sua Páscoa.

A partir deste novo significado da festa pascal, compreende-se também a interpretação dos «ázimos» dada por São Paulo. O Apóstolo refere-se a um antigo costume hebraico, segundo o qual, por ocasião da Páscoa, era preciso eliminar de casa todo e qualquer resto de pão fermentado. Por um lado, isto constituía uma recordação do que tinha acontecido aos seus antepassados no momento da fuga do Egipto: saindo à pressa do país, tinham levado consigo apenas fogaças não fermentadas. Mas, por outro, «os ázimos» eram símbolo de purificação: eliminar o que era velho para dar espaço ao novo. Agora, explica São Paulo, também esta antiga tradição adquire um sentido novo, precisamente a partir do novo «êxodo» que é a passagem de Jesus da morte à vida eterna. E dado que Cristo, como verdadeiro Cordeiro, Se sacrificou a Si mesmo por nós, também nós, seus discípulos – graças a Ele e por meio d’Ele –, podemos e devemos ser «nova massa», «pães ázimos», livres de qualquer resíduo do velho fermento do pecado: nada de malícia ou perversidade no nosso coração.

«Celebremos, pois, a festa (…) com os pães ázimos da pureza e da verdade»: esta exortação de São Paulo, que conclui a breve leitura que há pouco foi proclamada, ressoa ainda mais forte no contexto do Ano Paulino. Amados irmãos e irmãs, acolhamos o convite do Apóstolo; abramos o espírito a Cristo morto e ressuscitado para que nos renove, para que elimine do nosso coração o veneno do pecado e da morte e nele infunda a seiva vital do Espírito Santo: a vida divina e eterna. Na Sequência Pascal, como que respondendo às palavras do Apóstolo, cantámos: «Scimus Christum surrexisse a mortuis vere – sabemos que Cristo ressuscitou verdadeiramente dos mortos». Sim! Isto é precisamente o núcleo fundamental da nossa profissão de fé; é o grito de vitória que hoje nos une a todos. E se Jesus ressuscitou e, por conseguinte, está vivo, quem poderá separar-nos d’Ele? Quem poderá privar-nos do seu amor, que venceu o ódio e derrotou a morte?

O anúncio da Páscoa propaga-se pelo mundo com o cântico jubiloso do Aleluia. Cantemo-lo com os lábios; cantemo-lo sobretudo com o coração e com a vida: com um estilo «ázimo» de vida, isto é, simples, humilde e fecundo de obras boas. «Surrexit Christus spes mea: / precedet suos in Galileam – ressuscitou Cristo, minha esperança / precede-vos na Galileia». O Ressuscitado precede-nos e acompanha-nos pelas estradas do mundo. É Ele a nossa esperança, é Ele a verdadeira paz do mundo. Amen.

Vigília Pascal


VIGÍLIA PASCAL NA NOITE SANTA

HOMILIA DE SUA SANTIDADE BENTO XVI

Basílica de São Pedro
Sábado Santo 11 de Abril de 2009


Amados irmãos e irmãs!

Narra São Marcos no seu Evangelho que os discípulos, ao descer do monte da Transfiguração, discutiam entre si o que queria dizer «ressuscitar dos mortos» (cf. Mc 9, 10). Antes, o Senhor tinha-lhes anunciado a sua paixão e a ressurreição três dias depois. Pedro tinha protestado contra o anúncio da morte. Mas agora interrogavam-se acerca do que se poderia entender pelo termo «ressurreição». Porventura não acontece o mesmo também a nós? O Natal, o nascimento do Deus Menino de certo modo é-nos imediatamente compreensível. Podemos amar o Menino, podemos imaginar a noite de Belém, a alegria de Maria, a alegria de São José e dos pastores e o júbilo dos Anjos. Mas, a ressurreição: o que é? Não entra no âmbito das nossas experiências, e assim a mensagem frequentemente acaba, em qualquer medida, incompreendida, algo do passado. A Igreja procura levar-nos à sua compreensão, traduzindo este acontecimento misterioso na linguagem dos símbolos pelos quais nos seja possível de algum modo contemplar este facto impressionante. Na Vigília Pascal, indica-nos o significado deste dia sobretudo através de três símbolos: a luz, a água e o cântico novo do aleluia.

Temos, em primeiro lugar, a luz. A criação por obra de Deus – acabámos de ouvir a sua narração bíblica – começa com as palavras: «Haja luz!» (Gen 1, 3). Onde há luz, nasce a vida, o caos pode transformar-se em cosmos. Na mensagem bíblica, a luz é a imagem mais imediata de Deus: Ele é todo Resplendor, Vida, Verdade, Luz. Na Vigília Pascal, a Igreja lê a narração da criação como profecia. Na ressurreição, verifica-se de modo mais sublime aquilo que este texto descreve como o início de todas as coisas. Deus diz de novo: «Haja luz». A ressurreição de Jesus é uma irrupção de luz. A morte fica superada, o sepulcro escancarado. O próprio Ressuscitado é Luz, a Luz do mundo. Com a ressurreição, o dia de Deus entra nas noites da história. A partir da ressurreição, a luz de Deus difunde-se pelo mundo e pela história. Faz-se dia. Somente esta Luz – Jesus Cristo – é a luz verdadeira, mais verdadeira que o fenómeno físico da luz. Ele é a Luz pura: é o próprio Deus, que faz nascer uma nova criação no meio da antiga, transforma o caos em cosmos.

Procuremos compreender isto um pouco melhor ainda. Porque é que Cristo é Luz? No Antigo Testamento, a Torah era considerada como a luz vinda de Deus para o mundo e para os homens.
Aquela separa, na criação, a luz das trevas, isto é, o bem do mal. Aponta ao homem o caminho justo para viver de modo autêntico. Indica-lhe o bem, mostra-lhe a verdade e conduz-lo para o amor, que é o seu conteúdo mais profundo. Aquela é «lâmpada» para os passos, e «luz» no caminho (cf. Sal 119/118, 105). Ora, os cristãos sabiam que, em Cristo está presente a Torah: a Palavra de Deus está presente n’Ele como Pessoa. A Palavra de Deus é a verdadeira Luz de que o homem necessita. Esta Palavra está presente n’Ele, no Filho. O Salmo 19 comparara a Torah ao sol, que, nascendo, manifesta a glória de Deus visivelmente em todo o mundo. Os cristãos compreendem: sim, na ressurreição, o Filho de Deus surgiu como Luz sobre o mundo. Cristo é a grande Luz, da qual provém toda a vida. Ele faz-nos reconhecer a glória de Deus de um extremo ao outro da terra. Indica-nos a estrada. Ele é o dia de Deus que agora, crescendo, se difunde por toda a terra. Agora, vivendo com Ele e por Ele, podemos viver na luz.

Na Vigília Pascal, a Igreja representa o mistério da luz de Cristo no sinal do círio pascal, cuja chama é simultaneamente luz e calor. O simbolismo da luz está ligado com o do fogo: resplendor e calor, resplendor e energia de transformação contida no fogo. Verdade e amor andam juntos. O círio pascal arde e deste modo se consuma: cruz e ressurreição são inseparáveis. Da cruz, da autodoacção do Filho nasce a luz, provém o verdadeiro resplendor sobre o mundo. No círio pascal, todos acendemos as nossas velas, sobretudo as dos neo-baptizados, aos quais, neste sacramento, a luz de Cristo é colocada no fundo do coração. A Igreja Antiga designou o Baptismo como fotismos, como sacramento da iluminação, como uma comunicação de luz e ligou-o inseparavelmente com a ressurreição de Cristo. No Baptismo, Deus diz ao baptizando: «Haja luz». O baptizando é introduzido dentro da luz de Cristo. Cristo divide agora a luz das trevas. N’Ele reconhecemos o que é verdadeiro e o que é falso, o que é o resplendor e o que é a escuridão. Com Ele, surge em nós a luz da verdade e começamos a compreender. Uma vez quando Cristo viu a gente que se congregara para O escutar e esperava d’Ele uma orientação, sentiu compaixão por ela, porque eram como ovelhas sem pastor (cf. Mc 6, 34). No meio das correntes contrastantes do seu tempo, não sabiam a quem dirigir-se. Quanta compaixão deve Ele sentir também do nosso tempo, por causa de todos os grandes discursos por trás dos quais, na realidade, se esconde uma grande desorientação! Para onde devemos ir? Quais são os valores, segundo os quais podemos regular-nos? Os valores segundo os quais podemos educar os jovens, sem lhes dar normas que talvez não subsistam nem exigir coisas que talvez não lhes devam ser impostas? Ele é a Luz. A vela baptismal é o símbolo da iluminação que nos é concedida no Baptismo. Assim, nesta hora, também São Paulo nos fala de modo muito imediato. Na Carta aos Filipenses, diz que, no meio de uma geração má e perversa, os cristãos deveriam brilhar como astros no mundo (cf. Fil 2, 15). Peçamos ao Senhor que a pequena chama da vela, que Ele acendeu em nós, a luz delicada da sua palavra e do seu amor no meio das confusões deste tempo não se apague em nós, mas torne-se cada vez mais forte e mais resplendorosa. Para que sejamos com Ele pessoas do dia, astros para o nosso tempo.

O segundo símbolo da Vigília Pascal – a noite do Baptismo – é a água. Esta aparece, na Sagrada Escritura e consequentemente também na estrutura íntima do sacramento do Baptismo, com dois significados opostos. De um lado, temos o mar que se apresenta como o poder antagonista da vida sobre a terra, como a sua contínua ameaça, à qual, porém, Deus colocou um limite. Por isso o Apocalipse, ao falar do mundo novo de Deus, diz que lá o mar já não existirá (cf. 21, 1). É o elemento da morte. E assim torna-se a representação simbólica da morte de Jesus na cruz: Cristo desceu aos abismos do mar, às águas da morte, como Israel penetrou no Mar Vermelho. Ressuscitado da morte, Ele dá-nos a vida. Isto significa que o Baptismo não é apenas um banho, mas um novo nascimento: com Cristo, como que descemos ao mar da morte para dele subirmos como criaturas novas.

O outro significado com que encontramos a água é como nascente fresca, que dá a vida, ou também como o grande rio donde provém a vida. Segundo o ordenamento primitivo da Igreja, o Baptismo devia ser administrado com água fresca de nascente. Sem água, não há vida.
Impressiona a grande importância que têm na Sagrada Escritura os poços. São lugares donde brota a vida. Junto do poço de Jacob, Cristo anuncia à Samaritana o poço novo, a água da vida verdadeira. Manifesta-Se a ela como o novo e definitivo Jacob, que abre à humanidade o poço que esta aguarda: aquela água que dá a vida que jamais se esgota (cf. Jo 4, 5-15). São João narra-nos que um soldado feriu com uma lança o lado de Jesus e que, do lado aberto – do seu coração trespassado –, saiu sangue e água (cf. Jo 19, 34). Nisto, a Igreja Antiga viu um símbolo do Baptismo e da Eucaristia, que brotam do coração trespassado de Jesus. Na morte, Jesus mesmo Se tornou a nascente. Numa visão, o profeta Ezequiel tinha visto o Templo novo, do qual jorra uma nascente que se torna um grande rio que dá a vida (cf. Ez 47, 1-12); para uma Terra que sempre sofria com a seca e a falta de água, esta era uma grande visão de esperança. A cristandade dos primórdios compreendeu: em Cristo, realizou-se esta visão. Ele é o Templo verdadeiro, o Templo vivo de Deus. E é também a nascente de água viva. D’Ele brota o grande rio que, no Baptismo, faz frutificar e renova o mundo; o grande rio de água viva é o seu Evangelho que torna fecunda a terra. Mas, num discurso durante a Festa das Tendas, Jesus profetizou uma coisa ainda maior: «Do seio daquele que acreditar em Mim, correrão rios de água viva» (Jo 7, 38). No Baptismo, o Senhor faz de nós não só pessoas de luz, mas também nascentes das quais brota água viva. Todos nós conhecemos tais pessoas que nos deixam de algum modo restaurados e renovados; pessoas que são como que uma fonte de água fresca borbotante. Não devemos necessariamente pensar a pessoas grandes como Agostinho, Francisco de Assis, Teresa de Ávila, Madre Teresa de Calcutá e assim por diante, pessoas através das quais verdadeiramente rios de água viva penetraram na história. Graças a Deus, encontramo-las continuamente mesmo no nosso dia a dia: pessoas que são uma nascente. Com certeza, conhecemos também o contrário: pessoas das quais emana um odor parecido com o dum charco com água estagnada ou mesmo envenenada. Peçamos ao Senhor, que nos concedeu a graça do Baptismo, para podermos ser sempre nascentes de água pura, fresca, saltitante da fonte da sua verdade e do seu amor.

O terceiro grande símbolo da Vigília Pascal é de natureza muito particular; envolve o próprio homem. É a entoação do cântico novo: o aleluia. Quando uma pessoa experimenta uma grande alegria, não pode guardá-la para si. Deve manifestá-la, transmiti-la. Mas que sucede quando a pessoa é tocada pela luz da ressurreição, entrando assim em contacto com a própria Vida, com a Verdade e com o Amor? Disto, não pode limitar-se simplesmente a falar; o falar já não basta. Ela tem de cantar. Na Bíblia, a primeira menção do acto de cantar encontra-se depois da travessia do Mar Vermelho. Israel libertou-se da escravidão. Subiu das profundezas ameaçadoras do mar. É como se tivesse renascido. Vive e é livre. A Bíblia descreve a reacção do povo a este grande acontecimento da salvação com a frase: «O povo acreditou no Senhor e em Moisés, seu servo» (Ex 14, 31). Segue-se depois a segunda reacção que nasce, por uma espécie de necessidade interior, da primeira: «Então Moisés e os filhos de Israel cantaram este cântico ao Senhor…». Na Vigília Pascal, ano após ano, nós, cristãos, depois da terceira leitura entoamos este cântico, cantamo-lo como o nosso cântico, porque também nós, pelo poder de Deus, fomos tirados para fora da água e libertos para a vida verdadeira.

Para a história do cântico de Moisés depois da libertação de Israel do Egipto e depois da subida do Mar Vermelho, há um paralelismo surpreendente no Apocalipse de São João. Antes de iniciarem os últimos sete flagelos impostos à terra, aparece ao vidente «uma espécie de mar de cristal misturado com fogo. Sobre o mar de cristal, estavam de pé os vencedores do Monstro, da sua imagem e do número do seu nome. Tinham na mão harpas divinas e cantavam o cântico de Moisés, o servo de Deus, e o cântico do Cordeiro…» (Ap 15, 2s). Com esta imagem, é descrita a situação dos discípulos de Jesus em todos os tempos, a situação da Igreja na história deste mundo. Considerada humanamente, tal situação é contraditória em si mesma. Por um lado, a comunidade encontra-se no Êxodo, no meio do Mar Vermelho. Num mar que, paradoxalmente, é ao mesmo tempo gelo e fogo. E não deve porventura a Igreja caminhar sempre sobre o mar através do fogo e do frio? Humanamente falando, deveria afundar. Mas não, e enquanto caminha ainda no meio deste Mar Vermelho, ela canta – entoa o cântico de louvor dos justos: o cântico de Moisés e do Cordeiro, no qual concordam a Antiga e a Nova Aliança. Enquanto, na realidade deveria afundar, a Igreja entoa o cântico de agradecimento dos redimidos. Está sobre as águas de morte da história e todavia já está ressuscitada. Cantando, ela agarra-se à mão do Senhor, que a sustenta por cima das águas. E sabe que deste modo é guindada fora da força de gravidade da morte e do mal – uma força da qual, sem tal intervenção, não haveria caminho algum de fuga – guindada e atraída para dentro da nova força de gravidade de Deus, da verdade e do amor. De momento, ela encontra-se ainda entre os dois campos gravitacionais. Mas desde que Jesus ressuscitou, a gravitação do amor é mais forte que a do ódio; a força de gravidade da vida é mais forte que a da morte. Porventura não é esta a situação da Igreja de todos os tempos? Sempre dá a impressão que ela deva afundar, e todavia já está salva. São Paulo ilustrou esta situação com as palavras: «Somos considerados (…) como agonizantes, embora estejamos com vida» (2 Cor 6, 9). A mão salvadora do Senhor nos sustenta e assim podemos cantar já agora o cântico dos redimidos, o cântico novo dos ressuscitados: Aleluia! Amen.

VIA CRUCIS


VIA CRUCIS NO COLISEU
SAUDAÇÃO DO PAPA BENTO XVI
Palatino
Sexta-feira Santa, 10 de Abril de 2009

Amados irmãos e irmãs!

No termo da dramática narração da Paixão, o evangelista São Marcos escreve: «O centurião que estava em frente de Jesus, ao vê-Lo expirar daquela maneira, exclamou: “Na verdade, este homem era Filho de Deus!”» (Mc 15, 39). Não pode deixar de surpreender-nos a profissão de fé deste soldado romano, que tinha assistido às sucessivas fases da crucifixão. Quando as trevas da noite se preparavam para descer sobre aquela Sexta-feira única na história, quando já o sacrifício da Cruz se tinha consumado e os presentes se apressavam para poder celebrar regularmente a Páscoa hebraica, as poucas palavras, escapadas dos lábios de um anónimo comandante do exército romano, ressoaram no silêncio diante daquela morte muito singular. Este oficial do exército romano, que assistira à execução de um de tantos condenados à pena capital, soube reconhecer naquele Homem crucificado o Filho de Deus, que expirou no abandono mais humilhante. O seu fim ignominioso deveria ter determinado o triunfo definitivo do ódio e da morte sobre o amor e sobre a vida. Mas não foi assim! No cimo do Gólgota, erguia-se a Cruz da qual pendia um homem já morto, mas aquele homem era o «Filho de Deus», como não pôde deixar de confessar o centurião, «ao vê-Lo expirar daquela maneira» – especifica o evangelista.

A profissão de fé deste soldado é-nos proposta todas as vezes que voltamos a ouvir a narração da Paixão segundo São Marcos. Nesta noite também nós, como ele, nos detemos a fixar o rosto exânime do Crucificado, no fim da devoção habitual da Via-Sacra que reuniu, graças à rádio e à televisão, muita gente de toda a parte do mundo. Revivemos a trágica vicissitude de um Homem único na história de todos os tempos, que mudou o mundo, não matando os outros, mas deixando-Se matar pregado numa cruz. Este Homem, aparentemente um de nós e no entanto perdoa aos seus algozes que o matavam, é o «Filho de Deus», que – como nos recorda o apóstolo Paulo – «não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo (…), humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz» (Fil 2, 6-8).

A dolorosa paixão do Senhor Jesus não pode deixar de mover à piedade mesmo os corações mais duros, porque constitui o ápice da revelação do amor de Deus por cada um de nós. Observa São João: «Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único, para que todo o que n’Ele acredita não pereça mas tenha a vida eterna» (Jo 3, 16). É por nosso amor que Cristo morre na cruz. No decurso dos milénios, falanges de homens e mulheres deixaram-se fascinar por este mistério e seguiram a Jesus, fazendo da própria vida por sua vez, como Ele e graças ao seu auxílio, um dom para os irmãos. São os santos e os mártires, muitos dos quais nos são desconhecidos. Mesmo neste nosso tempo, quantas pessoas, no silêncio da sua vida diária, unem os seus sofrimentos aos do Crucificado, tornando-se apóstolos de uma autêntica renovação espiritual e social! O que seria do homem sem Cristo? Observa Santo Agostinho: «Ficarias sempre num estado de miséria, se Ele não tivesse usado de misericórdia contigo. Não terias voltado a viver, se Ele não tivesse partilhado a tua morte. Terias desfalecido, se Ele não tivesse vindo em teu auxílio. Ter-te-ias perdido, se Ele não tivesse chegado» (Discurso 185, 1). Então porque não acolhê-Lo na nossa vida?

Nesta noite, detenhamo-nos a contemplar o seu rosto desfigurado: é o rosto do Homem das dores, que assumiu todas as nossas angústias mortais. O seu rosto reflecte-se no de cada pessoa humilhada e ofendida, doente e atribulada, só, abandonada e desprezada. Derramando o seu sangue, resgatou-nos da escravidão da morte, quebrou a solidão das nossas lágrimas, entrou em cada uma das nossas penas e aflições.

Irmãos e irmãs! Enquanto se destaca a Cruz sobre o Gólgota, o olhar da nossa fé projecta-se para alvorada do Dia novo e saboreamos já a alegria e o fulgor da Páscoa. «Se morremos com Cristo – escreve São Paulo – acreditamos que também com Ele viveremos» (Rm 6, 8). Com esta certeza, continuemos o nosso caminho. Amanhã, Sábado Santo, permaneceremos velando em oração. Mas, desde já, unimo-nos em oração com Maria, a Virgem Nossa Senhora das Dores, rezando com todos os aflitos, mormente com todos os atribulados da zona desastrada de Áquila: pedimos que nesta noite escura se levante, para eles também, a estrela da esperança, a luz do Senhor ressuscitado.

Desde já desejo a todos uma Páscoa feliz, na luz do Senhor ressuscitado.

Celebração da Paixão do Senhor

domingo, 12 de abril de 2009

Quinta-Feira Santa: Santa Missa "in Coena Domini"


SANTA MISSA "IN COENA DOMINI"
HOMILIA DO PAPA BENTO XVI

Basílica de São João de Latrão
Quinta-feira Santa, 9 de Abril de 2009

Amados irmãos e irmãs!

Qui, pridie quam pro nostra omniumque salute pateretur, hoc est hodie, accepit panem: assim diremos hoje no Cânone da Santa Missa. «Hoc est hodie»: a liturgia de Quinta-feira Santa insere no texto da oração a palavra «hoje», sublinhando deste modo a dignidade particular deste dia. Foi «hoje» que Ele o fez: deu-Se a Si mesmo para sempre no sacramento do seu Corpo e do seu Sangue. Este «hoje» é antes de mais nada o memorial da Páscoa de então. Mas é mais do que isso. Com o Cânone, entramos neste «hoje». O nosso hoje entra em contacto com o seu hoje. Ele faz isto agora. Com a palavra «hoje», a liturgia da Igreja quer induzir-nos a olhar com grande atenção interior para o mistério deste dia, para as palavras com que o mesmo se exprime. Procuremos, pois, escutar de maneira nova a narração da instituição tal como a Igreja, com base na Escritura e contemplando o próprio Senhor, a formulou.

A primeira coisa que faz impressão é o facto de a narração da instituição não ser uma frase autónoma, mas começar por um pronome relativo: qui pridie. Este «qui» liga toda a narração à frase anterior da oração: «… se converta para nós no Corpo e Sangue de vosso amado Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo». Deste modo, a narração fica unida à oração anterior, ao Cânone inteiro e torna-se ela mesma oração. Não é de modo algum uma simples narração aqui inserida nem se trata de palavras de autoridade, como um todo à parte, que interromperiam mesmo a oração. É oração. E somente na oração se realiza o acto sacerdotal da consagração, que se torna transformação, transubstanciação dos nossos dons de pão e vinho em Corpo e Sangue de Cristo. Rezando neste momento central, a Igreja está em total acordo com o acontecimento no Cenáculo, porque o agir de Jesus é descrito com as palavras: «gratias agens benedixit – dando graças, abençoou-o». Com esta expressão, a liturgia romana dividiu em duas palavras aquilo que, no hebraico é uma palavra só – berakha –, enquanto em grego já aparece em dois termos: eucharistía e eulogía. O Senhor dá graças. Ao agradecermos, reconhecemos que algo é dádiva que provém de outrem. O Senhor agradece e assim restitui a Deus o pão, «fruto da terra e do trabalho do homem», para de novo o receber d’Ele. Agradecer torna-se abençoar. O que foi entregue nas mãos de Deus, volta d’Ele abençoado e transformado. Por isso, a liturgia romana tem razão quando interpreta a nossa prece neste momento sagrado por meio das palavras: «oferecemos», «suplicamos», «pedimos que aceiteis», «que abençoeis estas ofertas». Tudo isto se encerra na palavra «eucharistia».

Há outra particularidade na narração da instituição referida no Cânone Romano, que queremos meditar nesta hora. A Igreja orante fixa o olhar nas mãos e nos olhos do Senhor. Quer de certo modo observá-Lo, quer perceber o gesto do seu rezar e do seu agir naquela hora singular, encontrar a figura de Jesus por assim dizer também através dos sentidos. «Ele tomou o pão em suas santas e adoráveis mãos…». Olhamos para aquelas mãos com que Ele curou os homens; mãos com que abençoou as crianças; mãos que impôs sobre as pessoas; mãos que foram cravadas na Cruz e que para sempre conservarão os estigmas como sinais do seu amor pronto a morrer. Agora somos nós encarregados de fazer o que Ele fez: tomar nas mãos o pão para que, através da oração eucarística, seja transformado. Na Ordenação Sacerdotal, as nossas mãos foram ungidas, para que se tornassem mãos de bênção. Nesta hora, rezemos ao Senhor para que as nossas mãos sirvam cada vez mais para levar a salvação, levar a bênção, tornar presente a sua bondade.

Depois o Cânone toma, da introdução à Oração Sacerdotal de Jesus (cf. Jo 17, 1), as palavras: «Levantando os olhos ao céu, para Vós, Deus, seu Pai todo-poderoso…». O Senhor ensina-nos a levantar os olhos e sobretudo o coração: a levantar o olhar, afastando-o das coisas do mundo; a orientar-nos na oração para Deus e assim nos erguermos. Num hino da Liturgia das Horas, pedimos ao Senhor que guarde os nossos olhos, para que não acolham nem deixem entrar em nós «vanitates» – as vaidades, as nulidades, aquilo que não passa de ilusão. Pedimos que, através dos olhos, não entre em nós o mal, falsificando e manchando assim o nosso ser. Mas queremos rezar principalmente para ter olhos que vejam tudo o que é verdadeiro, esplendoroso e bom; a fim de nos tornarmos capazes de ver a presença de Deus no mundo. Pedimos para vermos o mundo com olhos de amor, com os olhos de Jesus, reconhecendo assim os irmãos e irmãs que precisam de nós, que estão à espera da nossa palavra e da nossa acção.

Depois de o ter abençoado, o Senhor parte o pão e distribui-o aos discípulos. Partir o pão é o gesto do pai de família que se preocupa dos seus e lhes dá aquilo de que têm necessidade para a vida. Mas é também o gesto da hospitalidade com que o estrangeiro, o hóspede é acolhido na família sendo-lhe concedido tomar parte na sua vida. Partir-partilhar é unir. Através da partilha, cria-se comunhão. No pão repartido, o Senhor distribui-Se a Si próprio. O gesto de partir alude misteriosamente também à sua morte, ao amor até à morte. Ele distribui-Se a Si mesmo, verdadeiro «pão para a vida do mundo» (cf. Jo 6, 51). O alimento de que o homem, no mais fundo de si mesmo, tem necessidade é a comunhão com o próprio Deus. Dando graças e abençoando, Jesus transforma o pão: já não dá pão terreno, mas a comunhão consigo mesmo. Esta transformação, porém, quer ser o início da transformação do mundo, para que se torne um mundo de ressurreição, um mundo de Deus. Sim, trata-se de transformação: do homem novo e do mundo novo que têm início no pão consagrado, transformado, transubstanciado.

Dissemos que partir o pão é um gesto de comunhão, é unir através do partilhar. Deste modo, no próprio gesto já se alude à natureza íntima da Eucaristia: esta é agape, é amor que se tornou corpóreo. Na palavra «agape», compenetram-se os significados de Eucaristia e amor. No gesto de Jesus que parte o pão, o amor que se participa alcançou a sua radicalidade extrema: Jesus deixa-Se fazer em pedaços como pão vivo. No pão distribuído, reconhecemos o mistério do grão de trigo que morre e assim dá fruto. Reconhecemos a nova multiplicação dos pães, que deriva da morte do grão de trigo e continuará até ao fim do mundo. Ao mesmo tempo vemos que a Eucaristia não pode jamais ser apenas uma acção litúrgica; só está completa, quando a agape litúrgica se torna amor no dia a dia. No culto cristão, as duas coisas tornam-se uma só: ser cumulados de graça pelo Senhor no acto cultual e o culto do amor para com o próximo. Nesta hora, peçamos ao Senhor a graça de aprender a viver cada vez melhor o mistério da Eucaristia de tal modo que assim tenha início a transformação do mundo.

Depois do pão, Jesus toma o cálice do vinho. O Cânone Romano qualifica o cálice que o Senhor dá aos discípulos como «praeclarus calix» (como cálice sagrado), aludindo assim ao Salmo 23/22, o Salmo que fala de Deus como Pastor poderoso e bom. Lê-se nele: «Diante de mim, preparastes uma mesa, sob o olhar dos meus inimigos… o meu cálice transborda» – calix praeclarus. O Cânone Romano interpreta esta expressão do Salmo como uma profecia, que se realiza na Eucaristia: Sim, o Senhor prepara-nos a mesa no meio das ameaças deste mundo e dá-nos o cálice sagrado – o cálice da grande alegria, da verdadeira festa, pela qual todos anelamos – o cálice cheio do vinho do seu amor. O cálice significa as bodas: agora chegou a «hora», a que de forma misteriosa tinham aludido as bodas de Caná. Sim, a Eucaristia é mais do que um banquete, é uma festa de núpcias. E estas núpcias fundam-se na autodoacção de Deus até à morte. Nas palavras da Última Ceia de Jesus e no Cânone da Igreja, o mistério solene das núpcias esconde-se sob a expressão «novum Testamentum». Este cálice é o novo Testamento, «a nova Aliança no meu Sangue» – assim a frase de Jesus sobre o cálice é referida por Paulo, na segunda leitura de hoje (1 Cor 11, 25). O Cânone Romano acrescenta «da nova e eterna Aliança», para exprimir a indissolubilidade do laço nupcial de Deus com a humanidade. O motivo pelo qual as antigas traduções da Bíblia não falam de Aliança, mas de Testamento, deve-se ao facto de não serem dois contraentes de nível igual que se encontram, mas entra em acção a distância infinita entre Deus e o homem. Aquilo que designamos por nova e antiga Aliança não é um acto acordado entre duas partes iguais, mas dom meramente de Deus que nos deixa em herança o seu amor, nos deixa a Si mesmo. E com certeza Ele, superando toda a distância através deste dom do seu amor, torna-nos depois verdadeiramente seus «parceiros» e realiza-se o mistério nupcial do amor.

Para se poder compreender em profundidade o que ali sucede, devemos escutar ainda mais atentamente as palavras da Bíblia e o seu significado originário. Os estudiosos dizem-nos que, nos tempos remotos de que falam as histórias dos Patriarcas de Israel, «ratificar uma aliança» significa «entrar com outros numa ligação assente sobre o sangue, ou seja, acolher o outro na própria federação e assim entrar numa comunhão de direitos um com o outro». Deste modo, cria-se uma consanguinidade real, embora não material. Os parceiros tornam-se de algum modo «irmãos com a mesma carne e os mesmos ossos». A aliança realiza um todo que significa paz (cf. ThWNT, II, 105-137). Será possível agora fazermos pelo menos uma ideia do que sucedeu na hora da Última Ceia e que, desde então, se renova sempre que celebramos a Eucaristia? Deus, o Deus vivo estabelece connosco uma comunhão de paz; mais, Ele cria uma «consanguinidade» entre Ele e nós. Através da encarnação de Jesus, através do seu sangue derramado, fomos atraídos para dentro duma consanguinidade muito real com Jesus e, consequentemente, com o próprio Deus. O sangue de Jesus é o seu amor, no qual a vida divina e a humana se tornaram uma só. Peçamos ao Senhor para compreendermos cada vez mais a grandeza deste mistério, a fim de que o mesmo desenvolva de tal modo a sua força transformadora no nosso íntimo que nos tornemos verdadeiramente consanguíneos de Jesus, permeados pela sua paz e desta maneira também em comunhão uns com os outros.

Agora, porém, surge ainda uma nova questão. No Cenáculo, Cristo dá aos seus discípulos o seu Corpo e o seu Sangue, isto é, dá-Se a Si mesmo na totalidade da sua pessoa. Mas, como pode fazê-lo? Está ainda fisicamente presente no meio deles, está ali diante deles! Eis a resposta: naquela hora, Jesus realiza aquilo que tinha anteriormente anunciado no discurso do Bom Pastor: «Ninguém me tira a vida, sou Eu que a dou espontaneamente. Tenho o poder de a dar e o de a retomar…» (Jo 10, 18). Ninguém Lhe pode tirar a vida: é Ele que por livre decisão a dá. Naquela hora, antecipa a crucifixão e a ressurreição. O que se há-de realizar por assim dizer fisicamente n’Ele, cumpre-o Ele já de antemão na liberdade do seu amor. Ele dá a sua vida e retoma-a na ressurreição, a fim de poder partilhá-la para sempre.

Senhor, hoje destes-nos a vossa vida, destes-nos a Vós mesmo. Penetrai-nos com o vosso amor. Fazei-nos viver no vosso «hoje». Tornai-nos instrumentos da vossa paz. Amen.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Ano Sacerdotal - (19 de Junho de 2009 - 2010)


Por ocasião dos 150 anos da morte do Santo Cura d'Ars, João Maria Vianney, Bento XVI anunciou esta manhã que, de 19 de junho de 2009 a 19 de junho de 2010, se realizará um especial Ano Sacerdotal, que terá como tema: "Fidelidade de Cristo, fidelidade do sacerdote".

Segundo comunicado divulgado pela Sala de Imprensa da Santa Sé, o Santo Padre abrirá este Ano presidindo a celebração das Vésperas, em 19 de junho, solenidade do Santíssimo Coração de Jesus e Dia de santificação sacerdotal, na presença da relíquia de Cura d'Ars trazida pelo Bispo de Belley-Ars. Bento XVI encerrará o Ano em 19 de junho de 2010, participando de um "Encontro Mundial Sacerdotal" na Praça S. Pedro.

Ainda de acordo com o comunicado, durante este Ano jubilar, Bento XVI proclamará São João Maria Vianney "Padroeiro de todos os sacerdotes do mundo". Além disso, será publicado o "Diretório para os Confessores e os Diretos Espirituais", junto a uma coletânea de textos do Santo Padre sobre temas essenciais da vida e da missão sacerdotal na época atual.

A Congregação para o Clero, em parceria com os Ordinários diocesanos e os Superiores dos Institutos religiosos, será o encarregado de promover e coordenar as várias iniciativas espirituais e pastorais. A finalidade deste Ano é ressaltar sempre a importância do papel e da missão do sacerdote na Igreja e na sociedade contemporânea, como também a necessidade de potencializar a formação permanente dos sacerdotes, relacionado-a com a dos seminaristas.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Somos a geração Bento XVI

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10 Conselhos de Bento XVI à gente "jovem"
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1) Dialogar com Deus
“Algum de vós poderia talvez identificar-se com a descrição que Edith Stein fez da sua própria adolescência, ela, que viveu depois no Carmelo de Colónia: "Tinha perdido consciente e deliberadamente o costume de rezar". Durante estes dias podereis recuperar a experiência vibrante da oração como diálogo com Deus, de que sabemos que nos ama e ao que, por sua vez, queremos amar”.
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2) Contar-lhe as penas e alegrias
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“Abri o vosso coração a Deus. Deixai-vos surpreender por Cristo. Dai-lhe o "direito de vos falar" durante estes dias. Abri as portas da vossa liberdade ao seu amor misericordioso. Apresentai as vossas alegrias e as vossas penas a Cristo, deixando que ele ilumine com a sua luz a vossa mente e toque com a sua graça o vosso coração.
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3) Não desconfiar de Cristo
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“Queridos jovens, a felicidade que buscais, a felicidade que tendes o direito de saborear, tem um nome, um rosto: o de Jesus de Nazaré, oculto na Eucaristia. Só ele dá plenitude de vida à humanidade. Dizei, com Maria, o vosso "sim" ao Deus que quer entregar-se a vós. Repito-vos hoje o que disse no princípio de meu pontificado: ’Quem deixa entrar Cristo na sua vida não perde nada, nada, absolutamente nada do que faz a vida livre, bela e grande. ¡Não! Só com esta amizade se abrem de par em par as portas da vida. Só com esta amizade se abrem realmente as grandes potencialidades da condição humana. Só com esta amizade experimentamos o que é belo e o que nos liberta’. Estai plenamente convencidos: Cristo não tira nada do que há de formoso e grande em vós, mas leva tudo à perfeição para a glória de Deus, a felicidade dos homens e a salvação do mundo”.
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4) Estar alegres: querer ser santos
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“Para além das vocações de consagração especial, está a vocação própria de todo o baptizado: também é esta uma vocação a aquele ‘alto grau’ da vida cristã ordinária que se expressa na santidade. Quando se encontra Jesus e se acolhe o seu Evangelho, a vida muda e somos impelidos a comunicar aos outros a experiência própria (...). A Igreja necessita de santos. Todos estamos chamados à santidade, e só os santos podem renovar a humanidade. Convido-vos a que vos esforceis nestes dias por servir sem reservas a Cristo, custe o que custar. O encontro com Jesus Cristo vos permitirá apreciar interiormente a alegria da sua presença viva e vivificante, para testemunhá-la depois no vosso ambiente”.
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5) Deus: tema de conversação com os amigos
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“São tantos os nossos companheiros que ainda não conhecem o amor de Deus, ou procuram encher o coração com sucedâneos insignificantes. Portanto, é urgente ser testemunhos do amor contemplado em Cristo. Queridos jovens, a Igreja necessita autênticos testemunhos para a nova evangelização: homens e mulheres cuja vida tenha sido transformada pelo encontro com Jesus; homens e mulheres capazes de comunicar esta experiência aos outros”.
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6) Ao Domingo, ir à Missa
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Não vos deixeis dissuadir de participar na Eucaristia dominical e ajudai também os outros a descobri-la. Certamente, para que dela emane a alegria que necessitamos, devemos aprender a compreendê-la cada vez mais profundamente, devemos aprender a amá-la. Comprometamo-nos com isso, ¡vale a pena! Descubramos a íntima riqueza da liturgia da Igreja e a sua verdadeira grandeza: não somos nós os que fazemos festa para nós, mas, pelo contrário, é o próprio Deus vivo que prepara uma festa para nós. Com o amor à Eucaristia redescobrireis também o sacramento da Reconciliação, no qual a bondade misericordiosa de Deus permite sempre iniciar de novo a nossa vida.
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7) Demonstrar que Deus não é triste
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Quem descobriu Cristo deve levar os outros para ele. Uma grande alegria não se pode guardar para si mesmo. É necessário transmiti-la. Em numerosas partes do mundo existe hoje um estranho esquecimento de Deus. Parece que tudo anda igualmente sem ele. Mas ao mesmo tempo existe também um sentimento de frustração, de insatisfação de tudo e de todos. Dá vontade de exclamar: ¡Não é possível que a vida seja assim! Verdadeiramente não.
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8) Conhecer a fé
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Ajudai os homens a descobrir a verdadeira estrela que nos indica o caminho: Jesus Cristo. Tratemos nós próprios de conhecê-lo cada vez melhor para poder conduzir também os outros, de modo convincente, para ele. Por isso é tão importante o amor à sagrada Escritura e, em consequência, conhecer a fé da Igreja que nos mostra o sentido da Escritura.
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9) Ajudar: ser útil
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Se pensarmos e vivermos inseridos na comunhão com Cristo, então abrem-se os nossos olhos. Então não nos conformaremos mais com continuar a viver preocupados somente com nós próprios, mas veremos como e onde somos necessários. Vivendo e actuando assim dar-nos-emos conta rapidamente que é muito mais belo ser úteis e estar à disposição dos outros que preocupar-se só com as comodidades que se nos oferecem. Eu sei que vós como jovens aspirais a coisas grandes, que quereis comprometer-vos com um mundo melhor. Demonstrai-o aos homens, Demonstrai-o ao mundo, que espera exactamente este testemunho dos discípulos de Jesus Cristo e que, sobretudo mediante o vosso amor, poderá descobrir a estrela que como crentes seguimos.
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10) Ler a Bíblia
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O segredo para ter um "coração que entenda" é formar-se um coração capaz de escutar. Isto consegue-se meditando sem cessar a palavra de Deus e permanecendo enraizados nela, mediante o esforço de conhecê-la sempre melhor. Queridos jovens, exorto-vos a adquirir intimidade com a Bíblia, a tê-la à mão, para que seja para vós como uma bússola que indica o caminho a seguir. Lendo-a, aprendereis a conhecer Cristo. São Jerónimo observa a este respeito: "O desconhecimento das Escrituras é desconhecimento de Cristo"
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Em resumo...
Construir a vida sobre Cristo, acolhendo com alegria a palavra e pondo em prática a doutrina: ¡eis aqui, jovens do terceiro milénio, o que deve ser o vosso programa! É urgente que surja uma nova geração de apóstolos enraizados na palavra de Cristo, capazes de responder aos desafios do nosso tempo e dispostos a difundir o Evangelho por todo o lado. ¡Isto é o que vos pede o Senhor, a isto vos convida a Igreja, isto é o que o mundo – ainda que sem o saber – espera de vós! E se Jesus vos chama, não tenhais medo de lhe responder com generosidade, especialmente quando vos propõe segui-lo na vida consagrada ou na vida sacerdotal. Não tenhais medo; confiai n’Ele e não ficareis decepcionados.
BENTO XVI

Judeus agradecem palavras do Papa sobre o Holocausto

Delegação do Grão-Rabinato de Israel recebida por Bento XVI no Vaticano, que destacou a importância do diálogo comum


O Grão-Rabinato de Israel “agradeceu” a Bento XVI as suas “claras” tomadas de posição contra a negação da Shoah, no final de um encontro com o Papa que decorreu esta Quinta-feira, no Vaticano.

“Agradecemos ao Vaticano por ter permitido a retoma do diálogo com tomadas de posição claras, deplorando a negação da Shoah”, declarou o Rabino Shear-Yashuv Cohen, que presidiu à delegação judaica, num texto distribuído à imprensa.

Após o polémico “caso “Williamson”, que foi abordado pelo Papa numa carta enviada hoje aos Bispos de todo o mundo, o Rabinato de Israel considera que o encontro desta manhã foi “uma viragem positiva para o regresso do diálogo que existe entre nós”.
Bento XVI, por seu lado, proferiu um discurso em que destacou a importância do diálogo inter-religioso. “O facto de reconhecermos que temos em comum um rico património espiritual”, disse, permitiu estabelecer “um diálogo fundado no respeito e na compreensão mútuas”.

O Papa, que em Maio deste ano viajará à Terra Santa, diz que a sua peregrinação deverá contribuir para o diálogo com judeus e muçulmanos e promover a paz na região e no mundo.
Aos rabinos israelitas, que há duas semanas deviam ter participado no encontro periódico com a comissão para as relações religiosas com o judaísmo - e que por causa da suspensão momentânea das relações que se seguiu ao “caso Williamson” chegaram só nesta Quinta-feira -, o Papa manifestou a sua gratidão, em linha com quanto escrevera na Carta aos bispos do mundo inteiro.
“Agradeço-vos pela vossa visita e renovo o meu empenho no sentido de fazer avançar a visão estabelecida para as gerações futuras, pela declaração «Nostra Aetate» do Concilio Vaticano II”, disse.

Para Bento XVI o diálogo entre os judeus e a Igreja é necessário e possível. E a viagem à Terra Santa será uma demonstração dessa convicção: “A minha intenção é d rezar especialmente pelo dom precioso da unidade e da paz, tanto na região como para a família humana inteira”.
“Possa a minha visita ajudar também a aprofundar o diálogo da Igreja com o povo judaico, de maneira que judeus, cristãos e muçulmanos possam viver em paz e harmonia na Terra Santa”, acrescentou.

Esta Qunta-feira, o Papa enviou uma mensagem aos Bispos católicos de todo o mundo, admitindo que “uma contrariedade que eu não podia prever foi o facto de o caso Williamson se ter sobreposto à remissão da excomunhão”, escreve, lamentando que o seu “gesto discreto de misericórdia” se tenha transformado, na opinião pública, numa espécie de “desmentido da reconciliação entre cristãos e judeus e, consequentemente, como a revogação de quanto, nesta matéria, o Concílio tinha deixado claro para o caminho da Igreja”.

“Por isso mesmo sinto-me ainda mais agradecido aos amigos judeus que ajudaram a eliminar prontamente o equívoco e a restabelecer aquela atmosfera de amizade e confiança que, durante todo o período do meu pontificado – tal como no tempo do Papa João Paulo II –, existiu e, graças a Deus, continua a existir”, acrescenta.

quarta-feira, 4 de março de 2009

50º Aniversário da Morte do Papa Pio XII



SANTA MISSA POR OCASIÃO DO 50º ANIVERSÁRIO DA MORTE
DO SERVO DE DEUS PAPA PIO XII

HOMILIA DO PAPA BENTO XVI

Basílica VaticanaQuinta-feira, 9 de Outubro de 2008

Senhores Cardeais Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio Queridos irmãos e irmãs!

O trecho do livro do Sirácide e o prólogo da Primeira Leitura de São Pedro, proclamados como primeira e segunda leitura, oferecem-nos significativos temas de reflexão nesta celebração eucarística, durante a qual recordamos o meu venerado predecessor, o Servo de Deus Pio XII. Transcorreram exactamente cinquenta anos depois da sua morte, que se verificou nas primeiras horas do dia 9 de Outubro de 1958. O Sirácide, como ouvimos, recordou a quantos desejam seguir o Senhor que devem preparar-se para enfrentar provações, dificuldades e sofrimentos. Para não lhes sucumbir ele admoesta é preciso um coração recto e constante, fidelidade a Deus e paciência juntamente com inflexível determinação em prosseguir no caminho do bem. O sofrimento apura o coração do discípulo do Senhor, como o ouro purificado na fornalha. "Aceita tudo o que te acontecer escreve o autor sagrado e nas vicissitudes da tua humilhação tem paciência, porque no fogo se prova o ouro e os homens agradáveis a Deus, no caminho da humilhação" (2, 4-5).

São Pedro, por seu lado, na perícope que nos foi proposta, dirigindo-se aos cristãos da comunidade da Ásia Menor que estavam submetidos a tormentos por "diversas provações", vai ainda mais além: pede-lhes que sejam, não obstante, "cheios de alegria" (1 Pd 1, 6). De facto, a prova é necessária, observa ele, "para que o valor da vossa fé, muito mais preciosa que o ouro perecível, o qual se prova pelo fogo destinado a perecer e contudo purificado com o fogo seja digna de louvor, de glória e de honra quando Jesus Cristo se manifestar" (1 Pd 1, 7). E depois, pela segunda vez, exorta-os a rejubilar, aliás a exultar "de alegria inefável e gloriosa" (v. 8). A razão profunda deste júbilo espiritual consiste no amor a Jesus e na certeza da sua presença invisível. É Ele quem torna a fé e a esperança dos crentes inabaláveis também nas fases mais complicadas e duras da existência.

À luz destes textos bíblicos podemos ler a vicissitude terrena do Papa Pacelli e o seu longo serviço à Igreja que iniciou em 1901 sob Leão XIII, e que continuou com São Pio X, Bento XV e Pio XI. Estes textos bíblicos ajudam-nos sobretudo a compreender qual tenha sido a fonte à qual ele foi buscar coragem e paciência no seu ministério pontifício, desempenhado nos anos atormentados da segunda guerra mundial e no período seguinte, não menos complexo, da reconstrução e das difíceis relações internacionais que passaram à história com a qualificação significativa de "guerra fria".

Miserere mei Deus, secundum magnam misericordiam tuam": com esta invocação do Salmo 50/51 Pio XII iniciava o seu testamento. E prosseguia: "Estas palavras que, ciente de ser imerecedor e ímpar, pronunciei no momento em que dei, emocionado, a minha aceitação à eleição para Sumo Pontífice, com muito mais fundamento o repito agora". Faltavam dois anos para a sua morte. Abandonar-se nas mãos misericordiosas de Deus: foi esta a atitude que cultivou constantemente este meu venerado Predecessor, o último Papa nascido em Roma e pertencente a uma família ligada há muitos anos à Santa Sé. Na Alemanha, onde desempenhou a função de Núncio Apostólico, primeiro em Munique e depois em Berlim até 1929, deixou atrás de si uma grata memória, sobretudo por ter colaborado com Bento XV na tentativa de impedir "o massacre inútil" da Guerra Mundial, e por ter advertido desde o seu surgir o perigo constituído pela monstruosa ideologia nacional-socialista com a sua perniciosa raiz antisemita e anticatólica. Criado Cardeal em Dezembro de 1929, e tendo-se tornado pouco depois Secretário de Estado, foi durante nove anos fiel colaborador de Pio XI, numa época marcada pelos totalitarismos: o fascista, o nazista e o comunista soviético, condenados respectivamente pelas Encíclicas Não temos necessidade, Mit Brennender Sorge e Divini Redemptoris.

"Quem ouve a minha palavra e crê.... tem a vida eterna" (Jo 5, 24). Esta certeza dada por Jesus, que ouvimos no Evangelho, faz-nos pensar nos momentos mais difíceis do pontificado de Pio XII quando, vendo o esvaecer de qualquer certeza humana, sentia grande necessidade, também através de um constante esforço ascético, de aderir a Cristo, única certeza que não passa. A Palavra de Deus torna-se assim luz para o seu caminho, um caminho no qual o Papa Pacelli confortou refugiados e perseguidos, teve que enxugar lágrimas de dor e chorar as inúmeras vítimas da guerra. Só Cristo é verdadeira esperança do homem; só confiando n'Ele o coração humano se pode abrir ao amor que vence o ódio. Esta consciência acompanhou Pio XII no seu ministério de Sucessor de Pedro, ministério que iniciou precisamente quando se adensavam sobre a Europa e sobre o resto do mundo as nuvens ameaçadoras de um novo conflito mundial, que ele procurou evitar de todas as formas: "É iminente o perigo, mas ainda estamos a tempo. Nada está perdido com a paz. Tudo se perde com a guerra", gritou na sua radiomensagem de 24 de Agosto de 1939 (AAS, XXXI, 1939, p. 334).

A guerra pôs em evidencia o amor que sentia pela sua "amada Roma", amor testemunhado pela intensa obra de caridade que promoveu em defesa dos perseguidos, sem qualquer distinção de religião, etnia, nacionalidade, nem pertença política. Quando, estando a cidade ocupada, lhe foi repetidamente aconselhado deixar o Vaticano para se pôr em salvo, a sua resposta foi sempre idêntica e decidida: "Não deixarei Roma nem o meu lugar, mesmo que tivesse que morrer" (cf. Summarium, p. 186). Os familiares e outras testemunhas referiram ainda as suas privações no que respeita à alimentação, aquecimento, vestuário, conforto, a que se submeteu voluntariamente para partilhar a condição do povo duramente provado pelos bombardeamentos e pelas consequências da guerra (cf. A. Tornielli, Pio XII, Um homem no trono de Pedro). E como não recordar a radiomensagem de Natal de Dezembro de 1942? Com a voz quebrada pela comoção deplorou a situação das "centenas de milhares de pessoas, que, sem culpa própria alguma, por vezes só por razões de nacionalidade ou de raça, são destinadas à morte ou a um definhamento progressivo" (AAS, XXXV, 1943, p. 23), fazendo uma referencia clara à deportação e ao extermínio perpetrado contra os judeus. Agiu com muita frequência de modo secreto e silencioso precisamente porque, à luz das situações concretas daquele momento histórico complexo, ele intuía que só assim se podia evitar o pior e salvar o maior número possível de judeus. Por estas suas intervenções, numerosas e unânimes confirmações de gratidão lhe foram dirigidas no final da guerra, assim como no momento da morte, pelas mais iminentes autoridades do mundo judaico, como por exemplo, o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, Golda Meir, que assim escreveu: "Quando o martírio mais assustador atingiu o nosso povo, durante os dez anos de terror nazista, a voz do Pontífice elevou-se a favor das vítimas", concluindo com comoção: "Nós choramos a perda de um grande servidor da paz".

Infelizmente o debate histórico sobre a figura do Servo de Deus Pio XII, nem sempre sereno, não pôs em evidencia todos os aspectos do seu poliédrico pontificado. Foram muitíssimos os discursos, as alocuções e as mensagens que dirigiu a cientistas, médicos, representantes das mais diversificadas categorias de trabalhadores, alguns dos quais conservam ainda hoje uma extraordinária actualidade e continuam a ser ponto de referencia certo. Paulo vi, que foi seu fiel colaborador durante muitos anos, descreveu-o como um erudito, atento estudioso, aberto aos caminhos modernos da pesquisa e da cultura, com uma fidelidade e coerência sempre firme quer aos princípios da racionalidade humana, quer ao intangível depósito da verdade da fé. Considerava-o como um precursor do Concílio Vaticano II (cf. Angelus de 10 de Março de 1974). Nesta perspectiva, muitos dos seus documentos mereceriam ser recordados, mas limito-me a citar alguns. Com a Encíclica Mystici Corporis, publicada a 29 de Junho de 1943 quando ainda enfurecia a guerra, ele descrevia as relações espirituais e visíveis que unem os homens ao Verbo encarnado e propunha integrar nesta perspectiva todos os temas principais da eclesiologia, oferecendo pela primeira vez uma síntese dogmática e teológica que teria sido a base para a Constituição dogmática conciliar Lumen gentium.

Poucos meses mais tarde, a 20 de Setembro de 1943, com a Encíclica Divino afflante Spiritu estabelecia as normas doutrinais para o estudo da Sagrada Escritura, realçando a sua importância e o seu papel na vida crista. Trata-se de um documento que testemunha uma grande abertura à pesquisa científica sobre os textos bíblicos. Como não recordar esta Encíclica, quando estão a decorrer os trabalhos do Sínodo que tem como tema precisamente "A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja"? Deve-se à intuição profética de Pio XII o início de um sério estudo das características da historiografia antiga, para melhor compreender a natureza dos livros sagrados, sem diminuir ou negar o seu valor histórico. O aprofundamento dos "géneros literários", que pretendia compreender melhor o que o autor sagrado quisera dizer, até 1943 tinha sido visto com algumas suspeitas, também devido aos abusos que se tinham verificado. A Encíclica reconhecia a sua justa aplicação, declarando legítimo o seu uso para o estudo não só do Antigo testamento, mas também do Novo. "Depois hoje esta arte explicou o Papa a que se costuma chamar crítica textual e nas edições dos autores profanos emprega-se com grande louvor e igual proveito, com pleno direito se aplica aos Livros Sagrados precisamente pela reverencia devida à palavra de Deus". E acrescentou: "Finalidade sua é de facto restituir com toda a possível exactidão o texto sagrado ao seu teor primitivo, purificando-o das deformações nele inseridas pelas faltas dos copistas e libertando-o dos comentários e lacunas, das transposições de palavras, das repetições e de defeitos semelhantes de todos os tipos, que nos escritos transmitidos à mão durante séculos costumam infiltrar-se" (AAS, XXXV, 1943, p. 336).

A terceira Encíclica que pretendo mencionar é a Mediator Dei, dedicada à liturgia, publicada a 20 de Novembro de 1947. Com este Documento o Servo de Deus estimulou o movimento litúrgico, insistindo sobre o "elemento essencial do culto", que "deve ser interno: de facto, é necessário escreve ele viver sempre em Cristo, dedicar-se totalmente a Ele, dar glória ao Pai n'Ele, com Ele e por Ele. A sagrada Liturgia exige que estes dois elementos estejam intimamente unidos...Diversamente, a religião torna-se um formalismo sem fundamento e sem conteúdo". Depois, não podemos deixar de mencionar o estímulo notável que este Pontífice deu à actividade missionária da Igreja com as Encíclicas Evangelii praecones (1951) e Fidei donum (1957), realçando o dever de cada comunidade de anunciar o Evangelho às nações, como o Concílio Vaticano II fará com vigor corajoso. Aliás, o Papa Pacelli tinha mostrado o amor pelas missões desde o início do pontificado, quando em Outubro de 1939 quis consagrar pessoalmente doze Bispos de Países de missão, entre os quais um indiano, um chinês, um japonês, o primeiro Bispo africano e o primeiro Bispo de Madagáscar. Uma das suas preocupações pastorais constantes foi, por fim, a promoção do papel dos leigos, para que a comunidade eclesial pudesse servir-se de todas as energias e recursos disponíveis. Também por isto a Igreja e o mundo lhe são gratos.

Queridos irmãos e irmãs, enquanto rezamos para que prossiga felizmente a causa de beatificação do Servo de Deus Pio XII, é bom recordar que a santidade foi o seu ideal, um ideal que não deixou de propor a todos. Por isso incrementou as causas de beatificação e canonização de pessoas pertencentes a diversos povos, representantes de todos os estados de vida, funções e profissões, reservando amplo espaço às mulheres. Indicou precisamente Maria, a Mulher da salvação, como sinal de esperança certa proclamando o dogma da Assunção durante o Ano Santo de 1950. Neste nosso mundo que, como então, está atormentado por preocupações e angústias pelo seu futuro; neste mundo onde, talvez mais do que naquela época, o afastamento de muitos da verdade e da virtude deixa entrever cenários privados de esperança, Pio XII convida-nos a dirigir o olhar para Maria elevada à glória celeste. Convida-nos a invocá-la com confiança, para que nos faça apreciar cada vez mais o valor da vida sobre a terra e nos ajude a dirigir o olhar para a meta verdadeira para a qual todos estamos destinados: a da vida eterna que, como garante Jesus, já possui quem ouve e segue a sua palavra. Amém!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Papa Bento XVI pede pelo seu Ministério com Sucessor de Pedro


Na manhã deste domingo, 22, festa da Cátedra de São Pedro, o Papa Bento XVI, antes da recitação do Ângelus, pediu orações para que possa exercer fielmente o papel que a Providência lhe confiou como Sucessor do Apóstolo Pedro, pela unidade da Igreja.

O Papa começou citando o Evangelho do dia, especialmente o episódio do paralítico perdoado e curado. Enquanto Jesus pregava, disse o Papa, foram-lhe apresentados vários doentes, entre os quais um paralítico, que jazia há anos em uma maca.

Ao vê-lo, o Senhor disse: “Filho, os seus pecados lhe são perdoados”.Porém, alguns dos presentes ficaram escandalizados ao ouvir tais palavras. Então, Jesus replicou: “Para que saibam que o Filho do Homem tem o poder de perdoar os pecados na terra, digo-lhe: levante-se, tome a sua maca e vá para casa”. E o paralítico foi embora curado. E o Papa acrescentou:"Esta narração evangélica mostra que Jesus tem o poder não só de sarar o corpo doente, mas também de perdoar os pecados; ou melhor, a cura física é sinal do restabelecimento espiritual que produz o seu perdão”.

Com efeito, recordou o Santo Padre, o pecado é uma forma de paralisia do espírito, da qual somente o poder do amor misericordioso de Deus pode nos libertar, nos permitindo levantar e retomar o caminho do bem.Festa da Cátedra de São Pedro Para além da celebração dominical – observou o Papa – ocorre, neste dia 22 de Fevereiro, a festa da Cátedra de São Pedro: "A Cátedra de Pedro simboliza a autoridade do Bispo de Roma, chamado a desempenhar um peculiar serviço em relação a todo o Povo de Deus.

Logo depois dos martírio de São Pedro e São Paulo, foi reconhecido à Igreja de Roma o papel primacial em toda a comunidade católica, papel já atestado no século II por Santo Inácio de Antioquia e Santo Ireneu de Lyon. Este singular e específico ministério do Bispo de Roma foi reafirmado pelo Concílio Ecuménico Vaticano II.

"Na comunhão eclesiástica – conforme Constituição Dogmática sobre a Igreja – existem legitimamente Igrejas particulares, que gozam de tradições próprias, permanecendo íntegro o primado da Cátedra de Pedro, que preside à comunhão universal da caridade, tutela as legítimas variedades e, ao mesmo tempo vela, para que o que é particular, não só não prejudique a unidade, mas sim a reforce.

Esta festa me oferece a ocasião para vos pedir que me acompanheis com as vossas orações, para que possa desempenhar fielmente a alta responsabilidade que a Providência Divina me confiou como Sucessor do Apóstolo Pedro"."Que Maria nos abra o coração à conversão"

Ao concluir a recitação das Ave-Marias, Bento XVI convidou a dirigir o olhar para Maria, que nestes dias foi celebrada em Roma sob a invocação de Nossa Senhora da Confiança. Ocasião para o Papa recordar o iminente início da Quaresma:“A ela pedimos que nos ajude a entrar com as devidas disposições de espírito no tempo da Quaresma, que terá início na próxima quarta-feira, com o sugestivo rito das Cinzas. Que Maria nos abra o coração à conversão e à escuta dócil da Palavra de Deus”. Por fim, Bento XVI saldou os diversos grupos de peregrinos, em suas respectivas línguas, concedendo a todos a sua Bênção Apostólica.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Papa manifesta estima e proximidade ao novo patriarca de Moscou e de todas as Rússias


O papa Bento XVI reafirmou ontem, 1º de fevereiro, sua estima e proximidade espiritual ao novo patriarca de Moscou e de todas as Rússias, Sua Santidade Kirill.

Kirill foi entronizado como novo patriarca ontem, na catedral moscovita de Cristo Salvador. Na ocasião, o presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, cardeal Walter Kasper, que coordenou a delegação da Santa Sé na cerimônia, entregou a Kirill a mensagem do papa e um cálice, como “sinal de desejo de alcançar o quanto antes a plena comunhão”.

“Que nosso pai celestial lhes conceda abundantes dons do Espírito Santo em seu ministério e lhes permita guiar a Igreja no amor e na paz de Cristo”, disse o papa na mensagem.
O pontífice recordou ainda o predecessor de Kirill, o patriarca Alexis II. Segundo o papa, Alexis II “deixou a seu povo um patrimônio profundo e perpétuo de renovação e desenvolvimento eclesial” e “manteve um espírito de abertura e de cooperação com os outros cristãos e com a Igreja Católica, em particular, na defesa dos valores cristãos na Europa e no mundo”.

“Estou seguro de que Vossa Santidade seguirá construindo sobre este sólido fundamento, pelo bem de seu povo e pelo benefício dos cristãos em todo o mundo”, afirmou o papa.

“Desejo ardentemente que sigamos cooperando para falar os modos de fomentar e fortalecer a comunhão no Corpo de Cristo, em fidelidade à oração de nosso Salvador: que todos sejam um para que o mundo creia”, concluiu Bento XVI.