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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Reflexão sobre o II Domingo da Quaresma


“Há muitos por aí que se comportam como inimigos da Cruz de Cristo”.

Caríssimos irmãos e irmãs na fé,

Chegamos ao II domingo da Quaresma, este santo itinerário de conversão nos apresenta na liturgia de hoje, mais especificamente nas palavras do evangelho: o Senhor que convoca Pedro, João e Tiago para subir ao monte e rezar.


O monte, a montanha é na visão teológica o “lugar da manifestação”. E é para lá que o Senhor se retira. Depois de ter rezado sua feição, seu rosto se transfigura e ao seu lado surgem Moisés e Elias.

Nestes personagens históricos, vemos que a revelação e a oração de Cristo Jesus estão baseadas na lei e nos profetas, como nos diz o Prefácio deste solene domingo: “Tendo predito aos discípulos a própria morte, Jesus lhes mostra, na montanha sagrada, todo o seu esplendor. E com o testemunho da Lei e dos Profetas, simbolizados em Moisés e Elias, nos ensina que, pela Paixão na Cruz, chegará à glória da ressurreição”.

Ao ter com essa visão Pedro, a rocha, admirado exclama: “Mestre, é bom estarmos aqui”. E a quaresma é este período em que devemos nos encontrar com o Senhor. Somos convocados a aumentar nossa intimidade com ele. A visita-lo no sacrário, a ter com ele nas Sagradas Escrituras e na celebração dos sacramentos. A encontra-lo por meio das diversas práticas de piedade, mas, sobretudo pelo exercício milenar do jejum, da penitência e da caridade.

Se vivemos íntimos com Senhor, se temos uma fé enraizada em Cristo diremos: É bom estarmos aqui. É bom contigo estar, Senhor. Mesmo nos momentos de dificuldade, nos momentos de dor, de aridez, de desânimo... É bom aqui estar! Pois o Senhor é nossa força, o Senhor é nossa luz e salvação, como canta o salmista.


Mas na quaresma não há melhor lugar para estar –mais santo, mais íntimo, mais profundo- que aos pés da Cruz. Os homens e as mulheres desta terra se comportam e vivem contrários a cruz de Cristo, alerta São Paulo. Todavia, nós devemos encontrar na Cruz de Cristo, um manancial, uma fonte de vida que nos anima e nos dá ânimo para viver a fé e construir um mundo mais humano e cristão.

Para o mundo a cruz é sinal de contradição, mas, para nós é elemento de salvação! Só aquele que se põem aos pés da Cruz e do Crucificado encontrará o verdadeiro e real caminho de santificação. Este caminho é tortuoso e ardo, mas, é um caminho de amor.

E quando nos colocarmos aos pés da Cruz, encontraremos lá a Mãe de Deus e nossa. Ela está junto de nós e nos ensina a encontrar em Cristo a razão de nossa vida, a alegria de nossa existência e a força para a santificação. 

Que a Virgem Santíssima nos inspire a viver com intensidade essa quaresma!

Último Ângelus de Bento XVI: Omnes cum Petro!


Realmente, Bento XVI é um homem formidável! Não precisamos mais elencar as tantas atribuições que foram levantadas nos últimos tempos. Com Pedro nós sempre estaremos!
Neste domingo II da Quaresma, 24 de fevereiro, o Santo Padre (como em todos os momentos, muito sereno e contente) rezou da janela do Palácio Apostólico, a oração do Ângelus Domini. A praça de San Pietro estava lotada de fiéis, como havia-se previsto. Segundo a Sala de Imprensa, cerca de 200 mil pessoas estavam presentes; ela [a praça] “se enchia desde as primeiras horas da manhã aos poucos foi sendo tomada por religiosas, sacerdotes, turistas, mas principalmente por famílias com crianças e muitos jovens”. A multidão acorre à Pedro, para vê-lo e receber sua bênção e reafirmar seu amor profundo por Cristo e sua Igreja no testemunho admirável do Papa.


Em sua mensagem dominial o Papa refletiu brevemente acerca do Evangelho deste dia, de São Lucas, que narra a Transfiguração do Senhor. Reiterou, assim, a precedência da oração e da contemplação na vida espiritual do cristão. “O evangelista Lucas coloca especial atenção para o fato de que Jesus foi transfigurado enquanto orava: a sua é uma profunda experiência de relacionamento com o Pai durante uma espécie de retiro espiritual que Jesus vive em uma alta montanha na companhia de Pedro, Tiago e João. O Senhor, que pouco antes havia predito sua morte e ressurreição (9:22), oferece a seus discípulos antes da sua glória. E mesmo na Transfiguração, como no batismo, ouvimos a voz do Pai Celestial, “Este é o meu Filho, o Eleito ouvi-lo” (9:35). A presença de Moisés e Elias, representando a Lei e os Profetas da Antiga Aliança, é muito significativa: toda a história da Aliança está focada Nele, o Cristo, que faz um “êxodo” novo (9:31), não para a terra prometida, como no tempo de Moisés, mas para o céu”, explicitou o Papa.


Como dele é sucessor, o Santo Padre dedicou atenção especial à figura do apóstolo Pedro dentro do evento da Transfiguração, dizendo que “podemos tirar um ensinamento muito importante. Primeiro, o primado da oração, sem a qual todo o trabalho de apostolado e de caridade é reduzido ao ativismo. Na Quaresma, aprendemos a dar bom tempo para a oração, pessoal e comunitária, o que dá ânimo à nossa vida espiritual. Além disso, a oração não é isolar-se do mundo e suas contradições, como no Tabor desejava Pedro, mas a oração reconduz ao caminho, à ação. A vida cristã - eu escrevi na Mensagem para a Quaresma - consiste em uma subida contínua da montanha para encontrar-se com Deus, antes de cair de volta trazendo o amor e o poder dele derivado, a fim de servir os nossos irmãos e irmãs com o mesmo amor de Deus”.
E algo que me tocou profundamente (realmente me surpreendeu e comoveu) pela sua tamanha simplicidade e autenticidade, foi o fato de o Papa estabelecer um vínculo belíssimo entre a figura de São Pedro e si mesmo, quando afirmou que “o Senhor me chama a “subir o monte”, para me dedicar ainda mais à oração e à meditação. Mas isto não significa abandonar a Igreja, ao contrário, se Deus me pede isso é precisamente para que eu possa continuar a servi-la com a mesma dedicação e o mesmo amor com o qual eu fiz até agora, mas de um modo mais adequado à minha idade e às minhas forças”.


Na saudação em várias línguas, Bento XVI falou também em português: “Queridos peregrinos de língua portuguesa que viestes rezar comigo o Ângelus: obrigado pela vossa presença e todas as manifestações de afeto e solidariedade, em particular pelas orações com que me estais acompanhando nestes dias. Que o bom Deus vos cumule de todas as bênçãos”.


Para quem quiser ver na íntegra o último Ângelus de Bento XVI: http://www.youtube.com/watch?v=ZQZIvbRQ4ps.

No sábado, 23 de fevereiro, o papa prometeu aos cardeais uma maior “proximidade espiritual”  de sua parte após concretizar sua renúncia histórica, prevista para o próximo dia 28, e fez uma advertência sobre os “males deste mundo, o sofrimento e a corrupção”.
Na quarta-feira, 27 de fevereiro, o pontífice realizará a última audiência geral que, na ocasião, acontecerá na Praça de São Pedro. No dia 28, o último de seu pontificado, Bento XVI receberá às 11h na Sala Clementina do palácio apostólico os cardeais para uma despedida.
Bento XVI partirá em seguida de helicóptero para Castengandolfo, a 30 km de Roma. Às 20h (16h de Brasília), sua renúncia ao papado se tornará efetiva.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

De um grande homem não esperava senão um ato de grande humildade



Tomou-nos com demasiada surpresa e perplexidade a renúncia do Papa Bento XVI à Cátedra de São Pedro. Logo, encontrar-se-á vaga a sede do Vigário de Cristo na terra.
Os homens e mulheres de boa vontade, e também os de má vontade, das mais variadas partes do mundo se perguntam: Por que Ratzinger renunciou? O que, verdadeiramente, levou o Romano Pontífice a abdicar do direito de governar à Igreja Católica?

Há muitos por aí: teólogos, professores, feirantes, pedreiros, baderneiros que se tornaram especialistas em “análises de conjuntura papal”. São os que saem por ai, ao leu, dando sua opinião e levantando as mais absurdas hipóteses e teorias sobre a ação de Bento XVI: há quem diga que é doença fatal, desgaste pelo banco vaticano, pela venerável Cúria Romana, pelos escândalos sexuais e tantas, tantas outras mentiras e grosserias.
Creio eu que o papa teve sua saúde debilidade pelo peso da idade, mas, também pelas intempéries que cercam o timão da barca de Pedro. Assistimos com angústia sua última “missa do galo”, na qual notávamos um olhar perdido e um profundo cansaço físico. Bento XVI já não é mais o mesmo desde aquele abril de 2005.

Tendo consciência de suas fraquezas e debilidades físicas o papa decidiu por bem renunciar. Na leitura da carta de renúncia ele alegou seus motivos, mas, que não foram suficientes para muitos. Estes jamais conseguiram compreender a essência deste gesto. Vivendo em mundo onde custa renunciar ao “eu” pelo “nós”, onde é impensável deixar de lado nossos prazeres mesquinhos pelo bem comum, ou pelo crescimento do outro, Bento XVI sempre será incompreendido. Afinal, quem tem um coração dilatado de amor por Cristo e por sua Igreja não será facilmente entendido.

Bento XVI se fez “humilde servo da vinha do Senhor”, se fez pequeno, se abaixou, mas, encontrou de seus filhos ainda maior devoção e filialidade. Grande dom de Deus para Igreja Universal, o papa Bento não sairá pela porta dos fundos, mas, se retirará do sólio Pontifício como um homem a ser imitado, um homem a quem queremos bem e por quem devemos rezar.

Este amado pastor nos ensina novamente que a Obra é de Deus e não nossa. Que quem guia a Igreja é a Trindade e não nossos caprichos humanos. Oxalá este exemplo possa nos fazer perceber que somos “simples e humildes trabalhadores da vinha do Senhor”, e que, por amor, estamos a sua disposição. 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

João Paulo II e de Bento XVI: a via da expiação e da oração


Por Pe. Anderson Alves*
Diocese de Petrópolis/RJ.


A Quaresma é para os cristãos um tempo de preparação para a festa da Páscoa. Durante esse período nos lembramos os 40 anos que Israel passou no deserto, os 40 dias de jejum, oração e penitência do Senhor antes de começar o seu ministério público. O deserto é um forte imagem bíblica: é o lugar do silêncio, da pobreza, do encontro com Deus; para atravessá-lo, é necessário descobrir e levar só o que é essencial para a vida. O deserto é também um lugar de solidão, de morte, no qual a tentação é sentida com mais força. É ainda um retrato do mundo atual, no qual as pessoas se tornaram áridas, sem coração, por causa do abandono da fé no verdadeiro Deus.

No deserto, Jesus é tentado pelo diabo três vezes. Todas as tentações são reduzidas ao querer colocar-se no centro de tudo, no lugar de Deus, removendo-o da própria existência ou tentando submetê-lo à nossa vontade. Todas as tentações são, pois, contra a fé, uma ameaça à confiança no verdadeiro Deus.
Para vencer as tentações é necessário colocar a Deus no centro das nossas vidas. E isto é a conversão que a Quaresma nos propõe. Essa se realiza quando analisamos a própria vida diante de Deus, buscando conhecer quem realmente somos, quais são nossas capacidades e limitações, perguntando-lhe sinceramente: o que queres de mim, Senhor? Isto não é fácil, porque muitas vezes não temos tempo para Deus, ou não queremos ouvir a sua voz. A tentação de nos colocar no centro de tudo é sempre muito forte.
Somos chamados na Quaresma a colocar nossas vidas diante de Deus com humildade. E é isso que o Papa Bento XVI fez: analisar repetidamente a sua consciência diante de Deus (conscientia mea iterum atque iterum coram Deo explorata, disse o Papa com uma linguagem agostiniana), perguntando-lhe com total disponibilidade: o que queres de mim? E o Senhor respondeu-lhe, de modo que o Papa chegou à certeza (ad cognitionem certam perveni) do que Deus lhe pedia. E Bento XVI respondeu generosamente, renunciando ao seu ministério para o bem da Igreja, a fim de que outro homem com mais força física do que ele possa continuar conduzindo a Igreja, que é de Cristo, no caminho da Nova Evangelização do deserto que se tornou nosso mundo.
O Papa fez assim um gesto surpreendente, porque foi um ato de fé e de humildade, e infelizmente não sabemos mais o que é viver de fé e o que seja a humildade. Hoje estamos sempre dispostos a julgar, porque não temos a coragem de analisar nossas vidas diante de Deus, como o Papa fez. É mais fácil refugiar-se em juízos superficiais. Neste período de conversão, devemos nos lembrar de que só Deus é onisciente, somente Ele pode julgar as intenções das pessoas, e por isso devemos ter muito respeito para com a consciência dos outros.



O Papa João Paulo II ao seu tempo analisou a sua vida diante de Deus que lhe pediu de viver os últimos anos de seu ministério como uma forma de expiação pelos nossos pecados; e a Bento XVI, Deus pede uma vida dedicada inteiramente à oração. Quem somos nós para julgá-los? Estes dois homens, provavelmente os dois melhores papas de história da Igreja moderna, tiveram a coragem de colocar-se diante de Deus, que lhes indicou o caminho da reconciliação e da oração. E essas duas coisas, a expiação e a oração, são as coisas essenciais da vida sacerdotal. E esses grandes homens de Deus a propõem a todos os sacerdotes. Quem somos nós para condená-los?
Além disso, eles ensinam a todos os cristãos a ter ousadia para entrar no deserto da intimidade com Deus, buscando seriamente a conversão, que inicia com o confronto da própria vida com a vontade de Deus. Isso nos faz reconhecer nossas capacidades e o que Ele realmente quer de nós. Portanto, devemos ter muita alegria e agradecer a Deus por esses homens que sempre serviram ao Senhor com generosidade e total dedicação.
E não devemos ser enganados por falsos profetas do mundo atual. Aqueles que agora criticam o Papa Bento XVI, por ser ancião e ter renunciado são os mesmos que criticaram João Paulo II por ser ancião e não ter renunciado. Os que se esquecem de Deus, estão sempre preparados para apedrejar ao seu próximo, mesmo com acusações contraditórias contra quem não fez cometeu nenhum pecado. Na história da Igreja há Papas santos que não renunciaram ao seu ministério e também um Papa santo (Celestino V) que renunciou ao mesmo.
Os cristãos que buscam a verdadeira conversão agradecem a Deus pelos ministérios brilhantes e complementares de João Paulo II e Bento XVI, que tiveram a humildade, a fé e a coragem de seguir a própria consciência, analisada ​​à luz de Deus; e agora rezam por Bento XVI, mostrando-lhe muito amor e agradecendo a Deus pelo bem que ele fez pela Igreja e pelo mundo durante todos estes anos. Papa Bento XVI sempre ensinou que a Igreja é uma grande família, a família dos filhos de Deus em caminho.
E qual o filho que, tendo um pai com 86 anos, que acabou de passar por uma cirurgia cardíaca, o crítica por não poder mais trabalhar?
Peçamos ao Senhor que nos ajude a ser verdadeiros cristãos, que saibam amar uns aos outros como Jesus nos amou, nunca colocando-nos no lugar de Deus, julgando ou criticando quem sempre foi um pai exemplar e dedicado.

* Enviado pelo autor, disponível também em: http://www.presbiteros.com.br/site/joao-paulo-ii-e-de-bento-xvi-a-via-da-expiacao-e-da-oracao/

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Cardeal Darmaatmadja não irá ao Conclave

O Sr. Cardeal Julius Riyadi Darmaatmadja, 78 anos, Arcebispo Emérito de Jacarta, na Indonésia, anunciou que não irá participar do Conclave, segundo informou nesta quinta-feira, 21 de fevereiro, a agência AsiaNews


Dom Julius alegou problemas de saúde física e afirmou que sua opção é "livre e pessoal".

Contatado por telefone na casa jesuíta Emmaus, um local de repouso para sacerdotes idosos e prelados, em Ungaran, uma cidade ao centro de Java, o cardeal destacou a "deterioração progressiva" de sua condição física, desde que ele deixou a arquidiocese da capital, ao completar 75 anos.

"A principal dificuldade é a vista", disse ele em voz baixa, à AsiaNews. A incapacidade de ler textos e documentos é um obstáculo muito grande para trabalhar de forma independente e serena.

"Estou convencido", disse o cardeal, "não ser capaz de me sentar com os outros cardeais e votar para o novo Papa, por isso eu decidi não ir a Roma para esse evento muito importante e histórico para a Igreja".

Ele acrescentou ainda que "compreende plenamente" a decisão do Papa Bento XVI de renunciar ao Pontificado por motivo de saúde. "Uma experiência que vivi na minha pele, quando era arcebispo de Jacarta e decidi renunciar quando atingi 75 anos", porque para ser bispo de uma cidade metropolitana é necessário "estar boa saúde física".

Em conclusão, o cardeal confessa seu "profundo pesar" pela impossibilidade física de ir a Roma e participar do Conclave, mas está convicto da decisão, que tem como certa, também para não "quebrar o protocolo" e dificultar o trabalho da assembleia cardinalícia. 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

I Domingo da Quaresma: tentação e redenção.


Neste I Domingo da Quaresma nós, católicos romanos, iniciamos nossa caminhada penitencial-quaresmal com a reflexão das tentações de Jesus no deserto (Lc 4,1-13). Mas o que foram essas tentações? O que elas significam para nós hoje? Como vencê-las e o que buscar verdadeiramente? Este artigo que escrevo, tirei das ideias bases do II capítulo do livro do Santo Padre Bento XVI Jesus de Nazaré. Junto com as ideias centrais do Papa (não por pretensão) apresento algumas conclusões minhas, feitas a partir da leitura atenta e minuciosa.
Jesus, no seu batismo, tem todo o mistério da sua vida revelado. Ao entrar na fila do batismo dos pecadores, se faz um de nós, não sendo pecador, mas tomando sobre si nossas misérias. Cumpriu tudo isto, mais tarde, plenamente na cruz. O Pai revela seu Filho amado, cumprindo a plenitude do amor na ressurreição, e o Espírito Santo (Lc 4,1a) desce em forma de pombo. Perceba, “como uma pomba”, ou seja, é semelhante, parecido com uma pomba, porque a figura do Espírito de Deus é misteriosa em sua essência; pelas coisas materiais pode se assemelhar, mas nunca ser de fato.


Mas o que está no centro aqui é outra coisa, não o batismo. Mas pelo seu batismo simbólico, o Espírito lhe da uma inspiração primeira; e qual é? Ir para o deserto para ser tentado (Lc 4,1b). Mas o Filho do homem, Salvador do gênero humano, ser tentado? Exatamente. Feito homem Ele quer sentir na sua carne o drama humano, as tentações dos homens e mulheres deste mundo. Quer ser tentado, encontrar-se com a ovelha desgarrada e ferida, para então tomá-la nos ombros e reconduzi-la para sua casa como Bom e Doce Pastor zeloso. Só sendo Deus para tamanha atitude!
Enfim, no deserto os demônios o tentam (Lc 4,2) e anjos o servem (Mt 4,11b). É a dialética humana! Nossa vida mortal e factível acontece nesse paradoxo: anjos e demônios! Anjos nos ajudam; demônios nos oferecem algo mais vislumbrante aos olhos. Anjos nos apresentam a vontade de Deus; demônios nos dão os prazeres do mundo. Anjos ajudam o Reino a acontecer em nós; demônios em legião o derrubam. A vida do homem na terra é assim; a vida espiritual do cristão é uma eterna luta, uma guerra, travada continuamente.
Jesus ficou 40 dias no deserto em jejum e profunda oração (Lc 4,2). Isso nos faz lembrar os 40 anos que o povo de Israel passou no deserto em busca da Terra Prometida, de onde brotariam leite e mel em abundância; dos 40 dias que Moisés se preparou para receber as tábuas dos mandamentos e ensinar, conduzir seu povo na justiça; dos 40 dias que Abraão preparou-se para o sacrifício derradeiro de seu filho. Parece-nos que Jesus em seus 40 dias percorre toda a história do povo eleito, da humanidade e também a toma sobre os ombros; suporta-a, assume-a, redime-a.


Passamos então às tentações. A primeira consiste em transformar as pedras em pães (Lc 4,3). Era uma dupla tentação. Primeiro porque Ele tinha fome (Lc 4,2b), e se tivesse pão ao seu alcance a saciaria; depois porque se as transformasse, subjugaria seu poder (que era sobrenatural) ao mal, ao demônio. Mas o intuito do Reino que Jesus traz não são os milagres. Jesus não veio ao mundo para realizar milagres, mas veio para encontrar pessoas, apresentá-las à proposta do Reino e revelar a face paternal de Deus. Jesus não se curva à tentação de satanás, e di-lo que o pão, o verdadeiro pão interessa aos retos de intenção. Milagre por milagre não leva a nada. Mas depois Ele mesmo se faria pão para nós, se multiplicaria em todos os altares do mundo. E este milagre até hoje acontece, e acontecerá até o fim dos tempos. Jesus não quer pessoas atrás dos seus milagres, mas sim atrás do seu verdadeiro alimento: “Fazer a vontade do Pai” (Lc 22,42).


Na segunda tentação o demônio promete ao Senhor em retiro o domínio sobre toda a terra, sob uma imposição: ajoelhar-se aos seus pés e o adorá-lo (Lc 4,6-7). Para que Cristo cederia a tal tentação se conhecia a vontade de seu Abbá? Ele sabia que depois de ressuscitado haveria de ter todo domínio, mas não apenas sobre a terra, e sim sobre o céu e a terra. Era um domínio de poder sobrenatural; e perante Seu nome teria dobrado todo joelho, na terra, no céu e no inferno.
Jesus é forte, espiritualmente (porque era o próprio Deus) e fisicamente; isto pelo jejum e oração, armas fortes contra a tentação, e expulsa o demônio da sua companhia! Porém esta tentação retorna aos tempos atuais. O demônio pede não a adoração a si diretamente, mas através da proposta pela escolha do que é mais racional para os homens, mais organizado, planificado. É o relativismo moderno. Propõe o mais “justo, igual” para todos, onde reine o bem-estar presente das pessoas e a desvalorização com a real essência do homem. Assim, nós decidimos o que deve fazer um “redentor”. É realmente triste constatarmos o crescimento disto hoje!


Na ultima tentação satanás, de modo engenhoso, toma um versículo da Escritura e o distorce bruscamente. Tira o sentido original, inspirado por Deus, e a interpreta do seu jeito. Esta é uma tentação mais que atual: como é cômodo e fácil interpretarmos a Bíblia do nosso jeito, para satisfazer nossos desejos e vontades. Ainda mais. Como é mais satisfatório tirarmos Deus do seu lugar de excelência em nossa vida e o adaptarmos de acordo com as próprias necessidades, subjugando-O à nossa vontade. Em certo ponto Feuerbach tinha razão, quando dizia ser Deus a projeção do próprio homem. Mas razão o tem em relação à situação atual dos ateus que nem razões sabem e têm para os serem. Mas para quem realmente crê a situação é outra. E Feuerbach passa longe de deter a verdade que realmente é verdade!
Enfim, Jesus não se jogou do pináculo do templo (Lc 4,9), pois este era um pedido com segundas intenções do demônio. Mas na cruz não. No madeiro santo Ele abraçou livremente a vontade do Pai e se jogou no maior pináculo da existência, a morte. E o Pai, como profetizara confusamente o demônio na tentação do deserto, O tomou pelas mãos e o ressuscitou, encheu sua humanidade do Espírito Santo e, até hoje, o faz reinar vivo, glorioso no céu à sua destra.


Vencendo as tentações no deserto, Cristo nos apresenta o verdadeiro bem do homem: o rosto misericordioso de Deus. Que nesta Quaresma que iniciamos possamos seguir os passos de Cristo, vencer o mal atual e presente, para esperançosos reinar com Ele no último dia.
16 de fevereiro de 2013.
Vésperas do I Domingo da Quaresma.

Primeiras impressões de um católico conservador

               


Antes de tudo, apenas esclareço que não sou filósofo, em sentido estrito. Ou seja, não tenho grande dedicação à pesquisa e nem profunda reflexão neste campo, ao ponto de ser chamado de filósofo. Tenho apenas algumas pinceladas necessárias de uma graduação recém-terminada. Em segunda estância, escrevo aqui como um católico! Credo in Unam, Sanctam, Catholicam et Apostolicam Ecclesiam! E antes da crítica reacionária, aceito plenamente o Vaticano II! Porque esta afirmação? Apenas a título de esclarecimento a algum desavisado de plantão que possa ler o título com más intenções. O que aqui descrevo e transmito não é dogma, é doxa.
Porque do conceito ‘conservador’ no título referido? Em primeiro porque assim me considero! Aceitando plenamente o Vaticano II, também aceito a Tradição da Igreja como depósito da fé da mesma de dois mil anos. Dois mil anos! É muita história e riqueza espiritual! Assim, (agora no âmbito estritamente litúrgico, pois é a Santa Missa o cerne deste artigo) creio que muitos gestos, ritos, palavras, ações contidas no Rito litúrgico Ordinário da Santa Missa antes do Vaticano II têm sua importância de complemento e aprofundamento do mistério eucarístico (ou vice-versa, pra quem entender o que quis dizer). Assim gosto de me inserir nesta palavra: conservador. Conservando o que é importante, não anularemos o atual, mas o complementaremos (segundo o correto entendimento. Correto!). Percebo que hoje, os católicos que “liturgicamente” não são conservadores, são em geral aqueles que desprezam o rito antigo, acham que o novo é atualização (prestes a cair numa profunda ruptura) ou mesmo nem conhecem aquilo que acontecia antes do Concílio (digo por experiência do que já vi – na China, não no Brasil!).


Com isso, não pretendo também dizer que, na questão litúrgica, temos partidos subdivididos em visões ou interesses. Não! A essência é a mesma; o mistério é o mesmo: Cristo se oferece continuamente na Eucaristia pela humanidade! Não somos e nem poderíamos ser uma Igreja subdividida em partidos, já que a libertação já ocorreu totalmente no calvário de Nosso Senhor. Corremos atrás da unidade pedida por Cristo; e antes de pensar em ecumenismo, pensemos na unidade dentro da própria Igreja em torno do báculo de Pedro! Mas mesmo assim, gosto de considerar assim: conservador.
Agora vamos ao ponto filosófico: conservador ou tradicional? Prefiro conservador, para dar destaque a este sentido de conservar aquilo tudo que pode ajudar e que hoje é, de certo modo, deixado de lado. Lembro-me das ditosas aulas de filosofia da cultura quando se falava das correntes do século XIX e XX. Quando se dividiu a apresentação de seminários, vi o tema ‘tradicionalismo’. Fiquei eufórico, imaginava já o esplendor da Igreja, da Liturgia intacta, da pomposidade, das grandes catedrais, altares... Mas na apresentação saiu tudo diferente! Que graça!


O tradicionalismo foi um movimento filosófico-teológico que pregava o conhecimento humano (razão) impossibilitado de conhecer verdadeiramente (!) as realidades espirituais. Ele visava à oposição ao fideísmo, que pregava o contrário (a fé exacerbada sem a razão). Os expoentes do tradicionalismo são Bautain e Bonnetty (tradicionalismo moderado). Enfim, tanto tradicionalismo quanto fideísmo foram condenados pelo Vaticano I (I, não II). Atualmente alguns usam ‘tradicionalismo’ para falar dos grupos doutrinário-litúrgicos que defendem a interpretação justa do Vaticano II segundo o sonho de João XXIII e não dos cardeais reacionários-políticos; ou mesmo para falar de Lefebvre e Mayer ou os não separados (?) Fedeli, Plínio e Clá, e suas devidas companhias. Enfim, parece “politicagem” demais. Para evitar isso e a confusão com aquela heresia discorrida rapidamente antes, prefiro evitar. Gosto de ‘conservador’.
Tudo isso só pra contextualizar. Gosto de contextualizações, história, essas coisas. Creio que seria um bom professor! Ou escritor? Mas isso não vem ao caso. Não agora.
Caros leitores que leram essa pataquada toda acima. Tudo isso para explicar o motivo integral do título e dizer-lhes minha alegria, que já dura uma semana e promete perdurar: pela primeira vez, assisti uma Santa Missa celebrada no Rito Tridentino! (e para os que ainda não entenderam ou não retornaram ao título, por isso “primeiras impressões...”). Isso aconteceu venturosamente num local não menos digno de tanta graça: na Basílica do Mosteiro de São Bento, no centro antigo de São Paulo. Mas alguns se perguntam: mas só agora assististe à Missa Tridentina? Sim. Saí do exílio barriga-verde no começo deste ano e vim parar em terras de garoa a pouco!


Antes que acabe por falar asneiras, vamos ao que me propus escrever: as primeiras impressões que tive. Na verdade não vi surpresas externas. Nada é tão diferente do que já tinha visto em vídeos, imagens e afins. O rito era aquele que trazem aqueles antigos ‘missais cotidianos’ que tinha contato. Mas algo foi inédito: a emoção de, sentado distraído no coro do mosteiro, ouvir aquele suntuoso órgão e, ao mesmo tempo, ver entrando em procissão um distinto sacerdote de barrete e pianetta roxa. Nunca mais esquecerei esta cena. Foi magnífico! Confesso que neste mesmo momento verteu-me uma lágrima sincera. Quando eu olhava para o lado direito, via piedosas mulheres de véu (e, inacreditavelmente ou não, jovens, compreenderam?, jovens mulheres com seus maridos e filhinhos pequenos); erguendo os olhos contemplava aquelas enormes imagens dos apóstolos, parecendo veras colunas da Fé indefectível da Igreja (sim, pois a Igreja é santa, e não santa e pecadora – assunto para o próximo artigo) que assistiam fixos tal mistério (a imagem de São Paulo me encabulava: ele olhava para fora como que indicando: “depois não se esqueça da missão!” e ainda me pergunto: “qual será esta missão?”. Creio que a estou realizando agora).


O momento foi inesquecível. Não vou transcrevê-lo, porque logo preciso terminar esse artigo. Não fui sozinho. Na saída do mosteiro e na volta para casa algumas questões apareceram da boca de alguns (e do pensamento engenhoso também): “não entendi nada!”, “achei muito morto, só o padre falava!”, “o que o padre falava mesmo?”, “as pessoas que estavam lá nem entenderam nada!”, e ainda na hora da Santa Missa, no instante da Epístola um cristão pergunta: “já começou a Missa?”. Inocências a parte, digo, pois, senhores e senhoras:
Para mim foi um momento único! Quem não gostou, não é obrigado a assistir novamente (e digo a todos que pensam ou que já pensaram o descrito no parágrafo anterior). Creio que as pessoas que lá estavam (que não era um grupo muito grande, mas ‘raleavam’, com diz o sulista, os bancos da Basílica), estavam convictas do que queriam, atentas ao que acontecia e sabendo muito bem o que se passava! Não entendeu o que o padre disse? Só procurar estudar um pouco mais da língua oficial da sua Igreja e logo mais saberá! Mas quero terminar para não exceder demais!


Saio realizado. Minha primeira impressão do Rito Tridentino foi muito positiva. Bem celebrado, com piedade e devoção, atentamente, com toda dignidade e sobriedade possível. Nas Missas que participo do Rito Ordinário, por incrível que pareça, participo muito melhor! Enxergando visivelmente a extrema adoração e respeito pela Sagrada Eucaristia do Rito Extraordinário, faço de minha participação no Rito Ordinário digna da mesma e extrema adoração e respeito. Afinal é o mesmo Cristo, ontem, hoje e sempre! No Rito Extraordinário, Ordinário e no novo Movimento Litúrgico!
Quiçá pudera eu participar novamente, inúmeras vezes. E assim o quero fazer. Percebi nitidamente como os dois Ritos se complementam.
Perdão pelas intervenções dos parênteses pelo corpo do texto; creio que herdei o jeito de escrever de Escrivá, de tanto lê-lo. Teria eu muitíssimo mais coisas a discorrer, mas não quero cansá-los, diletos, com meus sonhos visionários por vir. Ao escrever isto tudo, olhei para o gramado à minha frente e, pensei (algo suscetível para as críticas): “Quem dera, se o mundo fosse conservador como eu!”.


Agora sim, termino reafirmando: são realmente muito otimistas as primeiras impressões de um católico conservador!

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Quo Vadis?

               “Nossa Fé é em Jesus Cristomas, porém, ela passa pelo Papa”.


          Em um momento onde parecem pairar sobre nós a dúvida e a incerteza, resta-nos a confiança de que a Igreja age pela ação do Paráclito. Ao sermos assaltados pela notícia da renúncia do Pontífice, Bento XVI, surge em nosso interior um sentimento de receio, ou ainda de desesperança. Porém, agora é à hora de praticarmos as propostas do Ano da Fé. É o momento para se praticar a Fé, confiando que a barca (Igreja) tem como timoneiro o próprio Deus, único Senhor da Messe.  

Devemos levar em conta, a nobreza de Bento XVI, ao reconhecer sua debilidade e suas muitas contribuições. “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja” (Mt 16,18). O novo é sempre algo que nos surpreende e nos deixa, “sem chão”. Mas precisamos encarar este momento como algo legítimo. Para cada caso a Igreja possui as regras e normas a serem aplicadas, este ato de renúncia é canônico e previsto no Cânon 187 – “Qualquer um, cônscio de si, pode renunciar a um ofício eclesiástico por justa causa”. É algo inédito na era moderna, porém, válido.  

A nós fiéis católicos, colaboradores do Vigário de Cristo, resta elevarmos a Deus nossa prece de gratidão pelo pontificado deste zeloso Pastor e pedir que as luzes do Espírito Santo venham sobre a Igreja, reunida em Conclave, para a escolha de um novo Vigário de Cristo. Reconheçamos este gesto de humildade e coragem, de abnegação e fidelidade a Igreja de Jesus Cristo.  

Um momento como este, lembra-nos da obra literária (Quo vadis?) de Henryk Sienkiewicz, quando o Apóstolo Pedro fugindo de Roma, com medo da perseguição, se depara com Jesus que vai em direção a Roma, e Pedro pergunta: “Quo vadis, Domine?” (Aonde vais, Senhor?), e Jesus respondeu: “Eu vou morrer mais uma vez por ti!”.
Mediante o ocorrido somos remetidos a tal cena, e podemos imaginar algo semelhante às avessas. E quando se fechou as cortinas do balcão da Basílica vaticana, Jesus perguntou ao sucessor de Pedro: Quo Vadis, Petrus?


 Por Seminarista André Luiz Oliveira
Arquidiocese de Sorocaba/ SP

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Nova residência do Papa Bento XVI

Esclarecimento do porta voz do Papa Pe. Federico Lombardi : "O Santo Padre o Papa Bento XVI, viverá no Mosteiro Mater Ecclesiae , em clausura e oração".


Segundo esclarecimentos de seu porta voz, o Papa quando se demitir e se der início à Sede Vacante transferir-se-à num primeiro momento para Castel Gandolfo enquanto decorrem os trabalhos de adaptação no Mosteiro de Clausura Mater Ecclesiae, situado junto ao muro de Leão IV dentro da Cidade do Vaticano e aonde depois viverá se dedicando aos estudos e oração.




Leia mais em Italiano: :http://www.ilsole24ore.com/art/notizie/2013-02-11/ecco-monastero-dove-ritirera-135307.shtml?uuid=AbASiMTH

Qual será o estado de Bento XVI e suas vestes após sua demissão?

Segundo algumas fontes seguras vindas de Roma:


1. Já foi confirmado que Bento XVI será "emérito" quanto ao ofício de Bispo de Roma e de Sucessor de São Pedro, cargos intimamente ligados. Portanto, até o que nos consta, será "Papa emérito" igualmente ao Papa Celestino V, único caso igual ao de Bento XVI, embora na história da Igreja exista mais 3 casos de renúncia.


2. Ele não retomará o título de Cardeal da Santa Igreja Romana. O ministério petrino, do qual ele apenas terá demissão e não deposição está muitíssimo acima do ministério cardinalício.

3. Continuará a ser intitulado como " Bento XVI"

4. Não, ele não ingressará no próximo conclave para eleição de seu sucessor.

Portanto, segundo o que nos falou um sacerdote que mora no vaticano, é certo que:

Ele permanece com o direito ao uso de batina branca com faixa munida do brasão bordado, cujas franjas são douradas, "mozzeta" branca para o período pascal e vermelha para o restante do ano litúrgico. Contudo, como qualquer bispo com o direito ao pálio, Bento XVI não o usará mais a partir do próximo dia 28, assim como não fará mais uso do anel do pescador, que expressa a titularidade do ministério petrino àquele que o carrega.



Tudo isto é o que nos conta.  Reservamo-nos o direito de possíveis atualizações e correções futuras.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Obrigado, Bento XVI




Realmente a notícia da renúncia do Santo Padre Bento XVI nos pegou desprevenidos, de surpresa!
Se havia comentado algo em tempos passados, sobre uma possível renúncia do Papa em caso de fragilidade física. No livro ‘Luz do mundo: o Papa, a Igreja e o Sinal dos Tempos’, uma entrevista do papa ao jornalista católico alemão Peter Seewald, contém muitas informações e reflexões sobre a vida pessoal e perspectivas de Bento XVI. E o próprio Papa chega a comentar: “Sim, se um papa percebe claramente que não tem mais condições físicas, psicológicas e espirituais de encarregar-se dos deveres de seu cargo, ele tem o direito e, sob certas circunstâncias, a obrigação de renunciar”.


Na verdade todo esse assunto caiu no esquecimento, até que em 11 de fevereiro nos vemos envoltos na orfandade paternal! Mas ainda assim creio que Bento XVI tomou essa decisão depois de muita reflexão e oração e, partindo de tão grande personalidade, foi acertada. Diante de tudo isso o admiramos mais ainda pela sua coragem e, sobretudo, preocupação para com a Santa Igreja de Deus!
O Papa Bento XVI anunciou sua renúncia após audiência com novos cardeais nesta segunda-feira, dia 11 de fevereiro, memória de Nossa Senhora de Lourdes, no Vaticano, com o seguinte comunicado (grifos nossos):


Caros irmãos. Convoquei-os para este consistório, não apenas para as três canonizações, mas também para comunicar a vocês uma decisão de grande importância para a vida da Igreja. Após ter repetidamente examinado minha consciência perante Deus, eu tive certeza de que minhas forças, devido à avançada idade, não são mais apropriadas para o adequado exercício do ministério de Pedro. Eu estou bem consciente de que esse ministério, devido à sua natureza essencialmente espiritual, deve ser levado não apenas com palavras e fatos, mas não menos com oração e sofrimento. Contudo, no mundo de hoje, sujeito a mudanças tão rápidas e abalado por questões de profunda relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e proclamar o Evangelho, é necessário tanto força da mente como do corpo, o que, nos últimos meses, se deteriorou em mim numa extensão em que eu tenho de reconhecer minha incapacidade de adequadamente cumprir o ministério a mim confiado. Por essa razão, e bem consciente da seriedade desse ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério como Bispo de Roma, sucessor de São Pedro, confiado a mim pelos cardeais em 19 de abril de 2005, a partir de 28 de fevereiro de 2013, às 20h, a Sé de Roma, a Sé de São Pedro, vai estar vaga e um conclave para eleger o novo Sumo Pontífice terá de ser convocado por quem tem competência para isso. Caros irmãos. Agradeço sinceramente por todo o amor e trabalho com que vocês me apoiaram em meu ministério, e peço perdão por todos os meus defeitos. E agora, vamos confiar a Sagrada Igreja aos cuidados de nosso Supremo Pastor, Nosso Senhor Jesus Cristo, e implorar a sua santa mãe Maria, para que ajude os cardeais com sua solicitude maternal, para eleger um novo Sumo Pontífice. Em relação a mim, desejo também devotamente servir a Santa Igreja de Deus no futuro, através de uma vida dedicada à oração. Vaticano, 10 de fevereiro de 2013. Benedictus Pp. XVI
Bento XVI deixará o pontificado em 28 de fevereiro às 20 horas de Roma, 17 horas de Brasília.

MEDIDAS PRÓXIMAS A SEREM TOMADAS

Segundo o porta-voz do Vaticano, a Santa Igreja deve ter um novo Papa até a festa da Páscoa, no próximo dia 31 de março: “Temos de ter um novo Papa na Páscoa”, afirmou. O conclave deve ser realizado de 15 a 20 dias após a renúncia.
No Código de Direito Canônico, no artigo 332.2, se prevê a possibilidade de um papa renunciar, mas precisa fazê-lo por sua livre vontade, e não é necessário que sua renúncia seja aceita por ninguém. Segundo o código, uma vez tendo renunciado, o papa não pode mais voltar atrás.
Após a renúncia ou morte do papa, os assuntos da Santa Igreja ficam sob a responsabilidade do Cardeal Camerlengo, no caso atual, Sua Eminência Reverendíssima Dom Tarcísio Cardeal Bertone.


Ele convocará o conclave, reunindo todos os cardeais da Igreja Católica no Vaticano. Eles ficarão isolados em celas particulares e se reunirão na Capela Sistina duas vezes por dia para votar, durante o tempo que for necessário para a eleição do novo Pontífice. O voto é secreto. A votação é feita em papel. Para que um papa seja eleito o candidato deverá ter a maioria dos votos, ou seja, metade mais um. Depois de cada sessão, os papéis da votação são queimados. Se não houver uma definição, uma substância química é adicionada aos papéis para produzir uma fumaça escura, que sai pela famosa chaminé que poderá ser avistada da Praça de São Pedro. Se houver uma definição, a fumaça é branca. Assim sendo, reviveremos novamente a emoção de ouvir na sacada principal da Basílica Vaticana: ‘Habemus Papam!’

CASOS DE RENÚNCIA DE PONTIFICADO

A notícia-supresa da renúncia de Bento XVI nos fazem lembrar que não é a primeira vez que isto acontece: em 235 Ponciano renunciou ao pontificado; Silvério em 537; João XVIII em 1009; Bento IX em 1045; em 13 de dezembro de 1294 Celestino V; em 4 de junho de 1415 Gregório XII.

Papa Celestino V


Depois da morte de Nicolau IV, ao longo de mais de dois anos os cardeais não conseguiram chegar a um acordo quanto à escolha de seu sucessor, por conta das divisões entre as facções dos Collona, dos Orsini e dos Anjou. Roberto Monge, em seu ‘Dois Mil anos de Papas’, afirma que em 1294 a escolha recaiu sobre o nome de Pietro Del  Morrone. O seu nome de batismo era Pietro Angeleri. Nasceu no seio de uma família humilde de camponeses da região dos Abruzos, e com 20 anos ingressou no mosteiro beneditino de Faifoli, perto de Benevento.
Foi ordenado sacerdote ainda jovem. Em 1245 tinha se retirado para a Maiella, onde deu origem a uma ordem religiosa, a Ordem dos Celestinos, e que abraçava a regra de São Bento, mas de um modo mais rígido e austero. Foi aí que uma delegação de Cardeais veio ao seu encontro para lhe comunicar que fora eleito para o trono pontifício. Depois de muito pensar, em obediência à vontade divina e talvez na esperança de poder renovar a Igreja, Pietro Del Morrone aceitou a nomeação, e sob o nome de Celestino V foi consagrado na Igreja de Santa Maria de Collemaggio (em Áquila), a 29 de agosto de 1294. A fim de que não se repetisse no futuro uma tão longa vacância da Santa Sé, o novo Papa restabeleceu as disposições de Gregório X quanto ao conclave.
Em breve, porém, esmagado pelo peso dos assuntos da Cúria, constatando que os seus esforços de moralização continuavam sem produzir efeito, e amargurado com as baixas intrigas que se praticavam na corte papal, renunciou aos seus projetos de reformar a Igreja numa direção evangélica. A 13 de dezembro de 1294, convocou um consistório em que anunciou a sua renúncia formal ao papado, dando ao colégio dos Cardeais a plena faculdade de eleger um novo pastor para a Igreja. Depois se despojou das insígnias pontifícias e voltou a vestir os hábitos monásticos. O seu regresso à vida de eremita levantou um enorme clamor.  Celestino V voltou para o seu deserto, na Maiella, para se dedicar à oração e à mortificação. Ele morreu no dia 19 de maio de 1296, e foi sepultado na igreja de Santa Maria de Collemaggio, em Áquila, onde tinha sido coroado papa. Em 1313 foi canonizado pelo Papa Clemente V.

Visita de Bento XVI a Sulmona - Itália em 4 de julho de 2010, por conta do 8º centenário de nascimento de Celestino V. Na ocasião o Papa doou seu antigo pálio, depositando-o sob o caixão de vidro com as relíquias de Celestino.

Papa Gregório XII


Ângelo Correr nasceu em Veneza em 1325, numa nobre e antiga família.  Foi Bispo de Veneza, delegado papal em Nápoles e Cardeal presbítero de São Marcos.  Foi eleito Papa aos 80 anos de idade, a 30 de novembro de 1406, e a consagração ocorreu a 19 de dezembro.  Ângelo tomou o nome de Gregório XII. Passados poucos dias divulgou a intenção, já expressa no Sacro Colégio antes de sua eleição, de renunciar ao trono papal para pôr fim ao Cisma do Ocidente, se ao mesmo tempo renunciasse também o antipapa Bento XIII, que continuava a reinar em Avignon. Na prática, nenhum dos dois abdicou.
Reunido em Pisa em 1409, o Sacro Colégio decidiu então depor quer Bento XIII, quer Gregório XII, e elegeu papa Alexandre V. Isto não só não resolveu o cisma como ainda o agravou mais: agora havia não apenas dois, mas três Papas. Alexandre V, de seu nome Pedro Filargo, nascera em Gândia, numa família muito pobre. Os franciscanos acolheram-no e deram-lhe estudos. As suas qualidades intelectuais levaram-no a frequentar as Universidades de Oxford e Paris. Galeazzo Visconti, impressionado com a sua vasta erudição, convidou-o a ser professor e teólogo da Corte. Foi mais tarde nomeado Cardeal Bispo de Milão por Inocêncio VII.
Ao morrer Alexandre em 1410, sucedeu-lhe Baldassarre Cossa, com o nome de João XXIII. Natural de Nápoles tinha sido Arcebispo de Bolonha e Bispo de Isquia antes de Gregório XII o nomear Cardeal.
Para resolver a questão das nomeações papais, pediu-se a intervenção do Rei da Alemanha. Sigismundo convocou um Concílio em Constança, (1414-1418). Gregório XII fez chegar a este Concílio, através de um delegado, a sua disponibilidade para renunciar, condicionada apenas pela renúncia simultânea de Bento XIII e João XXIII
Alguns Cardeais, recorrendo à teoria da superioridade do Concílio sobre o Papa, e levando em consideração a disponibilidade anunciada por Gregório XII, decidiram exercer a sua autoridade para depor quer João XXIII, quer Bento XIII, que devem ser assim considerados antipapas. Gregório XII apresentou a sua própria demissão a 4 de julho de 1415, o que permitiu a eleição do Papa Martinho V, pondo fim ao Cisma do Ocidente.
Gregório foi recompensado com a nomeação para Bispo do Porto (Sicília) delegado perpétuo/ vitalício da Marca de Ancona e Decano do Sacro Colégio. Retirou-se para Recanati, onde morreu a 18 de outubro de 1417, algumas semanas antes da eleição do novo Papa Martinho V. Foi sepultado na catedral de Recanati.

NOTA DO BLOG DOMINUS VOBISCUM SOBRE A RENÚNCIA DE BENTO XVI:


NOTA DO BLOG DOMINUS VOBISCUM SOBRE A RENÚNCIA DE BENTO XVI:


Recebemos consternados à notícia de que Bento XVI, Sumo Pontífice, renunciou a Cátedra de São Pedro. Conforme anunciado na manhã de hoje, 11 de fevereiro de 2013, Festa da Santíssima Virgem Maria, Nossa Senhora de Lourdes.

Sabemos que a Igreja se perpetua na história, pela ação do Espírito Santo e que em breve um novo sucessor será eleito pelo Colégio Cardinalício. Todavia, queremos manifestar nosso afeto filial ao Papa Bento e com todo o nosso apostolado intensificar as orações e súplicas por este “servo dos servos de Deus”.

Ioseph Ratzinger eleito ao sólio Pontifício em 2005 guiou o timão da Igreja num período tortuoso, marcado pela debilidade humana, mas, pelas grandezas divinas do Salvador. Ficará marcada em nossa história, como um grande pastor, amante da teologia e da liturgia. Um homem fiel a sua amada esposa, a Igreja. Foi o amor a ela que agora o impeliu a renunciar.

Suas forças físicas visivelmente diminuíram ao longo dos últimos meses e agora a sua renúncia, faz com que nos unamos ainda mais em súplica por sua vida, dom de Deus para nós e para toda a Igreja. Do seu legado ficam grandes marcas, entre elas o apelo pela Fé, para que possamos dar “razões daquilo que cremos”.

Neste dia, especialmente triste pela renúncia do papa renovamos nosso amor a Igreja e ao sucessor de Pedro! Pelas mãos maternas da sempre Virgem Maria, o senhor nos conceda  a sua bênção!

Seminarista Ânderson Barcelos Martins
Seminarista Ciro Quintella Lacerda
Seminarista Matheus Barbosa
Seminarista João Eduardo Lamim
Seminarista Renato Rosa
Seminarista Vinícius Braga


Renuncia de Sua Santidade o Papa Bento XVI

“Caros irmãos:
Convoquei-os para este consitório, não apenas para as três canonizações, mas também para comunicar a vocês uma decisão de grande importância para a vida da Igreja. Após ter repetidamente examinado minha consciência perante Deus, eu tive certeza de que minhas forças, devido à avançada idade, não são mais apropriadas para o adequado exercício do ministério de Pedro. Eu estou bem consciente de qu esse ministério, devido à sua natureza essencialmente espiritual, deve ser levado não apenas com com palavras e fatos, mas não menos com oração e sofrimento. Contudo, no mundo de hoje, sujeito a mudanças tão rápidas e abalado por questões de profunda relevância para a vida da fé, para governar o barco de São Pedro e proclamar o Evangelho, é necessário tanto força da mente como do corpo, o que, nos últimos meses, se deteriorou em mim numa extensão em que eu tenho de reconhecer minha incapacidade de adequadamente cumprir o ministério a mim confiado. Por essa razão, e bem consciente da seriedade desse ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério como Bispo de Roma, sucessor de São Pedro, confiado a mim pelos cardeais em 19 de abril de 2005, a partir de 28 de fevereiro de 2013, às 20h, a Sé de Roma, a Sé de São Pedro, vai estar vaga e um conclave para eleger o novo Sumo Pontífice terá de ser convocado por quem tem competência para isso.
Caros irmãos, agradeço sinceramente por todo o amor e trabalho com que vocês me apoiaram em meu ministério, e peço perdão por todos os meus defeitos. E agora, vamos confiar a Sagrada Igreja aos cuidados de nosso Supremo Pastor, Nosso Senhor Jesus Cristo, e implorar a sua santa mãe Maria, para que ajude os cardeiais com sua solicitude maternal, para eleger um novo Sumo Pontífice. Em relação a mim, desejo também devotamente servir a Santa Igreja de Deus no futuro, através de uma vida dedicada à oração.”

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Deus estava em Santa Maria? Resposta ao “ateísmo preguiçoso” do Brasil

Por Pe. Anderson Alves*


A tragédia em Santa Maria mobilizou o Brasil. Todos se emocionaram com o terrível ocorrido, que levanta várias perguntas. Os cristãos se compadecem com os envolvidos na tragédia e interpretam aqueles eventos à luz da vitória de Cristo sobre o mal e a morte. Come Ele venceu, cremos que vencemos com Ele todo mal, injustiça, incompreensões e inclusive a morte. Certamente, no momento atual devemos nos unir em solidariedade para com as vítimas e seus familiares e também exigir das autoridades uma investigação séria, de modo que os culpados respondam pelas consequências dos seus atos. Também é tempo de reconhecer os erros cometidos e de tomar as necessárias medidas para evitar que algo semelhante possa se repetir no futuro.

Aquela terrível tragédia levanta várias perguntas, algumas justas, outras nem tanto. Perguntamo-nos principalmente o porquê desse tipo de tragédia, que traz sofrimento a tantas pessoas. Os cristãos, que sofrem com o ocorrido, se uniram numa corrente de orações e de solidariedade para com as vítimas. Entretanto, infelizmente, nessas ocasiões se sentem atacados por perguntas impertinentes, que não ajudam a aliviar o sofrimento de ninguém, mas somente buscam colocar em questão a fé cristã. «Como pode Deus ter permitido o ocorrido?», questionam alguns. E outros, talvez mais ousados e menos respeitosos, chegam a dizer: «Vê-se mesmo que Deus tem um plano de amor para com todos e que às vezes esse plano consiste em eliminar a vida de 235 jovens inocentes para mostrar assim seu amor para com os seus familiares e amigos».

Esse último tipo de afirmação, além de ser uma grosseria e uma falta de respeito absurda, mostra uma terrível falta de lógica e uma ignorância religiosa espantosa. Qualquer um de bom senso poderia questionar: foi Deus que construiu uma grande discoteca com uma só saída e sem portas e luzes de emergência? Foi ele que a fez com um teto de papel e revestido de uma espuma inflamativa e tóxica?

O que falta aos que ignoram ou distorcem a fé cristã é o elementar conhecimento de que Deus fez o homem livre, de modo que Ele é responsável por ter nos dado a liberdade, mas não por cada ato da nossa liberdade. Ele colabora conosco quando fazemos atos bons movidos pela graça, mas os atos maus, Ele simplesmente tolera. Deus não pode jamais querer o mal, nem direta, nem indiretamente. Em palavras do Papa Bento XVI «Deus, criando criaturas livres, dando liberdade, renunciou a uma parte do seu poder deixando o poder da nossa liberdade. Assim Ele ama e respeita a livre resposta de amor ao seu chamado»
[i]. Além Disso, Ele não é um “Deus tapa-buracos”, que vai preenchendo as lacunas abertas pela irresponsabilidade humana. E é no mínimo absurdo responsabilizar a Deus por uma tragédia, quando é evidente que há tantos responsáveis.Foi Ele que fez entrar naquele lugar mais pessoas do que o número devido? Foi Ele que fez um espetáculo pirotécnico num lugar repleto de material inflamável? Foi ele que bloqueou a única saída da discoteca por alguns preciosos minutos? Bastaria responder a essas perguntas para perceber quem efetivamente tem a culpa daquele trágico evento.

Mais esse tipo de perguntas mostra algo mais sério: uma espécie de ateísmo prático que toma conta do modo de pensar e de agir de uma parte da nossa população. Esse tipo de ateísmo superficial e emotivo consiste em viver como se Deus não existisse e, quando ocorre alguma tragédia, joga-se a culpa toda em Deus, para assim minimizar as responsabilidades dos verdadeiros culpados. E quem o faz, nem se dá ao trabalho de se perguntar como é possível que um Deus que não existe, seja o responsável por todas as tragédias humanas. Prefere-se crer num ateísmo prático e aparentemente cômodo no qual se procura viver em total autonomia de Deus, da verdade e da moralidade e se espera que, nas situações de risco, Deus abra milagrosamente uma “saída de emergência” para livrar ao homem de qualquer perigo.

Felizmente Deus é um ser extremamente inteligente e não age conforme pensa esse tipo de ateísmo preguiçoso. Dizemos “preguiçoso” devido à pouca quantidade e qualidade dos argumentos. Deus é inteligente, cheio de amor e leva a sério a liberdade humana e a natureza das coisas por Ele criadas.  Certamente Ele pode fazer milagres e nas situações de risco e de tragédias há sempre relatos de milagres. Como, por exemplo, em janeiro de 2011, por ocasião das chuvas da região serrana do Rio de Janeiro, quando um homem e seu filho foram arrastados pela correnteza por mais 4 kms e saíram ilesos[ii]. Deus tem o poder de fazer milagres, mas esses são sempre um dom imerecido e nunca algo que possa ser exigido. Ordinariamente, Ele respeita a ordem da natureza que criou e não anula jamais a liberdade de ninguém, nem mesmo a dos que o abandonam ou ofendem.

Então, Ele não seria suficientemente forte para evitar o mal? Isso é outra pergunta que só faz sentido para quem conhece parcialmente o Cristianismo, se esquecendo do principal: Deus deu uma resposta ao mal, enviando seu Filho que morreu na Cruz e sofreu todos os nossos males. Desse modo, Ele transformou o maior mal feito pelos homens, o assassinato do Filho único de Deus, no maior ato de amor. Assim a maldade e irracionalidade humana foram mudados num ato divino de entrega ao Pai, com o qual trouxe a redenção dos homens e a vitória definitiva sobre o mal. Os cristãos tem sempre diante de si a Cruz de Cristo, resposta última ao mal, oferecida por um Deus bom, que se compadece conosco, a ponto de dar-nos a sua mesma vida. Ao olhar para a Cruz e Ressureição do Senhor, os cristãos alcançam a certeza de que «o bem é mais poderoso na sua bondade do que o mal na sua maldade» (S. Tomás de Aquino). Certamente isso é um grande mistério, do qual é sempre difícil falar. Mas «se é difícil para um cristão explicar o mistério do mal no mundo, para um ateu é praticamente impossível reconhecer a presença do bem» (Fulton Sheen).

*Pe. Anderson Alves, sacerdote da diocese de Petrópolis – Brasil. Doutorando em Filosofia na Pontificia Università della Santa Croce em Roma.


Fonte: http://humanitatis.net/?p=8204
Enviado ao Dominus Vobiscum pelo próprio autor.