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sábado, 26 de outubro de 2013

É possível crescer na Fé?

Reflexões para o ano da fé a partir de Santo Tomás de Aquino e Bento XVI



Por Pe. Anderson Alves
Do Clero da Diocese de Petrópolis
Colaborador do site Zenit e do Apostolado + Dominus Vobiscum +



Estamos vivendo o ano da fé, pensado por Bento XVI como "uma ocasião propícia para introduzir o complexo eclesial inteiro num tempo de particular reflexão e redescoberta da fé"[I]. Nesse período cada fiel deve procurar aprofundar na própria vida de fé para poder comunicá-la mais eficazmente. "A fé cresce quando é vivida como experiência de um amor recebido e é comunicada como experiência de graça e de alegria"[II]. Mas com frequência surge uma dúvida: é realmente possível crescer na fé? Não é verdade que distinguimos simplesmente entre os que têm fé e os que não a tem?

Depende de como se entende a fé. Ela é essencialmente uma relação entre Deus e o homem. Deus se revela livremente doando-se ao homem, no tempo estabelecido por Ele. E o homem é livre para aceitá-lo ou não. A fé é, pois, um dom divino e uma resposta humana. O objeto da fé (Tomás de Aquino chamava de “razão formal”) é a verdade primeira, ou seja, a afirmação da existência e da Providência divina[III]. Nesse sentido, o primeiro ato de fé é crer que "Deus existe e recompensa os que o buscam" (Heb. 11, 6). E assim se distingue simplesmente os que acolheram o dom fé e os que ainda não.

Todavia a “razão material” da fé é Deus mesmo e as outras realidades ordenadas a Ele. Isso significa que a realidade na qual se crê é simples: é Deus mesmo. E como a fé é um ato humano, de conhecimento amoroso de Deus, esse ato deve ser bem entendido. Pois o homem conhece diversamente de Deus e dos anjos. Deus conhece as realidades compostas num ato simples: Ele, ao pensar a si mesmo, apreende todas as coisas complexas. O homem, por sua parte, conhece as realidades simples (como o ser de Deus), por meio de muitos atos complexos. O conhecimento da verdade por parte do homem é sempre discursivo, parcial, ou seja, depende da simples apreensão da realidade, dos juízos e dos raciocínios. O homem apreende então o simples por meio do complexo, e Deus conhece o complexo na Sua simplicidade. Podemos conhecer a Deus a partir das suas criaturas e do que é revelado por Ele. Mas Deus se revela através de muitas palavras: os diversos enunciados da fé. Em outras palavras, a partir da perspectiva do que é conhecido pela fé, o objeto da fé é o ser simplicíssimo de Deus. E a partir do ponto de vista de quem crê, o objeto da fé é composto, são os diversos enunciados da fé, que correspondem ao modo humano de conhecer[IV].


Os principais enunciados da fé se encontram reunidos nos chamados Símbolos, compostos por artigos. Os artigos são as partes distintas que devem ser unidas. Artigos e símbolo se relacionam como os membros de um corpo e o mesmo corpo[V]. Aceitar a fé cristã implica aceitar o símbolo de fé completo, sem mutilações. Os artigos são ordenados entre si, pois há alguns anteriores a outros. Para se crer na ressurreição de Cristo, por exemplo, é necessário aceitar a sua morte; para se crer na sua morte, é necessário crer antes na sua Encarnação. Os artigos de fé se reduzem a um só: crer em Deus e na sua Providência (Heb. 11, 6). Pois no ser divino estão incluídas todas as realidades que acreditamos existir eternamente nele; e a fé na Providência inclui aceitar todos os meios que Deus tem para nos levar à nossa felicidade.
A fé pode então crescer? Depende. Se se refere ao objeto formal da fé, que é único e simples (a verdade primeira) a fé não pode variar nos fiéis: ou se aceita o ser e a ação de Deus ou não. No que se refere ao objeto material da fé, ou seja, às verdades propostas aos fiéis, essas são múltiplas e podem ser acolhidas de modo mais ou menos explícito. Nesse sentido, um fiel pode crer em mais coisas do que outros e pode haver uma fé maior em base ao conhecimento mais profundo das verdades de fé.
Além disso, a fé se distingue segundo os diversos modos nos quais as pessoas a aceitam. Pois o ato de fé provém da inteligência e da vontade. Pode haver uma maior ou menor certeza e firmeza ao aderir a uma verdade de fé, assim como uma maior prontidão, devoção e confiança em Deus[VI].
Pode-se crescer na fé então na medida em que se procura conhecer melhor os seus conteúdos, de modo a aderir a eles com maior convicção, amor e confiança. "Nesta perspectiva, o Ano da Fé é convite para uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo"[VII]. E a fé é um ato primeiramente intelectual, mas deve formar toda a vida cristã. Em palavras de Bento XVI: "Em virtude da fé, esta vida nova plasma toda a existência humana segundo a novidade radical da ressurreição. Na medida da sua livre disponibilidade, os pensamentos e os afetos, a mentalidade e o comportamento do homem vão sendo pouco a pouco purificados e transformados, ao longo de um itinerário jamais completamente terminado nesta vida. A “fé, que atua pelo amor” (Gl 5, 6), torna-se um novo critério de entendimento e de ação, que muda toda a vida do homem»[VIII].
[I] Bento XVI, Porta Fidei, n. 4.
[II] Ibidem, n. 7.
[II] São Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II,q. 1, a. 1.
[IV] Ibidem, II-II, q. 1, a. 2.
[V]Ibidem, II-II, q. 1, a. 6.
[VI] Ibidem, II-II, q. 5, a. 4.
[VII] Bento XVI, Porta Fidei, n. 4.
[VIII] Cfr. Ibid; Rm 12, 2; Cl 3, 9-10; Ef 4, 20-29; 2 Cor 5, 17.

Este artigo pode ser lido também em: http://www.zenit.org/pt/articles/e-possivel-crescer-na-fe

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Pontifical na JMJ

Há exatos 03 meses, no dia 24 de julho, acontecia na Igreja Imperial de Nossa Senhora da Carmo, Antiga Sé do Rio de Janeiro, uma Missa Pontifical na forma extraordinária. 

A Santa Missa, que foi celebrada em honra a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira principal do Brasil e da Jornada Mundial da Juventude, que acontecia na capital fluminense naqueles dias. 

A Eucaristia, no Rito de São Pio V, foi presidida por Sua Exc. Rev.  Dom Fernando Arêas Rifan, Bispo Prelado da Administração Apostólica Pessoal S. João Maria Vianney. 

Na ocasião, os seminaristas membros do Apostolado † Dominus Vobiscum † estiveram presentes ao Coro da Capela Imperial

Agradecemos a querida amiga Lucilene Vieira, que nos concedeu as fotos desta Santa Missa. 











































Há uma verdadeira dicotomia entre a Liturgia de Bento e de Francisco?

A Liturgia é da Igreja, não de Bento ou de Francisco!


Passados um pouco mais de sete meses do início do Pontificado de nosso Pontífice gloriosamente reinante, o Papa Francisco, um ponto me chama a atenção: a Liturgia do Papa Francisco. Não entrarei no mérito da discussão das qualidades e características do Papa Francisco, nem quero compará-lo aos seus veneráveis antecessores.


Vendo as fotos e vídeos da última grande celebração litúrgica pública de Sua Santidade, a Missa na Praça de São Pedro por ocasião da Jornada Mariana, no último dia 13, não se percebe diferença alguma em relação a uma celebração do Papa emérito Bento XVI, por exemplo. Percebe-se uma nítida organização funcional do espaço litúrgico, possibilitando uma melhor celebração dos mistérios de Nosso Senhor. Nota-se que sobre o altar estão dispostos sete castiçais e o Crucifixo voltado para o presidente da assembleia litúrgica, assim como o sólio papal, donde está a cátedra papal e, sob este sólio, um belo e grande Crucifixo voltado para os fiéis da Praça Vaticana a fim de que estes possam contemplar a imagem do Crucificado. Por fim, não podemos esquecer o Brasão papal e, arrisco dizer, que a única “complementaridade” do espaço litúrgico é a imagem da Bem-Aventurada Virgem Maria, ao qual o Sumo Pontífice possui uma filial devoção, próprio de um verdadeiro latino-americano.






















 
   Como já mencionei no início de meu escrito, não quero polemizar ou algo do gênero, mas sim, quero refletir acerca de que não são os paramentos ou uma ideologia litúrgica que regem a vida celebrativa da Igreja de Cristo, mas sim a celebração do mistério pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Há um novo doce Vigário de Cristo na Terra, mudaram-se cargos na venerável Cúria Romana, foram eleitos e nomeados novos bispos e arcebispos, párocos são removidos e transferidos em nossas Dioceses e Arquidioceses, mas a vida sacramental-litúrgica da Igreja não muda, pois Cristo Nosso Senhor não passa. Tudo passa, mas o mistério do Verbo Encarnado permanece o mesmo.































       Assim, parafraseando Bento XVI, a verdadeira Liturgia da Igreja é uma repetição solene de Ritos, com uma sã compreensão da teologia-litúrgica, pois uma verdadeira catequese mistagógica é uma Liturgia bem celebrada. Nesse sentido, a Sagrada Liturgia cumpre o seu objetivo, ou seja, elevar os homens a Deus e trazer Deus mais próximo dos seres humanos. Pensemos um pouco nisto...