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sábado, 23 de novembro de 2013

Origem da Solenidade Cristo Rei do Universo


A Igreja encerra seu Ano Litúrgico com a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. Contudo, poucos têm conhecimento de que se se trata de uma celebração relativamente recente, pois fora instituída em 1925, ou seja, oitenta e oito anos atrás, por Sua Santidade o Papa Pio XI, por meio da encíclica "Quas Primas".









Mas qual seria a razão pela qual o Santo Padre dedica uma encíclica à criação de uma festa litúrgica?

No início do século XX, o mundo, que ainda estava se recuperando da Primeira Guerra Mundial, fora varrido por uma onda de secularismo e ódio à Igreja, como nunca visto na história do Ocidente. O fascismo na Itália, o nazismo na Alemanha, o comunismo na Rússia, a revolução maçônica no México, anti-clericalismos e governos ditatoriais grassavam por toda parte. É neste contexto que, sem medo de ser literalmente "politicamente correto", o Papa Pio XI institui uma festa litúrgica para celebrar uma verdade de nossa fé: mesmo em meio a formas diversificas e injustas de governo e perseguições à Igreja, Nosso Senhor Jesus Cristo continua a reinar sobre toda a história da humanidade.


Eis alguns fragmentos da encíclica "Quas Primas"


Testemunho da Liturgia.


9. Desta doutrina comum a todos os livros santos, naturalmente dimana a seguinte conseqüência: justo é que a Igreja Católica, reino de Cristo na Terra, chamada a estender-se a todos os homens, a todas as nações do universo, multiplicando os preitos de veneração, celebre, no ciclo anual da Liturgia Santa, a seu Autor e Instituidor como a Rei, como a Senhor, como a Rei dos reis. Com admirável variedade de fórmulas, estas homenagens expressam um e o mesmo pensamento; desses títulos servia-se a Igreja outrora no divino ofício e nos antigos sacramentados; repete-os ainda agora, nas preces públicas, que todos os dias dirige à Infinita Majestade e na oblação da Hóstia Imaculada. Nesse louvor ininterrupto de Cristo-Rei, nota-se para logo a formosa harmonia dos nossos ritos com os ritos orientais, verificando-se aqui também a verdade, do prolóquio: "as normas da oração confirmam os princípios da Fé".


Argumento teológico.


10. O fundamento sobre que pousa esta dignidade e poder de Nosso Senhor, define-o exatamente S. Cirilo de Alexandria, quando escreve: "Numa palavra, possui o domínio de todas as criaturas, não pelo ter arrebatado com violência, senão em virtude de sua essência e natureza" (In Lucam, 10). Esse poder dimana daquela admirável união que os teólogos chamam de "hipostática". Portanto, não só merece Cristo que anjos e homens O adorem como a seu Deus, senão que também devem homens e anjos prestar-Lhe submissa obediência como a Homem. E assim, só em força dessa união, a Cristo cabe o mais absoluto poder sobre todas as criaturas, posto que, durante sua vida mortal, renunciasse ao exercício desse domínio.


Oportunidade da festa.


21. Para Nós também soou a hora de provermos às necessidades dos tempos presentes e de opormos um remédio eficaz à peste que corrói a sociedade humana. Fazemo- lo, prescrevendo ao universo católico o culto de Cristo-Rei. Peste de nossos tempos é o chamado "laicismo", com seus erros e atentados criminosos.


Grande impulso à piedade dos fiéis.


34. Que energias, além disso, que virtude não poderão os fiéis haurir da meditação destas verdades, para amoldar seus espíritos aos princípios verdadeiros da vida cristã! Se todo o poder foi dado ao Senhor Jesus, no céu e na terra, se os homens, resgatados pelo seu sangue preciosíssimo, se tornam, com novo título, súditos de seu império, se, finalmente, este poder abraça a natureza humana em seu conjunto, é claro que nenhuma de nossas faculdades se pode subtrair a essa realeza. É mister, pois, que reine em nossas inteligências: com plena submissão, com adesão firme e constante, devemos crer as verdades reveladas e os ensinos de Cristo. É mister que reine em nossas vontades: devemos observar as leis e os mandamentos de Deus. É mister que reine em nossos corações: devemos mortificar nossos afetos naturais, e amar a Deus sobre todas ,as coisas. É mister que reine em nossos corpos e em nossos membros: devemos transformá-los em instrumentos, ou, para falarmos com S. Paulo (Rom 6, 13), "em armas de justiça, oferecidas a Deus", para aumento da santidade de nossas almas. Eis os pensamentos que, propostos à reflexão dos fiéis e atentamente ponderados, hão de facilmente levá-los a mais elevada perfeição.

Encerrar o Ano Litúrgico com a Solenidade de Cristo Rei é consagrar a Nosso Senhor o mundo inteiro, toda a nossa história e toda a nossa vida. É entregar à sua infinita misericórdia um mundo onde reina o pecado.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 
PIO XI Carta Encíclica Quas Primas sobre Cristo Rei. II edição. Editora Vozes LTDA: Rio de Janeiro, 1950.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Sentido teológico: Versus ad populum aut contra Deum?

Essa nos é uma pergunta constante, qual a razão de celebrar o sacrifício da Missa de costas para o povo? E por que se celebra de frente para o povo? Liturgicamente qual delas possui um significado teológico?


Essa pergunta e outras serão explicadas pelo Reverendíssimo Monsenhor Guido Marini - Mestre de Cerimônias da Liturgia Pontifícia.


O que se entende com "oração voltada para o oriente"? Entende-se o coração orante orientado para Cristo, do qual provém a salvação e para o qual todos tendem como para o Princípio e Termo da História. No Oriente nasce o sol. Ora, o sol é símbolo de Cristo, a luz que surge do Oriente. Lembre-se a propósito a passagem do cântico Benedictus : "O sol que surge no Oriente vem nos visitar"(Lc 1, 78).

Durante a celebração Eucarística o sacerdote nos convida a voltar os corações para o Senhor: "Sursum Corda", e todos respondem "Habémus ad Dóminum". Ora, se tal orientação deve ser sempre interiormente assumida por toda a comunidade cristã e recolhida em oração, essa atitude deve ser também expressa com sinal exterior. De fato, o sinal exterior há de ser sempre verdadeiro, de modo que torne manifesta a correta atitude espiritual.




Missa presidida por S.S. Papa Bento XVI

Então aí está o motivo da proposta do Cardeal Ratzinger, enquanto Pontífice Máximus da Igreja, que é mantida pelo então Cardeal Bergoglio - Papa Francisco: colocar o crucifixo no centro do altar, de maneira que todos, no momento da liturgia Eucarística, possam efetivamente voltar os olhos para o Senhor, orientando assim a própria oração e coração.

A Cruz permanece no centro do Altar

Vejamos o que disse o Papa Bento XVI, que escreve sua Opera omnia, dedicado à liturgia: " A ideia de que o sacerdote e povo deveriam, na oração, olhar um para o outro, surgiu apenas no cristianismo moderno e é completamente estranha no antigo. Sacerdote e povo certamente não rezam um para o outro, e sim para o único Senhor. Por isso na oração todos olham para mesma direção: ou para o Oriente como símbolo cósmico do Senhor que vem, ou, nos lugares onde isso não é possível, para uma imagem de Cristo na abside, para uma cruz, ou simplesmente para o céu,como fez o Senhor durante a oração sacerdotal da última noite antes da Paixão (Jo 17, 1).
E não se diga que a imagem do crucifixo obscurece a visão dos fiéis em relação ao celebrante. Os fiéis não devem olhar o celebrante, nesse momento litúrgico! Devem olhar para o Senhor! Assim aquele que preside a celebração deve poder olhar para o Senhor. A cruz não impede a visão; ao contrário, lhe abre o horizonte para o mundo de Deus, e a faz contemplar o mistério, a introduz no céu, de onde provém, a única luz capaz de dar sentido à vida neste mundo.
 Em nosso tempo entrou em voga a expressão "celebrar voltado para o povo". É aceitável dizer assim, quando a expressão entende descrever o aspecto topográfico, devido ao fato que hoje o sacerdote, pela colocação do altar, se encontra em posição frontal em relação à assembleia. Mas, não se poderia absolutamente aceitar, se tal expressão tivesse conteúdo teológico. De fato, a Missa, teologicamente falando, está sempre voltada para Deus, através de Cristo nosso Senhor, e seria grave erro imaginar que a orientação principal da ação sacrifical fosse a comunidade. Por isso, tal orientação- voltada para o Senhor- deve animar em cada um a participação litúrgica interior. E é igualmente importante que isso possa ser bem visível também no sinal litúrgico.

Missa presidida por S.S. Papa Francisco
                                               
   
Fonte: MARINI Guido, Liturgia Mistério da Salvação,  Ed. Paulus.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Faleceu o ilustre Cardeal Domenico Bartolucci


Faleceu o Sr. Cardeal Domenico Bartolucci, 
Ilustre Maestro perpétuo do Coro da Capela Sistina. 


Domenico Bartolucci nasceu em 07 de maio de 1917, em Borgo San Lorenzo na Itália. Desde criança tomou gosto pela música. Quando seminarista chegou a ser proibido de cantar e se dedicar a arte da música, pois os superiores temiam que o jovenzinho se distraísse dos estudos necessários. 

Foi ordenado sacerdote em 23 de dezembro de 1939, para a Arquidiocese de Florença. Enviado a Roma foi nomeado vice-maestro do Coro da Basílica Patriarcal de São João de Latrão e depois maestro da Capela Musical Liberiana de Santa Maria a Maior, como sucessor do grande Licinio Refice. 


Em 1955 era redirecionado para a função de vice-maestro da Capela Sistina, com o Maestro Perosi. Com ele permaneceu até o seu falecimento. Algum tempo depois Sua Santidade o Papa Pio XII o nomeou Diretor Perpétuo da Capela Musical Sistina, "ad vitam". Cargo no qual permaneceu até 1997, quando completou 80 anos. 

Conta-se que o afastamento de Mons. Bartolucci do Coro da Capela Sisitina tenha sido uma manobra do então Mestre das Cerimônia Litúrgicas do Sumo Pontífice, Piero Marini. O ilustre e exímio musicista sacro aceitou o seu afastamento com resignação. 


O então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Ioseph Ratzinger, ao saber do afastamento de seu amigo pessoal, direcionou uma carta a Domenico Bartolucci. Na correspondência Ratzinger escreveu: "Resista, Maestro, Resista!"





Após sua forçada aposentadoria, Domenico continuou a residir na Cidade Eterna e a escrever diversas obras. Porém, sua resignação tornou-se escuridão. 



Durante muitos anos o Regente Perpétuo da Capela Sistina foi condicionado a um extremo ostracismo. 




Quando, em 2005, Ratzinger foi eleito para o Sólio Petrino com o nome de Bento XVI, o maestro já contava com 88 anos. Pouco a pouco, por ordem do Santo Padre, as músicas de Domenico foram sendo introduzidas na liturgia. Era um verdadeiro sentimento de gratidão, para com aquele que tanto fez pela Igreja e pela música sacra. 



Amizade e Gratidão eram os sentimentos que uniram Ratzinger e Bartolucci. Sobre Bento XVI o maestro chegou a afirmar: "É um Napoleão sem generais".

Em 20 de outubro de 2010 o Papa convocou um Consistório para a criação de 24 novos cardeais. E surpreendeu a todos ao escolher Domenico Bartolucci, de 93 anos, como Príncipe do Colégio Cardinalício. 


Um mês após o anúncio, em 20 de novembro, Bento XVI o criou Cardeal-Diácono da Santa Igreja, lhe concedendo o título da diaconia do Santíssimo Nome de Jesus e de Maria, in via lata, que agora passa a estar vacante. 


Em 31 de agosto do outro ano, 2011, o Cardeal Domenico Bartolucci ofereceu um concerto, com suas próprias músicas ao papa Bento XVI. Na ocasião, no Palácio de Castel Gandolfo, o purpurado disse:


“Estou aqui, Beatíssimo Padre, para agradecer Vossa Santidade pelo forte chamado em favor do uso da música nas hodiernas celebrações da Santa Missa. 
Estou certo que, ao chamar um músico para ser parte do Colégio dos Cardeais, desejastes que isso fosse um chamado em favor do uso da música sacra na Sagrada Liturgia."

Já tendo idade bastante avançada quando do anúncio do cardinalato, Domenico recorreu ao Santo Padre e pediu dispensa da Sagração Episcopal. O Papa lhe concedeu. O maestro não foi ordenado Bispo, permaneceu apenas padre, mas, por ser cardeal possuía o privilégio de portar insígnias episcopais. 



Durante sua vida, ele confessou certa vez, nunca celebrou a Santa Missa no rito Paulo VI. Bartolucci dizia que "a missa em latim produz um maior fruto espiritual na alma do fiel". Ele passou sua existência, mesmo após o concílio, celebrando apenas o Rito Romano em sua forma extraordinária, Pio V. 








Neste momento, em que a Santa Igreja e arte sacra choram a perda deste exímio e ilustre compositor, rendemos graças a Deus pelo dom da vida do Sr. Cardeal Domenico Bartolucci e confiamos sua alma aos cuidados materno de Maria Santíssima, afim de que o conduza a Pátria definitiva, junto de Deus, e lá o cumule com o repouso dos santos. 



sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Dedicação da Basílica de Latrão, Catedral das Catedrais de todo o Orbe

Archibasilica Sanctissimi Salvatoris


Omnium Urbis et Orbis Ecclesiarum Mater et Caput



Neste dia 9 de novembro, celebramos a Festa da Dedicação da Basílica de São João do Latrão, a Catedral da Diocese de Roma, e, portanto, a "mãe" e "cabeça" de todas as igrejas do mundo católico, a "Catedral de todos os Papas". 


I. História:

Segundo registros, o Imperador Constantino doou ao Papa Melquíades, 31° sucessor de São Pedro, um vasto terreno que outrora pertencia à família Laterano, que durante anos serviu aos imperadores romanos como administradores. Ali se construiu uma igreja dedicada ao Santíssimo Salvador, anexa ao Palácio de Laterano, onde residia o Papa. Consta que o primeiro templo tenha sido dedicado em 342 por Silvério I. 



Mais tarde, já no século VII, o Papa Gregório Magno dedicou a Basílica aos Santos João: o Batista e o Evangelista. A origem da atual Basílica Lateranense, entretanto, remonta a 1646, sob o pontificando de Inocêncio X, que mandou empreender alterações que a deixaram nos contornos atuais.


II. A Catedral Romana:

A igreja erguida no antigo terreno “dei Laterani” e dedicada ao Santíssimo Salvador, tem como padroeiros os Santos: João Batista, celebrado em 24 de junho, e João Evangelista, cuja memória celebra-se em 27 de dezembro. 

É considerada a primeira catedral de todo o mundo cristão. Igreja-Mãe de Roma, que em palavras de Santo Inácio de Antioquia, nos preside na caridade. Foi lá que durante muitos séculos residiu o Papa, até a construção das dependências pontifícias que hoje existem no Vaticano.


Dentro desta igreja secular se realizaram as sessões de cinco grandes concílios ecumênicos (1123, 1139, 1179, 1215 e 1517), comumente chamados “concílios de Latrão” ou "concílios Lateranenses". Nela também se celebravam diversos batizados de antigos pagãos, especialmente na noite da Vigília Pascal.

Esta Basílica se reveste de um significado muito especial para a cristandade. Diz a tradição da Santa Igreja que o aniversário de sua dedicação, celebrado originalmente só em Roma, e hoje comemorado em todas as comunidades do rito romano, tem a finalidade de enaltecer e reforçar o ministério petrino do Sumo Pontífice, que de sua Basílica Patriarcal, preside na caridade a única Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo e que congrega, por seu gesto primacial, todas as Igrejas do Orbe.


A Basílica de Latrão, portanto, é a Mãe e Cabeça de todas as Igrejas do mundo católico. Lá se encontra a Cátedra de Pedro, a cátedra do Bispo de Roma.


III. Origem da Festa da Dedicação:

O antigo povo judeu celebrava anualmente a festa da dedicação em memória da purificação e do restabelecimento do culto e da vida ativa no Templo de Jerusalém depois da vitória de Judas Macabeu sobre o Rei Antíoco.


A cristandade, por sua vez, tomou para si esta celebração para perpetuar o aniversário da dedicação dos templos convertidos. Mais tarde, esta festa foi levada para Roma, na dedicação de sua catedral – São João do Latrão – e, mais tarde, espalhada para todo o rito latino.


 Hoje, além da Catedral de Roma, celebramos a dedicação de toda e qualquer igreja dedicada e consagrada para local de culto, conforme preveem as orientações canônicas. Especial ênfase deve ser dada, em cada diocese, à celebração do dia da dedicação da catedral diocesana, que é festa em todo o seu território diocesano, e na celebração do dia da dedicação das igrejas matrizes paroquiais, que possui o grau de solenidade.




IV. A importância dos templos:

No templo, somos convocados a encontrarmo-nos com Deus, nosso Senhor, e com os irmãos que partilham a mesma fé. É dentro do templo que formamos comunidade cristã em busca do Reino dos céus. O Beato Papa João Paulo II, durante sua visita a Madri em 1982, disse: "o templo é a casa de Deus e vossa casa. Apreciai-os, pois, como lugar de encontro com o Pai comum”. 



O edifício da igreja, as pedras, são a representação visível da igreja-assembleia, nascida no batismo e formada na vivência dos sacramentos e na prática comum da caridade.


V. Orientações litúrgico-pastorais: 

  • Celebra-se a Dedicação da Basílica de São João do Latrão como festa. Portanto, o ofício da Liturgia das Horas é festivo e utiliza-se o comum da dedicação de uma igreja, exceto o que é próprio. 
  • Na missa, toma-se inclusive o prefácio da dedicação de uma igreja.
  • Este dia se enriquece de salutar oportunidade de rezar pelo Sumo Pontífice e por toda a Igreja Universal.


     VI. Curiosidades:

I. Latrão, os papas e os cavalos:

Sempre que o Sucessor de São Pedro era eleito pelo Sacro Colégio de Cardeais para ocupar a Sé Apostólica de Roma, estando na cidade eterna, o eleito era levado até a Basílica de São João do Latrão. Lá, tomava posse de sua catedral e de sua nova diocese, que exerce solicitude pastoral para com a Igreja de todo o mundo. Após a cerimônia em laterano o Pontífice saía em cortejo solene. 

Márcio Dell’Arco e Francisco Concelliene, renomados historiados italianos definem a procissão como “um acontecimento coreográfico”.




O Cavalo branco que levava o Papa era conduzido pela rédea por altos funcionários do Estado Pontifício e da Cidade de Roma. Na frente, acompanhavam o cortejo; pajens, cavaleiros da Guarda-suíça, soldados, Decano e Vice-Decano com guarda-sol aberto. Seguiam ainda o mestre da Câmara Pontifícia, o caudatário, dois ajudantes da câmara, e finalmente, de dois em dois surgiam o Senado da Igreja. Montados em  mulas desfilavam os cardeais, os Patriarcas, Arcebispos, Bispos e toda a Cúria Romana.

O último papa que realizou o passeio a cavalo na ocasião da posse foi Clemente XIV (1769-1774), no século XVIII.

II. Os papas sepultados em Latrão:

Atualmente repousam os restos mortais de 21 Bispos de Roma em São João do Latrão. São Eles: Agapito I, Alexandre II, Alexandre III, Anastácio IV, Calisto II, Celestino II, Celestino III, Clemente XII, Honório II, Inocêncio III, Inocêncio V, João X, João XII, João XVII, Leão XII, Lúcio IIMartinho V, Pascoal II e Sérgio IV.  

O último que lá foi sepultado foi Leão XIII, o Papa que mandou alargar o Coro da Basílica. 





Rezemos, nesta Festa da Dedicação da Basílica de São João do Latrão, pelo Papa Francisco e por toda a Igreja Universal. Que nosso Doce Cristo na terra governe com sabedoria o rebanho do Senhor a ele confiado.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

V Congresso Eucarístico Nacional: 1948 em Porto Alegre

Altar-Monumento construído no Parque Farroupilha.

Há 65 anos, em 28 de outubro de 1948, inciava-se na cidade de Porto Alegre - capital do Rio de Grande do Sul - o V Congresso Eucarístico Nacional, cujo lema foi: Ação Social. Um evento católico que marcou a fé dos gaúchos e de todos os brasileiros de então. 

O Congresso aconteceu na cidade de Porto Alegre, marcando o centenário de criação da Diocese de  São Pedro do Rio Grande do Sul, erigida canonicamente pelo Beato Papa Pio IX em 07 de maio de 1848, pela bula Ad oves dominicas.

Cem anos mais tarde - em 1948 - em Roma reinava glorioso o Papa Pio XII, que faleceria apenas dez anos mais tarde, em 1958. Já em Porto Alegre, o Arcebispo era o jovem Dom Alfredo Vicente Scherer, de 45 anos, que governa a Sé-capital dos gaúchos havia pouco mais de um ano.

             Dom João Becker                 
Scherer havia sido eleito e nomeado Bispo Titular de Emeria e Auxiliar do Conde Dom João Battista Becker, que desde 1912 guiava com seu báculo forte a vasta Arquidiocese Gaúcha. Adoentado há mais uma década, o Conde Becker, que era de origem alemã, mas radicado em Porto Alegre, decidiu pedir a Santa Sé um bispo auxiliar. 

Becker decidiu que seu auxiliar seria sagrado na festa de São Pedro e São Paulo do ano de 1946, mas não resistiu e faleceu pouco antes, em 15 de junho daquele ano. 

Cardeal Alfredo Vicente Scherer

A sagração de Mons. Vicente Scherer ficou suspensa até 23 de fevereiro de 1947, quando o então Núncio Apostólico no Brasil, Dom Carmo Chiarlo, lhe conferiu a ordenação episcopal, tendo como co-sagrantes Dom José Baréa, Bispo de Caxias do Sul, e Dom José Newton de Almeida Baptista, Bispo de Uruguaiana, ambos sufragâneos de Porto Alegre.

Na tarde do mesmo dia, Alfredo Vicente Scherer tomou posse como III Arcebispo de Porto Alegre. Tinha pela frente grandes desafios pastorais, entre eles a conclusão das obras da Catedral Madre de Deus e a organização do V Congresso Nacional.

Scherer guiou a Arquidiocese gaúcha até 1981. Em 1969, entretanto, o Papa Paulo VI o fizera Cardeal da Santa Igreja, com o título presbiteral de Nossa Senhora da Salete. Faleceu em 8 de março de 1996, seus restos mortais repousam na Catedral Madre de Deus de Porto Alegre.

O Congresso foi antecedido por três dias de retiro para os Bispos. Entre os dias 20, 21 e 22 de outubro de 1948, no extinto seminário central de São Leopoldo, aconteceu o primeiro retiro para o episcopado brasileiro, que foi pregado pelo Sr. Cardeal Antonio Caggiano, então Bispo de Rosário na Argentina.



Programação do Congresso Eucarístico
Os purpurados: Ao centro o Arcebispo do Rio, Dom Câmara e o Arcebispo de São Paulo, Vasconscelos
A esquerda: o Arcebispo de Porto Alegre, Vicente Scherer e a Direita: o Núncio Apostólico, Chiarlo,

A abertura solene do V Congresso Eucarístico se deu em 28 de outubro, com Missa Pontifical cantada pelo Arcebispo de São Paulo, o Sr. Cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota. 

Nos demais dias houve catequeses, primeiras comunhões e Adoração ao Santíssimo Sacramento, exposto 24 horas por dia na centenária Igreja de Nossa Senhora das Dores. 









As Santas Missas, eram celebradas no Altar-Monumento erguido no Parque Farroupilha, comumente chamado de Redenção. 

Em cada Missa, tomavam a palavra - para o sermão - ilustres nomes do episcopado nacional e latino-americano. Entre eles:

S. Excia. Revma. Dom Carlos Chiarlo, Núncio Apostólico do Brasil, Sua Eminência o Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara, Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro, Sua Eminência o Cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcellos Mota, Arcebispo de São Paulo, Sua Eminência o Cardeal Dom Antonio Caggiano, Bispo de Rosário (Argentina), Sua Excia. Revma. Dom Augusto Álvaro da Silva, Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Presidente da Comissão Episcopal dos Congressos Eucarísticos Nacionais, e Sua Excia. Revma. Dom Vicente Scherer, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, dentre outros eclesiásticos.

Na ocasião, se fez presente também o Presidente da República, Sr. General Eurico Gaspar Dutra.



O V Congresso Eucarístico Nacional se encerrou em 31 de outubro, com Missa Pontifical e um solene cortejo com o Santíssimo Sacramento pelas ruas da cidade de Porto Alegre, coroando-se com o Angelus e a locução papal de Pio XII, que de Roma saudou os peregrinos gaúchos e brasileiros que se encontravam no Congresso.


Lembrança do Congresso
Para a ocasião do Congresso, o então Arcebispo, junto com o Cabido Metropolitano, mandou fazer diversos vasos sagrados, alfaias e mobiliários para a solene ocasião. Diversas paróquias da Arquidiocese Portalegrense conservam ainda cálices, cibórios e patenas com o brasão de armas do Arcebispo Scherer e o escudo do V Congresso Eucarístico Nacional.

Na Catedral Metropolitana, a Cátedra utilizada pelo Arcebispo de Porto Alegre é aquela que foi confeccionada para a ocasião. Nela vemos o Brasão de armas de Sua Santidade o Papa Pio XII (acima), que era o Papa da época, e de Dom Vicente Scherer (abaixo).





Uma das peças que também se preservam é o ostensório oficial do V Congresso Eucarístico, que se conserva no acervo metropolitano e é utilizado anualmente na procissão de Corpus Christi, presidida pelo Arcebispo da Cidade.


Nas portas e paredes dos lares católicos foi posto este lacre, que continha o Brasão de Armas do Congresso Eucarístico Nacional, cujo lema foi a Ação Social. 

Repare que de um lado há o ano de 1848, em alusão à criação da Diocese de São Pedro do Rio Grande do Sul, e do outro lado o ano do Congresso, 1948. 


Pingentes ou broches como esse foram confeccionados e utilizados por homens e mulheres da época. Os católicos brasileiros, em particular os gaúchos, davam testemunho de sua fé e seu amor ao Cristo Sacramentado até mesmo na indumentária. 


Outro elemento a ser recordado é livro de cantos do Congresso. Sob a regência de Mons. Leopoldo Hoff, padre do clero de Porto Alegre, foram feitos os mais belos hinos a Jesus Sacramentado. Entre eles o hino do Congresso "Hóstia Branca", que é popularmente utilizado até hoje.



Enfim, encerrando esta feliz recordação, eis os selos do Correio, comemorativos ao Congresso de 1948.

sábado, 26 de outubro de 2013

É possível crescer na Fé?

Reflexões para o ano da fé a partir de Santo Tomás de Aquino e Bento XVI



Por Pe. Anderson Alves
Do Clero da Diocese de Petrópolis
Colaborador do site Zenit e do Apostolado + Dominus Vobiscum +



Estamos vivendo o ano da fé, pensado por Bento XVI como "uma ocasião propícia para introduzir o complexo eclesial inteiro num tempo de particular reflexão e redescoberta da fé"[I]. Nesse período cada fiel deve procurar aprofundar na própria vida de fé para poder comunicá-la mais eficazmente. "A fé cresce quando é vivida como experiência de um amor recebido e é comunicada como experiência de graça e de alegria"[II]. Mas com frequência surge uma dúvida: é realmente possível crescer na fé? Não é verdade que distinguimos simplesmente entre os que têm fé e os que não a tem?

Depende de como se entende a fé. Ela é essencialmente uma relação entre Deus e o homem. Deus se revela livremente doando-se ao homem, no tempo estabelecido por Ele. E o homem é livre para aceitá-lo ou não. A fé é, pois, um dom divino e uma resposta humana. O objeto da fé (Tomás de Aquino chamava de “razão formal”) é a verdade primeira, ou seja, a afirmação da existência e da Providência divina[III]. Nesse sentido, o primeiro ato de fé é crer que "Deus existe e recompensa os que o buscam" (Heb. 11, 6). E assim se distingue simplesmente os que acolheram o dom fé e os que ainda não.

Todavia a “razão material” da fé é Deus mesmo e as outras realidades ordenadas a Ele. Isso significa que a realidade na qual se crê é simples: é Deus mesmo. E como a fé é um ato humano, de conhecimento amoroso de Deus, esse ato deve ser bem entendido. Pois o homem conhece diversamente de Deus e dos anjos. Deus conhece as realidades compostas num ato simples: Ele, ao pensar a si mesmo, apreende todas as coisas complexas. O homem, por sua parte, conhece as realidades simples (como o ser de Deus), por meio de muitos atos complexos. O conhecimento da verdade por parte do homem é sempre discursivo, parcial, ou seja, depende da simples apreensão da realidade, dos juízos e dos raciocínios. O homem apreende então o simples por meio do complexo, e Deus conhece o complexo na Sua simplicidade. Podemos conhecer a Deus a partir das suas criaturas e do que é revelado por Ele. Mas Deus se revela através de muitas palavras: os diversos enunciados da fé. Em outras palavras, a partir da perspectiva do que é conhecido pela fé, o objeto da fé é o ser simplicíssimo de Deus. E a partir do ponto de vista de quem crê, o objeto da fé é composto, são os diversos enunciados da fé, que correspondem ao modo humano de conhecer[IV].


Os principais enunciados da fé se encontram reunidos nos chamados Símbolos, compostos por artigos. Os artigos são as partes distintas que devem ser unidas. Artigos e símbolo se relacionam como os membros de um corpo e o mesmo corpo[V]. Aceitar a fé cristã implica aceitar o símbolo de fé completo, sem mutilações. Os artigos são ordenados entre si, pois há alguns anteriores a outros. Para se crer na ressurreição de Cristo, por exemplo, é necessário aceitar a sua morte; para se crer na sua morte, é necessário crer antes na sua Encarnação. Os artigos de fé se reduzem a um só: crer em Deus e na sua Providência (Heb. 11, 6). Pois no ser divino estão incluídas todas as realidades que acreditamos existir eternamente nele; e a fé na Providência inclui aceitar todos os meios que Deus tem para nos levar à nossa felicidade.
A fé pode então crescer? Depende. Se se refere ao objeto formal da fé, que é único e simples (a verdade primeira) a fé não pode variar nos fiéis: ou se aceita o ser e a ação de Deus ou não. No que se refere ao objeto material da fé, ou seja, às verdades propostas aos fiéis, essas são múltiplas e podem ser acolhidas de modo mais ou menos explícito. Nesse sentido, um fiel pode crer em mais coisas do que outros e pode haver uma fé maior em base ao conhecimento mais profundo das verdades de fé.
Além disso, a fé se distingue segundo os diversos modos nos quais as pessoas a aceitam. Pois o ato de fé provém da inteligência e da vontade. Pode haver uma maior ou menor certeza e firmeza ao aderir a uma verdade de fé, assim como uma maior prontidão, devoção e confiança em Deus[VI].
Pode-se crescer na fé então na medida em que se procura conhecer melhor os seus conteúdos, de modo a aderir a eles com maior convicção, amor e confiança. "Nesta perspectiva, o Ano da Fé é convite para uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo"[VII]. E a fé é um ato primeiramente intelectual, mas deve formar toda a vida cristã. Em palavras de Bento XVI: "Em virtude da fé, esta vida nova plasma toda a existência humana segundo a novidade radical da ressurreição. Na medida da sua livre disponibilidade, os pensamentos e os afetos, a mentalidade e o comportamento do homem vão sendo pouco a pouco purificados e transformados, ao longo de um itinerário jamais completamente terminado nesta vida. A “fé, que atua pelo amor” (Gl 5, 6), torna-se um novo critério de entendimento e de ação, que muda toda a vida do homem»[VIII].
[I] Bento XVI, Porta Fidei, n. 4.
[II] Ibidem, n. 7.
[II] São Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II,q. 1, a. 1.
[IV] Ibidem, II-II, q. 1, a. 2.
[V]Ibidem, II-II, q. 1, a. 6.
[VI] Ibidem, II-II, q. 5, a. 4.
[VII] Bento XVI, Porta Fidei, n. 4.
[VIII] Cfr. Ibid; Rm 12, 2; Cl 3, 9-10; Ef 4, 20-29; 2 Cor 5, 17.

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