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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Bento, homem de Relação

Quando da eleição de Bento XVI, em abril de 2005, a revista Veja ostentou na sua capa a seguinte manchete: “A Igreja congelada”, seguida de uma grande foto do novo Pontífice dentro de um cubo de gelo. 


Assim começava o papado de Ratzinger: com a imagem de um homem severo, intransigente, músico autista e alemão turrão. O povo brasileiro, mas também os demais, assumiram essa visão do Doce Cristo na terra. Demorou e muito para que o novo Papa roubasse um sorriso e um olhar de apreço dos mais desconfiados. 

Bento XVI carregava sobre si o peso de suceder o grande e carismático Beato João Paulo II. O papa polonês foi artista, era poeta e durante anos foi Bispo Diocesano. Sua imagem foi feita para as massas. Já Ratzinger era frágil, naturalmente mais introspectivo – que justifique sua natureza alemã – e ainda foi, desde o começo de sua vida, um apaixonado pelos livros. Bento fazia e faz o tipo “rato de biblioteca”, “de escritório” e “de sacristia”, acostumado a lidar com escaninhos cheios e com papeis amontoados. 

Da noite pro dia ele se torna o líder de todos católicos e passa a ser vigiado pelo mundo inteiro. Custaria um pouco para dar-se conta da missão e do papel que desempenharia diante de toda a sociedade, seja ela católica ou não. 

Joseph Ratzinger deveria ser papa e o papa deve ser um homem de relação. Relação com Deus, com seu povo, com os ministros ordenados, com a Cúria Romana, com os cristãos e não-cristãos, com as autoridades de diversos países. 


Bento nunca foi diplomata, como foi o Papa Pio XII, mas, não deixou a desejar no que tangia as relações com as diversas nações e com autoridades distintas. Em 13 de novembro de 2009, através da Nunciatura Apostólica no Brasil, o Santo Padre assinou com o então Presidente da República, Sr. Luiz Inácio Lula da Silva um acordo entre Brasil e Santa Sé, no qual norteava e regulamentava as relações diplomáticas e institucionais. 

Na sede da ONU, em 18 de abril de 2008, ele foi o terceiro Papa a discursar. Defendeu o direito à vida, a família, os direitos humanos e a Igreja. Os diplomatas pararam para ouvir um senhor octogenário, monarca do menor país do mundo.

A presença do sucessor de Pedro é naturalmente impactante. Bento soube aproveitar a repercussão de suas palavras também para promover a paz entre as nações, como vimos em tantas locuções após a recitação mariana do Angelus ou em suas catequeses semanais.

Bento relacionou-se de maneira singular com o mundo, mas, também com as demais igrejas e comunidades eclesiais. Tão logo assumiu sua cátedra, o primeiro Papa alemão após o holocausto, fez questão de visitar a sinagoga de Roma. Tempos depois, ainda atravessou, solitário, o portão do campo de concentração de Auschwitz, na mesma atitude de silenciosa oração que repetiria também diante do muro das lamentações, em Jerusalém. Para Ratzinger os judeus “são nossos irmãos mais velhos na fé”. Ele empenhou esforços grandiosos para dar envergadura ao diálogo judaico-cristão.







Foi ele também o primeiro papa e ingressar na Abadia de Westminster, em 17 de dezembro de 2010, que desde a rompimento de Henrique VIII em 1534 passou a ser propriedade da Igreja da Inglaterra, os anglicanos. Lá o Papa discursou, durante um ato ecumênico, sobre a Trindade, a fé que nos une. Além disso, o primeiro papa alemão desde a Reforma, falou de forma cortês sobre Martim Lutero, em uma celebração ecumênica no ex-convento agostiniano onde o monge reformador celebrou sua primeira missa, sendo ouvido atentamente por seus conterrâneos, tanto católicos como luteranos.


Ratzinger foi corajoso também para ir à Turquia, mesmo envolto na polêmica com os mulçumanos. Sua viagem chegou a ser considerada de “alto risco”, mas, as relações são feitas e provadas a ferro e fogo. Em sua primeira viagem oficial a um país de maioria islâmica, o Papa tirou os sapatos para entrar na Mesquita Azul, onde rezou com os muçulmanos, virado para Meca. Também lá, em Istambul, estavam os apóstolos Pedro e André, em seus sucessores Bento XVI e Bartolomeu I, reunidos na fé e no amor. 




Bento XVI foi verdadeiramente um homem de relação. Soube relacionar-se com diplomacia, com brio e santidade. Relacionar-se com os mais fortes e com os mais fracos, com os mais ricos e com os mais pobres, com os crentes e com não crentes. Seu legado nos mostra da importância de darmos respostas seguras e um testemunho fiel de nossa fé e de nossa vida, conformada a Cruz de Cristo.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Bento, homem da Arte e da Cultura

Por Henrique Zimmer* 
Seminarista da Arquidiocese de Porto Alegre-RS 




Nascido entre aquele povo de onde saíram alguns dos mais célebres e aclamados compositores clássicos, como Bach, Mozart e Beethoven, o jovem Joseph Ratzinger logo cedo tomou gosto pela arte, e pela música de câmara – a música clássica, em especial. Crescendo em um lar muito cristão, onde a religiosidade era, obviamente, aliada a um grande apreço pela cultura, Joseph teve amplo espaço para desenvolver as suas habilidades artísticas. Além de tocar piano, interessou-se também, desde muito jovem, pela literatura e pelas línguas - Bento XVI domina uma dúzia de idiomas, entre os quais o grego antigo e o hebraico.

Sabe-se que dentre as coisas para as quais o nosso amado Papa Emérito tem procurado dar mais atenção desde sua renúncia, em 28 de fevereiro de 2013, está o antigo hábito de tocar suas peças prediletas ao piano. Temos acesso às declarações oficiais do Vaticano, ou de seu próprio secretário particular, Dom Georg Gaenswein, e a algumas imagens muito belas, que incluem o encontro com seu irmão, Monsenhor Georg Ratzinger, o antigo regente do coro da Catedral de Ratisbona, quando este celebrava seus 90 anos de vida ao lado de Bento XVI.



Tudo isso nos atesta o bem que essa nova rotina, baseada em música, leitura, estudo e oração, tem feito a Bento XVI. E ele compreende os benefícios e valores da cultura e da arte, não só para sua própria saúde física e espiritual, ou a de terceiros, mas procurou, também, promover a arte enquanto algo maior, que é para Deus. 

Bento XVI soube, como poucos, dar o devido valor ao belo. E aqui falamos não só em beleza estética, mas também no que toca aos valores históricos do que constitui a cultura da sociedade cristã, em especial no ocidente. Exemplo disso foi a criação da Pontifícia Academia Latinista, a fim de buscar uma verdadeira compreensão da importância da língua latina, seja quanto ao seu uso litúrgico, ou mesmo ao recordar-nos que é este o idioma que deu origem a tantos outros e que, em si, carrega a fonte de inúmeras obras literárias do mundo latino.


Há quem diga que todo esse apreço de Bento XVI pela beleza, em especial na liturgia, ao retomar alguns paramentos e dar destaque ao latim, ao Canto Gregoriano e à Polifonia Sacra, seria como que uma ruptura com aquilo que nos é ensinado pelo Concílio Vaticano II. Mas a verdade é que nenhuma postura poderia ser mais centrada na fidelidade ao Concílio, do que a postura tomada por Joseph Ratzinger ao assumir a Cátedra de São Pedro. 

  

Já nos dizia o Papa Paulo VI em sua mensagem aos artistas, quando da conclusão do Concílio: “O mundo em que vivemos tem necessidade de beleza para não cair no desespero. A beleza, como a verdade, é a que traz alegria ao coração dos homens, é este fruto precioso que resiste ao passar do tempo, que une as gerações e as faz comungar na admiração”.

Falando a artistas, com os quais se reuniu em 2009 – 10 anos depois da carta que o Papa João Paulo II lhes havia dirigido, Bento XVI chamava-os a atentar justamente para essa percepção do belo à luz da fé, que fora defendida na visão conciliar. Dizia ele: “Não tenhais medo de relacionar-vos com a fonte primeira e última da beleza, de dialogar com os crentes, com quem, como vós, se sente peregrino no mundo e na história, rumo à Beleza infinita!”




Enquanto homens e mulheres de nosso tempo, temos visões sobre o belo que podem variar. Aquilo que para um é a obra mais perfeita e digna, para outro pode não apresentar valor algum. Mas devemos nos valer, também, dessa herança que o Papa Emérito nos deixou. Como ele sabiamente nos ressaltou, devemos rumar à Suprema Beleza, à Beleza infinita, que é o nosso Deus!

  
Que saibamos, como Bento XVI, dar o devido valor e dedicar tudo aquilo de belo, em nós, na Igreja e no mundo, Àquele que tudo merece.


                                                    
Henrique Zimmer é seminarista da Arquidiocese de Porto Alegre, Músico e Compositor graduado pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS).

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Bento, homem da Fé e da Razão

Por Pe. Anderson Alves*
Sacerdote do Clero da Diocese de Petrópolis-RJ





Um dos temas centrais da obra de J. Ratzinger é a relação entre fé, verdade e amor. Ele o tratou durante toda a sua vida, inclusive são os assuntos principais das suas Encíclicas. A recente Encíclica Lumen Fidei, escrita por Bento XVI e Francisco, trata fundamentalmente da fé que ilumina toda a existência humana, inclusive a inteligência e a vontade, ou seja, as capacidades humanas de conhecer a verdade e de amar o bem.

Um dos textos mais importantes do magistério de Bento XVI foi certamente o discurso dele na Universidade de Regensburg, na Alemanha em 2006, entitulado “fé, razão e Universidade”. Naquela ocasião encontramos uma ótima síntese do seu pensamento, que vale a pena lembrar aqui.


Bento XVI parte da afirmação de que, para o cristianismo, não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus. E nisso o cristianismo coincide com a filosofia grega e esse acordo não pode ser jamais anulado. Para o cristianismo, diferentemente da doutrina muçulmana, a vontade e o agir divinos estão vinculados com a sua razão. O Papa cita o pensador muçulmano Ibn Hazm que dizia que Deus, por ser absolutamente transcendente, não seria vinculado a nada, nem mesmo à sua palavra. Se ele quisesse, poderia inclusive mandar praticar a idolatrina.

Para o cristianismo bíblico, porém, Deus age sempre com o Lógos. De fato, o início do Evangelho de São João é uma modificação do primeiro versículo da Bíblia e afirma que “no princípio era o Lógos”. E “Lógos” significa razão e palavra, de modo que Deus age sempre com a sua razão e com sua palavra (o Filho). A razão divina é criadora e comunicável como razão. Para J. Ratzinger, essa é a palavra conclusiva sobre o conceito bíblico de Deus. No princípio era o Lógos divino e o Lógos era Deus. De modo que Deus é sempre racional e não pode jamais agir contra a sua natureza.

Essa compreensão bíblica nasce de um encontro providencial: o da Revelação bíblica com a filosofia grega. No Antigo Testamento, na passagem da sarça ardente, Deus tinha se revelado com o nome “Eu sou”, ou seja, o ser por excelência. Esse nome supera toda categoria e seria uma constestação dos mitos antigos sobre os deuses. O mesmo teria feito Sócrates na Grécia. O homem, então, rejeita os mitos e procura a Deus e a explicação de todas as coisas racionalmente. Aquele texto bíblico foi escrito na época em que Israel estava no exílio, ou seja, longe da sua terra e do seu culto. E para os povos antigos, os deuses eram locais, isto é, defendiam uma cidade ou um território. No exílio, Israel comprende que o seu Deus não é o deus de um lugar, mas o Deus Criador e trascendente é o Deus de pessoas: “Eu sou o Deus de Abraão, Isaque, Jacó”.

Com a rejeição do mítico e a afirmação da unicidade e racionalidade de Deus, nasce uma espécie de “iluminismo”. Na época da dominação grega sobre Israel (começando cerca do ano 300 a. C.), a fé bíblica assimilava o que havia de melhor no pensamento grego, como é expresso na literatura sapiencial tardia. Dá-se então o encontro entre a fé de Israel e o “iluminismo autêntico”: a razão filosófica. E a afirmação de que não agir com o Lógos é contrário à natureza de Deus é fruto da fusão da fé cristã e do pensamento grego, algo que não pode ser dissolvido, uma vez que ocorre já no final do Antigo Testamento e em todo o Novo Testamento, escrito em língua e segundo a mentalidade grega.

Na doutrina muçulmana e no final da Idade Média ocorre, porém, a convergência na afirmação de que a vontade de Deus pode ser independente da verdade e do bem. Isso é o chamado voluntarismo. A transcendência de Deus vem então excessivamente afirmada de modo que a natureza humana deixa de refletir a natureza de Deus. Nosso conhecimento da verdade e do bem não seria então um meio de se chegar ao conhecimento da natureza divina.


Contra isso, porém, a doutrina tradicional da Igreja afirma que nossa razão criada acede ao conhecimento da natureza racional de Deus. Ou seja, entre a criatura e Deus ocorre verdadeira analogia. Pela perfeição das criaturas pode-se conhecer a Deus. Ele não é um gênio maligno que se regozija em iludir a nossa razão e em dar-nos ordens arbitrárias. «O Deus verdadeiramente divino é aquele Deus que se mostrou como lógos e, como lógos, agiu e age cheio de amor em nosso favor». Como consequência, o culto cristão deve ser um culto com a razão “logike latreía” (Rm. 12, 1), ou seja, um culto realizado de acordo com o Verbo divino e com razão humana.

E o encontro da fé bíblica com a filosofia grega foi algo único na história da humanidade. A esse patrimônio comum uniu-se o de Roma (especialmente o Direito) e esses três elementos – fé bíblica, filosofia grega, e Direito Romano – iriam formar o mundo ocidental. Desse encontro nasce e se nutre a Europa.

Na modernidade, entretanto, pretende-se romper a dita síntese. Procura-se a partir de então “deselenizar” o cristianismo. Para os reformadores havia uma sistematização da fé excessivamente condicionada pela filosofia e por isso a fé não se apresentava mais na sua pureza bíblica, mas como parte de um sistema filosófico. O adágio sola scriptura representa o ideal de purificar a fé, ou seja, libertá-la do seu vínculo com o pensamento metafísico grego.

Esse programa foi seguido pelo filósofo alemão I. Kant, que procurou limitar o alcance da razão para dar espaço à fé. Com isso a teologia deixava de ser considerada uma ciência, visto que a autêntica ciência ocuparia apenas da matéria matematizada e organizada pelas categorias do pensamento. Assim a fé estaria livre de todo vínculo racional e a razão auto-reduz o limite do seu atuar. A fé estaria baseada não na razão pura e científica, mas apenas na ciência prática, sem nenhum acesso à realidade.

Assim se deu uma auto-limitação moderna da razão. A razão ocupa-se apenas duma síntese de platonismo (cartesianismo) e empirismo, ou seja, da estrutura matemática da matéria, que a faz manipulável, e a sua utilização em vistas de resultados técnicos. Desse modo, a razão não mais se preocuparia em âmbito científico de Deus, objeto que não pode ser medido quantitativamente, nem manipulado.

Com isso o próprio homem vem reduzido. Torna-se incapaz de responder às questões últimas da sua vida, às que ultrapassam o âmbito quantitativo: “de onde venho”, “para onde vou”, “quem é Deus” e “como devemos nos comportar”. Se por um lado, o homem torna-se a única medida de si mesmo, por outro, se faz incapaz de encontrar um sentido pra sua vida e regularizar a vida social.

A conclusão de Bento XVI é que se deve alargar o conceito moderno de razão e do seu uso. A fé e a razão devem voltar a estar unidas de uma forma nova. Isso significa que não se pode voltar a uma época pré-iluminista, rejeitando as justas convicções da Idade Moderna. Tudo o que é válido em cada época deve ser reconhecido e aceito. O cristianismo fez isso sempre e a fé cristã não é algo do passado, mas do presente e do futuro. A teologia, por sua vez, não é apenas uma disciplina história, objeto de uma espécie de arqueologia do saber, mas é a ciência da razão humana que investiga os conteúdos da fé. Assim ela deve ter lugar nas Universidades e colaborar para o diálogo entre as ciências e culturas.

                                                                                            
* Padre Anderson Machado Rodrigues Alves é sacerdote do clero da Diocese de Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro. Doutorou-se em Filosofia pela Pontifícia Universidade da Santa Cruz em Roma. Atualmente é Vice-Reitor do Seminário Diocesano de Nossa Senhora do Amor Divino e Colaborador dos sites Presbíteros e Zenit

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Bento, homem da Teologia

Por Ian Farias*
Vocacionado da Diocese de Jequié-BA.




Apraz-me dirigir-me aos leitores deste blog, desde já agradecendo ao irmão Eraldo Leão, Seminarista da Arquidiocese do Rio de Janeiro, pelo convite a mim feito para que aqui pudesse detalhar um pouco sobre a Teologia do Papa Bento XVI, que contém um arcabouço de sabedoria e de riqueza teológica e filosófica. 

Tive a alegria de começar a leitura das obras de Ratzinger ainda antes de ser eleito Papa, quando eu contava com 12 anos de idade, hoje, aos 20, procuro ainda – sem reservas – conhecer mais e procurar aprofundar-me nestes seus ensinamentos que não somente sintetizam a teologia como um encontro com o divino, como também saber expô-la ao confronto com as várias correntes de pensamento hodiernas. Retratar a teologia ratzingeriana é fazer uma passagem da realidade divina para a humana e vice-versa, de forma lúcida e clara, evidenciando os aspectos essencialmente concernentes a esta visão salutar de ver Deus, a Igreja, e a realidade escatológica e mesmo atual, sobretudo aquela que perpassa o âmbito do homem pós-moderno. Mas esta caracteriza-se sobretudo pelo diálogo entre a fé e a razão, de modo mais claro a ser dito: o Jesus histórico e o Cristo da fé, de forma que os dois se tornem uma só coisa e não sejam postos como inimigos, correndo-se o risco de causar até mesmo uma divisão quanto a Pessoa de Jesus.

Seria verdadeiramente impossível tratarmos aqui de toda a teologia de Ratzinger, mas procurarei pincelar alguns aspectos no qual ele procurou desenvolver seus laborioso e profícuo trabalho de propor a teologia como uma redescoberta das originalidades da fé e da coerência sempre constante para com os ensinamentos doutrinais.

A concepção ratzingeriana de teologia vai muito além de restritos parâmetros dogmáticos fundamentalistas, isto é, crer cegamente sem conhecer as razões que o moveram a tal. O então Cardeal Ratzinger já dissera uma vez: “Os dogmas são janelas que se abrem para o infinito”, portanto é inaceitável que esta liberdade seja deformada em prisão. Esta constitui uma entrada no mistério salvífico do amor de Cristo; é conhecer a Deus não apenas pelo intelecto, mas sobretudo pela contemplação sensível e verdadeira da fé e do amor. Isto o evidenciou em uma das suas magníficas obras Natureza e Missão da Teologia, onde retrata a sensibilidade teológica para a contemplação da verdade por meio de uma redescoberta do rosto de Cristo, que é o plano de fundo para a caracterização da verdadeira natureza teológica. 

Cooperatores Veritatis é o lema que o então Padre Joseph Ratzinger escolheu para nortear seu ministério episcopal e sua vida. Como, aliás, não só a orientou mas fez-se, ele próprio, uma seta que aponta o caminho daqueles que perscrutam este mistério que não é cognoscível ao homem somente pela luz da ratio ou do intelectus, como afirmara Agostinho.

É também impossível traçarmos uma linha divisória entre a teologia de Ratzinger e a teologia de Bento XVI. Como ele mesmo diversas vezes já dissera que o papado não o impedia de apresentar suas visões enquanto teólogo e que fazia questão de evidenciar a diferença entre o teólogo e o Papa, e isto já podemos notar em sua estupenda trilogia Jesus de Nazaré, quando opinou como teólogo a respeito dos estudos exegéticos da vida de Jesus e da sua ação na terra como Filho de Deus, mas igualmente nos descreveu de forma inigualável o cenário político e religioso da época primitiva do Cristianismo discordando de visões de determinados teólogos.

Ratzinger pautou a sua vida e a sua teologia em quatro bases constitutivas também do ser humano e do ser cristão: Fé, razão, verdade e amor. Deveras, sempre é característica sua – como pensador agostiniano – que seus escritos sejam marcados por estes aspectos epistemológicos. Impossível é que não tratemos de um destes quatro pontos em todos os seus escritos, ou ainda mais ousaria dizer: que não tratemos destes quatro pontos em quaisquer de seus escritos. Sempre encontraremos traços destes entrelaçados e impossíveis de serem postos à parte. Aliás, como o fora sempre, é de pensamento alinhado ao de Agostinho, tanto que em 1953 doutorou-se com a tese: “Povo e Casa de Deus na doutrina da Igreja de Santo Agostinho”.

No mistério desta visão teológica da cristologia de Ratzinger emerge à luz trinitária, a importância da integração entre a “constituição ontológica da Pessoa” de Jesus Cristo e aquela da sua “relação”, integração esta que define e caracteriza a singularidade e soberania do seu agir salvífico nas suas expressões de reinado e serviço. Além do mais, estabelece uma relação não tanto individual, mas de relacionamentos. Isso costumo definir como “teologia do encontro”: não ser redutivo e fechado, restrito a suas ideologias ou mentalidades estruturadas independente da dignidade humana, mas vai além disso: fala ao coração, ao homem em seu todo, à comunidade. Em uma de suas homilias, na Celebração de Te Deum pelo encerramento do ano de 2012, retratou de forma veemente a construção individualista dos moldes do atual cenário: "Numa cultura cada vez mais individualista, tal como aquela em estamos inseridos nas sociedades ocidentais, e que tende a espalhar-se por todo o mundo, a Eucaristia constituiu uma espécie de antídoto que atua nas mentes e nos corações dos crentes, semeando continuamente neles a lógica da comunhão, do serviço, da partilha, em suma, a lógica do Evangelho”.

Somos convidados a não aderirmos, como cristãos, à cultura individualista e que massacra os demais pela soberba intelectual ou pelas diferenças sociais. Bento XVI nos ensina muito, inclusive ensina-nos a como usarmos da teologia (o estudo de Deus) a serviço do homem, da sua dignidade e para sua edificação, e não colocarmos o homem a serviço da teologia. Se a razão não desenvolve-se como edificadora de valores humanos e promotora do bem comum, logo tornar-se-á sempre mais inimiga da fé e do próprio Deus, fechando-se, por conseguinte, ao seu conhecimento.

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* Ian Farias é vocacionado da Diocese de Jequié-BA, aluno do Curso de Licenciatura em Filosofia pela Faculdade dos Claretianos de Vitória da Conquista-BA, membro da Coordenação da Pascom Diocesana de Jequié e Administrador do Blog Ecclesia Una.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Bento, homem da Comunicação Social


Há um ano estávamos todos atônitos com a surpreendente notícia da renúncia do Santo Padre Emérito Bento XVI. No intuito de prestar uma singela homenagem a esse grande homem, teólogo e pastor, pensamos em contemplar diversos aspectos de sua vida e de seu magistério, enfatizando elementos que por vezes se nos passam despercebidos. Desta maneira, contrariando o que muitos propagam injustamente a respeito de Bento XVI, desejamos neste artigo tratar da sua preciosa contribuição e da sua influência no que concerne aos meios de comunicação social.


Já o Beato João XXIII, quando convocara o Concílio Vaticano II (1962 – 1965), propusera um “aggiornamento”, isto é, uma atualização no modo de proceder da Igreja. Efetivamente, se podia perceber que a Igreja necessitava anunciar com maior propriedade a missão sublime e árdua deixada por Cristo: torná-lo conhecido, amado; batizar em seu nome (cf. Mt 28, 19). Isto significa que a missão de anunciar é mais que pura e simplesmente uma tarefa a ser cumprida. Faz parte da natureza da Igreja. Eis a verdade “tão antiga e tão nova” (cf. Sto. Agostinho in “Confissões”): “Jesus Cristo é o Senhor para a glória de Deus Pai” (cf. Fl 2, 11). 



Esse tesouro, entretanto, nós o carregamos em vasos de barro (cf. 2 Cor 4, 7). Ciente das limitações próprias deste “barro” que somos nós, a Igreja precisa periodicamente avaliar os métodos utilizados, com vistas a um sempre mais profundo e eficaz anúncio de Cristo.

Hoje dispomos de preciosas ferramentas para levar a cabo a evangelização. Temos os meios de comunicação social: o rádio, a televisão, a internet, etc.. Bento XVI deu-nos uma verdadeira lição de como utilizar tais meios sem, contudo, imiscuir-se de anunciar a verdade de Cristo na sua mais genuína expressão. Trata-se sem dúvida nenhuma de um homem que viveu com seriedade o seu lema: “Cooperatores Veritatis”. O conteúdo é o mesmo, é invariável, inviolável. Os métodos, porém, variam, adaptam-se às novas circunstâncias. 

Para exemplificar, basta trazer à memória a entrevista concedida por Bento XVI a Peter Seewald na Residência Apostólica de Castel Gandolfo. Foi o primeiro Papa a deixar-se entrevistar livremente, não fugindo às questões polêmicas e traçando um perfil para a Igreja no Novo Milênio, na superação dos desafios, na purificação das incoerências e no diálogo com o diferente. Dessa entrevista originou-se o livro “Luz do Mundo”, publicado em 2010. Além disso, Bento XVI foi o primeiro Papa a ter uma conta nas redes sociais, através da qual pôde levar ao conhecimento do público pequenos ensinamentos, inaugurando oficialmente uma nova forma de se fazer presente no cotidiano das pessoas.



É de particular beleza o diálogo que Bento XVI engendrou no dia 15 de Outubro de 2005, na Praça de São Pedro, com crianças que faziam sua Primeira Eucaristia. Soube ser simples e profundo, assemelhando-se a um avô com os seus netos. As crianças, curiosas, apresentavam suas questões, suas inquietudes e dúvidas, e Bento as respondia com delicadeza e compreensão.


Por fim, deixemos que ele próprio nos ajude a compreender a importância dos meios de Comunicação Social na perspectiva da fé mediante um trecho da Mensagem para o Dia da Comunicação Social de 2013: “Na realidade, os fiéis dão-se conta cada vez mais de que, se a Boa Nova não for dada a conhecer também no ambiente digital, poderá ficar fora do alcance da experiência de muitos que consideram importante este espaço existencial” (...) “A autenticidade dos fiéis, nas redes sociais, é posta em evidência pela partilha da fonte profunda da sua esperança e da sua alegria: a fé em Deus, rico de misericórdia e amor, revelado em Jesus Cristo” (...) “A aparição nas redes sociais do diálogo acerca da fé e do acreditar confirma a importância e a relevância da religião no debate público e social”.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Oito anos com Bento XVI

Fumaça branca na Capela Sistina: um dos mais breves conclaves da história da Igreja era finito. O sacro colégio cardinalício cumpriu a sua função mais ilustre: eleger o sucessor de São Pedro. 


No balcão da monumental basílica surge o Cardeal Protodiácono, o chileno Jorge Arturo Medina Estévez, a quem cabe anunciar o "Habemus Papam". Joseph Ratzinger, um alemão quase romano, era eleito para ser o Bispo de Roma e governar com solicitude pastoral a porção do Povo de Deus, grei confiada a ele pela própria ação do Espírito na Igreja de Cristo.

Era 19 de abril de 2005 quando vimos um senhor quase octogenário surgir timidamente e definir-se "simples e humilde trabalhador da Vinha do Senhor". Ele abençoou a todos e deu as costas ao mundo. Estava eleito o sucessor de Pedro, o sucessor do grande João Paulo II a quem vimos governar por mais 25 anos.


Oito anos mais tarde, nos arredores da mesma basílica, com o mesmo colégio cardinalício uma surpresa: Bento XVI, o pastor alemão, estava renunciando. O papa anunciou em 11 de fevereiro que deixaria a Cátedra de São Pedro em 28 de fevereiro, às 20 horas do horário de Roma.

Ratzinger abandonou o timão da barca de Pedro para terminar sua existência terrena no silêncio da oração. Desde então reside no Mosterio Mater Ecclesiae, onde permanece rezando pela Igreja e por seu sucessor, o Papa Francisco.

Querendo fazer jus ao seu breve, mas, profícuo Pontificado escrevemos oito matérias sobre diversos aspectos da vida e da ação pastoral que Bento teve ao longo dos seus quase oito anos de serviço à Igreja, como sucessor de São Pedro e Bispo de Roma.

Confira:

21 de fevereiro: Bento, homem da Comunicação Social;
22 de fevereiro: Bento, homem da Teologia;
23 de fevereiro: Bento, homem da Fé e da Razão;
24 de fevereiro: Bento, homem da Arte da Cultura;
25 de fevereiro: Bento, homem de Relação;
26 de fevereiro: Bento, homem da Caridade Pastoral; 
27 de fevereiro: Bento, homem da Liturgia;
28 de fevereiro: Bento, homem da Humildade e da Renúncia. 

Esperamos que nosso leitores possam fazer uma boa leitura e aprendam do pontificado deste grande homem, dom da providência para a Igreja no século XXI. 

sábado, 1 de fevereiro de 2014

02 de fevereiro - Solenidade da Apresentação do Senhor no templo e purificação de Maria

 
Presentation in the Temple (Philippe de Champaigne, 1648)

A festa da Praesentatione Domini, que celebramos neste domingo, em unidade com toda Igreja universal, remonta de antigas tradições (houve tempo em que era celebrada em 14 de fevereiro, 40 dias após a Epifania). É lembrada também com uma nuance mariana, assumindo o ‘subtítulo’ de “Festa da Purificação da Bem-aventurada Virgem Maria”. Falando de ‘purificação’, parece-nos estranho atribuí-la a Maria Santíssima, tota pulchra! “Esse termo nem sempre denota algo negativo; nesse trecho do evangelho (Lc 2,22-40), a impureza não é moral, mas ritual (Lv 12,2-4) e significa apenas que, após aqueles ritos, as pessoas eram reinseridas na esfera da vida comunitária, de forma análoga a uma âmbula que, de modo inverso, após ser purificada, deixa o sacrário e pode ser mantida junto com outros objetos”.

Sendo assim, a Festa da Apresentação nos relembra estes dois fatos importantes para o cumprimento ritual judaica: a apresentação do menino no Templo diante do sacerdote com a expiação e a purificação da mãe para reinserção na comunidade judaica. Ambas as práticas são realizadas segundo prescrição da lei mosaica, ocorrendo 40 dias após o nascimento; porém dentro da espiritualidade cristã-litúrgica, a partir a encarnação divina, este rito assume um novo sentido de fé.


Ícone grego da Apresentação do Senhor

Omnipotens sempiterne Deus, maiestatem tuam supplices exoramus, ut sicut Unigenitus Filius tuus hodierna die cum nostrae carnis substantia in templo est praesentatus, ita nos facias purificatis tibi mentibus praesentari. Per Dominum nostrum Iesum Christum, Filium tuum, qui tecum vivit et regnat in unitate Spiritus Sancti, Deus, per omnia saecula saeculorum”.

Coleta da Festa da Apresentação do Senhor

Antigo santinho retratando a profecia de Simeão

Ao ser levado ao templo por José e Maria, Jesus menino é oferecido ao Senhor Javé: Simeão e Ana, iluminados pelo Espírito Santo, reconhecem no menino frágil e pobre o Messias esperado por Israel e profetizam sobre Ele; são eles portadores da promessa, da esperança de um povo que espera libertação! A circuncisão de Cristo, que é o rito próprio da apresentação do recém-nascido no templo, é um gesto ligado à Páscoa hebraica, memorial da libertação da escravidão. Assim, mesmo cumprindo o ritual judaico, é pela circuncisão do coração transpassado na cruz que a escravidão opressora da humanidade é vencida e a libertação triunfa na vitória da vida sobre a morte. Já assumido a carne humana, pela circuncisão o Filho do Pai Eterno ainda assume a identidade de um povo: passa a pertencer ao povo de Israel, e por vocação eterna, passa a ser o ungido, recebendo o nome de ‘JESUS’, para salvar este mesmo povo e levá-lo (levar-nos) a Terra Prometida! A Festa da Apresentação é a ligação do Natal e da Páscoa de Cristo!

Como é belo olharmos a Liturgia da Igreja não em seus pormenores ou detalhes (por vezes externos), mas em sua totalidade e profundidade, assim descobrindo sua real unidade e beleza!

Representação etíope da Apresentação do Senhor

 “Estamos na presença de um mistério, ao mesmo tempo simples e solene, no qual a Santa Igreja celebra Cristo, o Consagrado do Pai, como primogênito da nova humanidade”, afirma o Papa emérito Bento XVI, na Festa da Apresentação e Dia da Vida Consagrada de 2013. Pelo mistério da vida de Cristo somos hoje, filhos de Deus e membros da Igreja, os portadores da profecia, da esperança, da salvação e da libertação àqueles que ainda jazem entre as trevas, antigas e novas, existenciais, morais e sociais.

Também neste dia, na comemoração litúrgica, costuma-se realizar a bênção das velas. Tão singelo gesto quer, em si, abençoar a luz! É a luz da nossa fé que se une a fé do Cristo e da Igreja; como duas velas que se unem para formarem uma só chama, ardente e destemida! Cristo se nos apresenta como o escolhido de Deus, “Luz que brilha aos gentios para a glória de Israel, vosso povo”; é o Sumo Sacerdote fiel e misericordioso, que acende nossa vida com a graça santificante do Pai.

Apresentação do Senhor: Festa da luz!

Como na solenidade da Epifania, hoje Cristo é apresentado como luz! A tradição católica do Oriente chama esta festa de “συνεδρίαση της ομάδας” (Festa do Encontro), justamente pelo fato de que, sendo na Epifania o Encontro dos Magos na intimidade da Família Sagrada, hoje Cristo se encontra definitivamente com sua missão: ser luz e acender luzeiros no mundo (os santos) e encontrar/reunir no seu coração misericordioso os dispersos da casa de Israel. Hoje, em Cristo e por Maria, Deus faz com a humanidade o seu encontro de salvação, com a promessa da Jerusalém celeste, novo céu e nova terra, nossa morada!

Apresentação do Senhor pela representação africana

Maria encerra em si o sentido desta festa: a Mãe da luz, a toda iluminada, portadora da paz e da esperança, que nos aponta o caminho da luz, tem sua alma transpassada! A espiritualidade desta liturgia não nos encerra nossa visão aqui, mas nos aponta a espada e o sofrimento como decorrência da fé. O mistério da ressurreição e alegria aqui tem seu início: a espada de Maria é a nossa espada; a cruz de Cristo é nossa cruz; a salvação de Cristo é o Seu e o nosso sofrimento.

Salve, ó Virgem, Mãe de Deus, cheia de graça, pois de ti nasceu o sol de justiça, o Cristo, nosso Deus, iluminando os que estão nas trevas.

Alegra-te, ó justo ancião, ao receber em teus braços o libertador das nossas almas, que nos dá a ressurreição.

Vamos também nós ao encontro de Cristo, com cânticos inspirados e acolhamos aquele do qual Simeão viu a salvação.

É aquele que Davi anunciou, o que falou pelos profetas, o que se encarnou por nós e nos instrui com a lei.

Adoremo-lo!”.

Antigo hino litúrgico da Festa da Apresentação

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Dom Bosco, santo, nosso modelo

Apropriemo-nos da experiência espiritual de Dom Bosco para caminhar na santidade segundo a nossa vocação específica !


“A glória de Deus e a salvação das almas”


"Estamos a concluir o triênio de preparação para o Bicentenário do Nascimento de Dom Bosco. Depois de dedicar o primeiro ano a conhecer a sua figura histórica e o segundo ano a evidenciar os seus traços fisionômicos como educador e atualizar a sua práxis educativa, neste terceiro e último ano pretendemos ir à fonte do seu carisma, apropriando-nos da sua espiritualidade" Comentário do Reitor-mor dos salesianos, P. Pascual Chávez V.

Neste dia 31 de janeiro, com toda Igreja Universal, celebramos São João Bosco, Pai e Mestre da Juventude! Dom Bosco, além de padre e educador, é santo, e sua espiritualidade impulsiona a juventude a serem bons e honestos cristãos e santos cidadãos. Dom Bosco é pai da juventude que reza, caminha, curte, luta, trabalha, sonha, corre na conquista de seus ideais. Mas também é pai dos jovens que não creem, em nada esperam, que são atingidos pela globalização consumista e atacados por políticas públicas que agridem o direito da juventude. 

Dom Bosco é santo e nos ensina o caminho da caridade, do amor à Deus, à Liturgia; nos ensina a obediência como meio para alcançar o prêmio eterno. Em Maria, Dom Bosco nos aponta a Mãe e exemplo de educadora: Auxiliadora dos cristãos. 


"A verdade decisiva da fé cristã é que o Senhor verdadeiramente ressuscitou! Por isso, a vida definitiva com Deus é a nossa meta última e também a nossa meta desde agora, porque se fez realidade no corpo de Jesus Cristo. A espiritualidade juvenil salesiana é pascal e se deixa invadir por este significado escatológico. A tendência mais radical no coração do jovem é o desejo e a busca da felicidade. A alegria é a expressão mais nobre da felicidade e, com a festa e a esperança, é característica da espiritualidade salesiana. A fé cristã é anúncio de felicidade radical, promessa e comunicação da “vida eterna”. Estas realidades, contudo, não constituem uma conquista, mas um dom que nos manifesta ser Deus a fonte da verdadeira alegria e da esperança. Sem excluir o seu valor pedagógico, a alegria tem, antes de tudo, um valor teológico; Dom Bosco vê nela uma manifestação imprescindível da vida da graça" P. Pascual Chávez, SDB, Reitor-mor.





Que Dom Bosco e Maria Auxiliadora interceda pelo nosso apostolado, pelos leitores, pela Família Salesiana e por toda juventude!

Guido Marini celebra 49 anos e ainda permanece no Oficio Litúrgico!

Hoje, 31 de janeiro, Monsenhor Guido Marini celebra 49 anos de vida. Desde outubro de 2007, é ele o Mestre de Cerimônias Litúrgicas do Sumo Pontífice, tendo servido inicialmente a Bento XVI e agora ao Papa Francisco.
 
 
 
 
Marini nasceu em Gênova em 1965 e foi ordenado sacerdote pelo Cardeal Giuseppe Siri, em 1989, incardinando-se em sua Arquidiocese natal. Nela serviu como professor e diretor espiritual do seminário, secretário particular de três Arcebispos Metropolitanos, os Cardeais Giovanni Canestri, Dionigi Tettamanzi e Tarcísio Bertone, com este último acumulou ainda o oficio de Cerimoniário Diocesano, mantido pelo seu sucessor o Cardeal Angelo Bagnasco até que o Santo Padre o convocou a Roma.
 
 
Guido Marini, como Mestre das Cerimônias Litúrgicas do Sumo Pontífice sucedeu a Dom Piero Marini, ordenado Bispo - com dignidade Arquiepiscopal - em 1998, pelo Beato João Paulo II. Apesar de possuírem o mesmo sobrenome os dois negam qualquer parentesco.
A transferência, segundo conta-se, foi arquitetada pelo então Cardeal Secretário de Estado, Tarcísio Bertone, que quando Arcebispo de Gênova contou com o auxílio de Guido nas celebrações litúrgicas. Piero, o Arcebispo antecessor, teria tomado conhecimento de sua sucessão apenas quando a notícia foi vinculada nos meios de comunicação. Desde então ele ocupa o Conselho para os Congressos Eucarísticos Internacionais.
A atuação de Guido Marini à frente da liturgia papal parecia estar mais de acordo com as preferências de Bento XVI, eleito em 2005. Houve uma mudança significativa na liturgia, que foi ocorrendo de forma gradativa. Costumes e paramentos que há muito estavam guardados foram retomados. O Papa e seu Cerimonário-Mor pareciam querer dizer: não há um antes e depois do Concílio, não existe o conceito pré-conciliar e pós-conciliar. Há uma só a Igreja de Cristo, sob a guia de Pedro.


O Papa, quando ainda Cardeal Ratzinger, já nos falava da "hermenêutica da continuidade" e Guido Marini em sua obra "Misterium Salutis" - Mistério da Salvação, Introdução ao Espírito da Liturgia, de 2010 -  nos alerta sobre a necessidade de não repudiarmos as práticas aplicadas antes ou depois do Concílio Vaticano II, como se estivéssemos em uma guerra branca.
 
 
 



Contrariando tudo o que a "grande e sensacionalista mídia blogueira" católica afirmou sobre as relações de Francisco e de Guido o Monsenhor se mantém no ofício litúrgico. Houve sim, não podemos negar, uma mudança no que chamamos "estética litúrgica", entretanto, o espírito e a nobreza das celebrações papais se mantém o mesmo.
 
 
 
 
 














Guido, sobretudo nos primeiros dias do pontificado de Francisco, foi e é um esteio para o Papa. Vemos que inúmeras vezes, mesmo durante as celebrações, o Pontífice aconselha-se e toma orientações com seu cerimoniário. Para o Papa o protocolo vaticano ainda é um pouco novo e na busca do êxito, Guido Marini desempenha um papel fundamental ao qual Francisco será sempre grato.
 
Nós, de longe e de perto, também agradecemos a Monsenhor Guido Marini, Protonotário Apostólico, por seu trabalho a frente das celebrações litúrgicas pontifícias! O empenho em nos fazer penetrar nos mistérios de Cristo e sua busca para que compreendamos que a Igreja é uma só, sem divisões cronométricas ou conciliares.
 
Que Deus o abençoe, Mons. Guido! Feliz Aniversário!

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O Papa faz nomeações para o Brasil

Nesta quarta-feira, 29 de janeiro, o Santo Padre o Papa Francisco fez duas nomeações para o episcopado brasileiro. O Romano Pontífice nomeou um novo Bispo para Guarulhos (SP), diocese que estava vacante desde 2013 quando do falecimento de Dom Joaquim Justino Carreira, e acolhendo o pedido do Arcebispo Primaz do Brasil, Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, de contar com um novo colaborador do seu múnus episcopal, nomeou um novo Bispo Auxiliar para a Arquidiocese de São Salvador da Bahia.

Para Bispo da Diœcesis Guaruliensis o Papa nomeou:
 Dom Edmilson Amador Caetano, O.Cist.
Até então Bispo Diocesano de Barretos, no interior de São Paulo.


Dom Edmilson, que tem 53 anos de idade e pertence à Ordem dos Cistercienses, foi Abade do Mosteiro de Nossa Senhora de São Bernardo em São José do Rio Pardo entre 1997 a 2008, quando sucedeu ao Abade Dom Orani João Tempesta, nomeado Bispo de São José do Rio Preto.

Em Barretos, Dom Edmilson estava desde o ano de 2008, quando de sua Ordenação Episcopal. Sua transferência se dá no mesmo Estado de São Paulo, porém, deixará uma região mais interiorana e passará a um grande centro urbano e popular que congrega a Diocese de Guarulhos.

Foi nomeado como IV Bispo Diocesano em sucessão a Dom Joaquim Justino Carreira, um português que veio a falecer em novembro de 2013, vítima de câncer, aos 63 anos de idade. A Diocese de Guarulhos ainda chorava a perda do seu segundo Bispo, Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, falecido em 2011, quando recebeu a notícia do câncer e do falecimento de seu novo pastor alguns meses depois. 

Guarulhos é uma diocese que está inserida numa região populosa e com desafios pastorais palpitantes. Ainda jovem, pois o Beato João Paulo II a criou em 1981, possui um longo e belo caminho a ser percorrido.
Rogamos a Nossa Senhora da Conceição, padroeira da Diocese, e a São Bernardo de Claraval, a cuja ordem pertence este prelado, que intercedam por seu pastoreio à frente desta porção do Povo de Deus. 
 
 
Para Bispo-Titular de Feradi maggiore e Auxiliar da Archidiœcesis Sancti Salvatoris in Brasilia,
Mons. Estevam dos Santos Silva Filho,
Do clero da Arquidiocese de Vitória da Conquista.

Mons. Santos Silva tem 45 anos e atualmente exerce, dentre outras, as funções de Pároco da Paróquia de Nossa Senhora das Candeias em Vitória da Conquista, ecônomo da Arquidiocese e diretor do Seminário Maior Arquidiocesano Nossa Senhora das Vitórias.
Sua Ordenação Episcopal está marcada para 30 de março em Vitória da Conquista. A Arquidiocese de Salvador passará, com esta nomeação, a contar com um quarto Bispo Auxiliar, que se junta a Dom Gilson Andrade da Silva (2011), Dom Giovanni Crippa, IMC (2012), e Dom Marco Eugênio Galrão Leite de Almeida  (transferido de Bispo Diocesano de Estância, no interior de Sergipe, em 2013), além do Arcebispo Primaz, Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, e do Cardeal Arcebispo Emérito, Dom Geraldo Magella Agnelo.

Que o Bom Deus cumule seu ministério episcopal de muitas bênçãos e sua vida possa gerar muitos frutos ao reino.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O Boi Mudo eloquente!

Em 1248 no Studium dominicano de Colônia, havia um jovem frade italiano, com cerca de 24 anos, que chamava a atenção para si: ele era alto, gordo - muito gordo - e de rosto plácido. Seu nome? 

Tomás de Aquino! 

Tomás nasceu na Itália em Roccassecca, atual região do Lazio, em 1224. Filho de uma das mais nobres e ricas famílias italianas. Foi educado, desde os seis anos, pelos beneditinos na Abadia de Monte Cassino, fundada pelo próprio São Bento de Núrsia. 

Aos quinze anos de idade, contrariando a família, deixou a abadia e desejou seguir a Ordem dos Pregadores, os Dominicanos, fundados como mendicantes pelo espanhol São Domingos de Gusmão. O pai, Conde Landulf de Aquino, lhe ofereceu dinheiro suficiente para conquistar o Arcebispado de Napóles e a própria abadia de Monte Cassino, mas o filho rejeitou. Diante da negação a família aprisionou o jovem em uma das torres do castelo, levando até ele uma prostituta a qual Tomás expulsou aos berros, dizendo: "Quero ser dominicano". 

Vendo que seria impossível dissuadir o filho da vocação à vida eclesiástica e medicante, Tomás é liberto, mesmo sendo causa de vergonha para os Aquino, que eram da mesma família que o Imperador Barba-Roxa, Frederico II.


Tendo iniciado os estudos da Teologia, ele os cursa por seis anos em Paris e por dois em Colônia; lá tem como mestre o próprio Santo Alberto, Magno. No Studium dominicano, era comum encontrar Tomás murmurando pelos cantos da clausura. Alberto via nele um profundo potencial intelectual, já seus colegas - mesmo reconhecendo suas capacidades - acreditavam que ele não passava de um frade com hábitos incomuns. 

Por ficar passar muito tempo resmungando e ruminando certas palavras recebeu o apelido de Tomás, o Boi Mudo! 

Conta-se que Tomás era brando demais para se importar com a jocosa "alcunha" que recebera. Porém, Santo Alberto Magno teria se incomodado com o apelido e certa vez disse: "Sim, é um boi mudo, mas, eu vos garanto que há de mugir tanto que abalará o Universo".


Em 1251 já estava formado em Teologia. Apenas cinco anos depois o Papa Alexandre IV manda que Tomás de Aquino seja catedrático na universidade de Paris, ao mesmo tempo que convoca São Boaventura. Sua carreira acadêmica ganha largueza e ele se torna, muito rapidamente, um expoente da Teologia e da Filosofia. O Papa Alexandre IV o fez seu conselheiro e os seus sucessores Urbano e Clemente IV fizeram o mesmo, dando a ele uma espécie de  função que equivaleria à de "Teólogo da Cúria Romana".

Durante sua vida, inúmeras são as obras e as contribuições, quer filosóficas, teológicas e mesmo poéticas de Tomás. Obras como: Dois preceitos da caridade, Saudação angélica, Suma contra os gentios, Comentários sobre as obras de Aristóteles, Lauda Sion e a Summa Teológica fulguram entre as jóias raras que sua inteligência incomum nos legou.

Reduzir a obra e o pesamento de Santo Tomás de Aquino à Summa Teológica, mesmo que esta seja sua obra prima, é coloca-lo sob um rótulo e uma limitação que não condiz com suas capacidades. Em Tomás vemos o apogeu da Escolástica e as contribuições que são basilares para a fé e para razão.


Na sua luta por aprofundar-se nos pensamentos de Aristóteles e de Estagirista, com a ajuda do tradutor Frei Guilherme de Morbeke, vemos o ardente desejo de que o homem possa servir-se da razão. No aristotelismo não o objetivo de se chegar às coisas sobrenaturais, divinas e transcendentes pela razão, mas, proceder a um trabalho de abstração, de purificação e refinamento dos resultados adquiridos pelos sentidos, que nos levem a uma fé consciente e embasada; portanto, fé e razão se entreajudam e se complementam.

Tomás de Aquino, o nobre que se fez mendigo, o gordo boi mudo que foi homem de virtudes e de capacidades, também foi grande na fé. Aos olharmos hinos como "Pangue língua" temos certeza de que o Santo de Aquino era uma alma profundamente com os pés no chão, mas, totalmente voltado para Deus. Não podemos encará-lo apenas como teólogo e filósofo e, por isso, nos esqueçamos do frei, do santo.


Quando estava no leito de morte, Tomás pediu que recitassem ao pé do seu ouvido não fórmulas doutrinárias ou sentenças lógicas, mas sim, o cântico dos cânticos. Tomás de Aquino morreu em 1274, aos 49 anos de idade, ao som dos cânticos que falavam dos pássaros, da beleza e da liberdade.


50 anos após sua morte, em 1323, era inscrito no roll dos santos e em 1567 foi declarado Doutor da Igreja. Assim ganhamos no céu um verdadeiro intercessor, um homem humilde e simples, que negou as riquezas deste mundo, até mesmo rejeitando a púrpura cardinalícia que o Papa lhe quis entregar para em tudo servir a Deus, Nosso Senhor.

Ó Doutor dos Anjos! Ó Doutor comum, nosso santo intercessor!