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sábado, 1 de novembro de 2014

Duas comemorações, um só sentido



Neste fim de semana, é celebrada na Igreja duas importantes comemorações litúrgicas: no dia primeiro de novembro, a Solenidade de Todos os Santos, seguida pela Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos no dia dois de novembro.

A comemoração do dia de Todos os Santos originou-se, conforme registros, no século IV. A princípio, a liturgia reservava-se a recordar os mártires da terra. Mas foi o Papa Gregório IV que estendeu a comemoração em honra de todos os santos do orbe celeste.


Ao longo de seus dois milênios, a Igreja elevou à glória dos altares centenas de homens e mulheres que, durante suas vidas, materializaram a boa nova do Evangelho, aproximando-se fielmente da santidade pedida por Cristo.

No que tange a algumas confusões, muitas vezes propagadas por seguidores de profissões religiosas reformadas sobre a veneração aos Santos, o Catecismo da Igreja Católica elucida o tema, explicando-nos que não existe adoração aos santos dos Céus - como os fiéis também não adoram as mais diversas manifestações artísticas - mas sim, os veneramos e os admiramos por suas histórias de vida. 

O católico roga aos santos para que eles intercedam juntos diante do Trono de Deus, que é o "Operador" dos milagres.  Com efeito, respeitamos e muitas vezes nos espelhamos em tantos homens e mulheres que a seu tempo, em meio a tantas adversidades, se mantiveram fiéis à Fé de Cristo e foram capazes de renunciar aos apelos e desejos comuns e dominantes da sociedade. É esta força de vontade, reconhecida posteriormente como santidade - que só pode ser alcançada por dom e graça de Deus -, uma resposta do ser humano à iniciativa divina.

Assim, os santos foram capazes de tornarem-se o quinto Evangelho, um evangelho plenamente vivido e que todos nós ainda somos convidados a escrever com nossas próprias vidas.


Após o dia de Todos os Santos, celebramos a comemoração dos Fiéis Defuntos, quando a Igreja celebra em um só dia a memória de todos os seus fiéis que já encerraram sua peregrinação terrena. Neste dia recordamos, claro, nossos entes queridos que já nos deixaram, como também cabe a nós neste dia um olhar especial e diferente sobre a morte - o grande mistério e muitas vezes o grande temor dos seres humanos. Por essa experiência todos nós iremos passar, recordando, assim, a Jesus no Getsêmani, pedindo a Deus que Ele afaste o cálice, mas que prevaleça a sua vontade (cf. Mt 26,42). 

Ao contemplarmos a Paixão de Cristo, vimos que, embora receoso, Cristo enfrentou o desafio que se colocava à sua frente e venceu a morte, abrindo para nós o caminho da vida eterna. Por essa razão, não devemos temer o fim da vida terrena, pois este será apenas o caminho para realizarmos o pleno e definitivo encontro com Deus.


Portanto, neste fim de semana de Todos os Santos e de Todos os Fiéis Defuntos, formamos como que uma só festa, pela qual unimos a Igreja militante e peregrina nesta Terra e a Igreja triunfante dos Céus, para que roguem juntas pela Igreja sofredora e paciente, onde os fiéis defuntos estão à espera de contemplarem a glória da Jerusalém Celeste.


sábado, 16 de agosto de 2014

O Dogma da Assunção de Maria ao céus


"Pelo que, depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a paz do Espírito de verdade, para glória de Deus onipotente que à virgem Maria concedeu a sua especial benevolência, para honra do seu Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do pecado e da morte, para aumento da glória da sua augusta mãe, e para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos s. Pedro e s. Paulo e com a nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial".
Pio XII 

A Igreja no Brasil celebra neste domingo, 17 de agosto, a Festa da Assunção de Maria Santíssima ao céu, transferida do dia 15 de agosto. A assunção de Maria é um dogma de fé, proclamado por Pio XII em 01 de novembro de 1950.


I. Aspectos históricos

A Igreja professou unanimemente desde os primeiros séculos (V-VI) a sua fé na Assunção de Maria Santíssima em corpo e alma à gloria celestial. Porém, a tradição enraizada na cultura do povo só foi solenemente declarada como “dogma de fé” em 1950, por ordem de Sua Santidade o Papa Pio XII.

 
Pio XII é conduzido na sede gestatória para a solene proclamação do dogma
 
A promulgação do dogma se deu através da constituição apostólica “Munificentissimus Deus”, assinada e publicada em 01 de novembro de 1950. A definição dogmática foi antecedida por uma consulta ao episcopado do mundo inteiro, na qual o Papa – através da carta “Deiparae Virginis”, de 01 de maio de 1946 – consultava aos seus irmãos Bispos sobre a assunção de Maria.

Naturalmente a manifestação dos Bispos foi a mesma ao considerar que transcorridos seus dias na terra Maria Santíssima foi levada, em corpo e alma, para junto de seu Filho, o Redentor do Universo.

Desde a segunda metade do século XIX já haviam sido enviadas, de diversas partes do mundo, solicitações favoráveis a promulgação deste dogma. No Concílio Vaticano I (1869-1870) vemos que 204 padre conciliares haviam proposto a definição do dogma da Assunção de Maria.
O Papa Pacelli em certo trecho da constituição, diz: “Quando fomos elevado ao sumo pontificado, já tinham sido apresentadas a esta Sé Apostólica muitos milhares dessas súplicas, vindas de todas as partes do mundo e de todas as classes de pessoas: dos nossos amados filhos cardeais do Sacro Colégio, dos nossos veneráveis irmãos arcebispos e bispos, das dioceses e das paróquias.”

II. Dogma e o papel de Maria Santíssima na Salvação humana

Os dogmas são como setas que nos indicam o caminho certo por onde seguir. No dizer do Catecismo (n. 88) se entende que:

“O Magistério da Igreja faz pleno uso da autoridade que recebeu de Cristo quando define dogmas, isto é, quando propõe, dum modo que obriga o povo cristão a uma adesão irrevogável de fé, verdades contidas na Revelação divina ou quando propõe, de modo definitivo, verdades que tenham com elas um nexo necessário.”

O dogma é, portanto, uma doutrina na qual a Igreja: propõe uma verdade da fé de maneira definitiva, sendo está uma verdade revelada, de forma que obriga o povo cristão a crer nela, em sua totalidade, de modo que sua negação é repelida como heresia e estigmatizada com anátema.

Definidos pelo magistério da Igreja de maneira clara e definitiva, os dogmas são verdades de fé, contidas na Bíblia e na Tradição. Não se tratam de invenções novas, ou coisa apenas dos homens, de algum santo ou de algum Papa.
 
Os dogmas chamados marianos são quatro. Eles afirmam que Maria é:

- Theotokós, quando o Concílio de Éfeso (431) declarou a maternidade Santíssima de Maria, sendo ela a “portadora de Deus;”

- Virgem antes e depois do parto, embora fosse encarada como revelação dogmática, pela Igreja do Oriente e do Ocidente, a virgindade de Maria foi definida dogmaticamente apenas pelo Concílio de Trento, em 1555. Todavia, como indicam escritos de São Justino Mártir e Orígenes a virgindade já questão de fé desde o cristianismo primitivo;

- Imaculada Conceição, ou seja, que a concepção de Maria foi realizada sem qualquer mancha de pecado original, no ventre da sua mãe. Dessa forma, ela foi preservada por Deus do pecado desde o primeiro momento da sua existência, como apontam as palavras do Anjo Gabriel – "sempre cheia de graça divina" – kecaritwmenh, em grego. Essa doutrina foi definida dogmaticamente pelo Papa Pio IX na Constituição Ineffabilis Deus, em 8 de dezembro de 1854, e esta intimamente ligada ao dogma da Assunção;

- Assunta aos céus, sendo elevada ao céu de corpo e alma, após a sua morte.


Acreditamos que, quanto mais nos assemelhamos à Maria, mais temos condição de viver em união com Cristo. Essa é nossa experiência, como salienta São Luís Maria de Montfort – Maria é o caminho mais próximo, direto e imediato para encontrar-se com Jesus.

Na prática, quando as pessoas chegam à intimidade com Maria, não se dirigem a Ela por Ela mesma, mas para que possam chegar a Jesus. Pelo amor a Maria, pela vinculação a Ela, chegam a uma vinculação mais profunda e perfeita com Jesus. Porque imitar as atitudes e virtudes de Maria é fazer o que todo o cristão deve fazer, já que Ela foi pessoa mais próxima de Jesus, que mais aprendeu d'Ele. 


III. A festa litúrgica

A Assunção de Maria antes da solene proclamação do dogma, em 1950, era celebrada na chamada “dormição de Maria”, quando os cristãos – sobretudo do Oriente, e assim ainda permanece – celebravam a passagem da Mãe de Deus para o reino dos céus.

Na Igreja do Oriente a dormição era e é celebrada sempre em 15 de agosto, desde o século VI, e a festa é antecipada de 14 dias de jejum e intensa oração.

No Ocidente, além da herança oriental, a data da festa da Assunção está vinculada a memória chamada de Santa Maria de Agosto, celebrada em Portugal. Foi na véspera desta festa, no ano de 1385, que se travou a decisiva Batalha de Aljubarrota, na qual São Nunes Àlvares Pereira, Condestável de Portugal (canonizado por Bento XVI, em 2009), triunfou sobre o exército do rei de Castela, adepto do anti-Papa de Avinhão.

No Brasil quando o dia 15 de agosto ocorre em dia ferial à festa é transferida para o domingo seguinte.



sábado, 28 de dezembro de 2013

Há alguma ligação entre os Santos Inocentes e a Sagrada Família?

Herodes, o grande, tendo tomado conhecimento da profecia de que o “Rei dos Judeus” teria nascido na pequena cidade de Belém da Judéia, mandou assassinar todos os meninos com idade de até dois anos, afim de que o pequeno infante fosse destruído. Cumpria-se aí o que já o Profeta Jeremias dizia: “Ouviu-se um clamor em Ramá, choro e grande lamento; era Raquel chorando a seus filhos, e não querendo ser consolada, porque eles já não existem”. (Jr 31:15).

As ruas empoeiradas da pequena Belém, da região e quiçá de toda Judéia abriram espaço para o sangue que vertia da garganta aberta dos pobres meninos degolados. A noite foi tomada por um luto gélido e sombrio, interrompido apenas pelas lágrimas e pelos gemidos de dor daquelas muitas mães que perderam seus filhos. As crianças que outrora eram acalentas em seus braços, afagadas em seus colos e amamentadas em seus peitos foram cruel e brutalmente assassinadas. A vaidade, a ganância e o ódio do rei lhes custou a própria vida.


Os santos inocentes são, justiça seja feita e dita, os primeiros mártires da cristandade. Ainda criança o Filho de Deus encarnado já era sinal, claro e verdadeiro, de contradição para este mundo. Sua chegada, ainda nos primeiros dias, já foi causa do derramamento de sangue de muitos irmãos nossos. As vítimas inocentes estão entre os companheiros de Cristo, que circundaram o berço do Jesus Menino num coro gracioso de crianças, vestidas com as cândidas vestes da inocência e a palma do martírio. São eles a pequena vanguarda do exército de mártires que testemunham ao longo dos séculos, com o seu próprio sangue, a pertença ao corpo de Cristo.

Ainda estando bem próximos do Natal de Nosso Senhor e da memória aos Santos Inocentes celebraremos a Sagrada Família de Nazaré: Jesus, Maria e José. Chama-nos atenção a vinculação que estas três festas tem entre sí: primeiro o verbo que se encarna sob a forma humana, nascendo numa pobre família de Nazaré. Família está que tem de fugir para o Egito afim de garantir a segurança do seu primogênito. É na sua partida, na calada da noite, que o massacre aos meninos inocentes acontece, e somente quando Herodes morre é que eles retornam das terras egípcias.

Passados muitos séculos desde o nascimento do Senhor e da morte dos inocentes, devemos refletir sobre os “novos Herodes”. Talvez gargantas já não tenham mais sido passadas a fio por uma espada judaica e tão pouco aquelas ruas estejam tomadas por sangue infantil, mas, crianças ainda vem sendo assassinadas aos montes e famílias destruídas sob o peso dos vícios e da violência. O fato de a festa da Sagrada Família estar vizinha à festa dos Santos Inocentes é um convite à oração e uma munição para que combatamos vivamente todos os Herodes que se apresentam na sociedade hodierna em múltiplas faces.



Os vícios do álcool e da drogas. O pecado da luxúria e do adultério. O crime do aborto. Todos estes e muitos outros se apresentam de maneira sútil e atraente a cada um de nós. Vivemos numa nova Judéia e padecemos sob “Herodes, o pós-moderno”. A ganância, soberba, vaidade e luxúria de um rei não é mais dele e sim nossa. O pecado entrou e habita dentro de nós e, por isso, matamos e violamos. A bainha da espada cedeu seu lugar para o bisturi e os outros tantos aparatos técnicos que retiram a vida e violam este direito divinamente concedido. O sangue que hoje jorra já não é – necessariamente – o vermelho dos infantis, mas, o sangue da moral e das virtudes, que se esvai sobre os nossos olhos. 

Roguemos que o Santos Inocentes, que a Virgem Santíssima e seu casto esposo, São José, intercedam por todos nós e por nossas famílias. Que sejamos libertados de todos os males que nos impossibilitam de ver e de reconhecer a verdade.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Homilia do Papa na Missa do Galo






1. Esta profecia de Isaías não cessa de nos comover, especialmente quando a ouvimos na liturgia da Noite de Natal. E não se trata apenas dum facto emotivo, sentimental; comove-nos, porque exprime a realidade profunda daquilo que somos: somos povo em caminho, e ao nosso redor – mas também dentro de nós – há trevas e luz. E nesta noite, enquanto o espírito das trevas envolve o mundo, renova-se o acontecimento que sempre nos maravilha e surpreende: o povo em caminho vê uma grande luz. Uma luz que nos faz refletir sobre este mistério: o mistério do andar e do ver.Andar. Este verbo faz-nos pensar no curso da história, naquele longo caminho que é a história da salvação, com início em Abraão, nosso pai na fé, que um dia o Senhor chamou convidando-o a partir, a sair do seu país para a terra que Ele lhe havia de indicar. Desde então, a nossa identidade de crentes é a de pessoas peregrinas para a terra prometida. Esta história é sempre acompanhada pelo Senhor! Ele é sempre fiel ao seu pacto e às suas promessas. «Deus é luz, e n’Ele não há nenhuma espécie de trevas» (1 Jo 1, 5). Diversamente, do lado do povo, alternam-se momentos de luz e de escuridão, fidelidade e infidelidade, obediência e rebelião; momentos de povo peregrino e de povo errante. 

E, na nossa historia pessoal, também se alternam momentos luminosos e escuros, luzes e sombras. Se amamos a Deus e aos irmãos, andamos na luz; mas, se o nosso coração se fecha, se prevalece em nós o orgulho, a mentira, a busca do próprio interesse, então calam as trevas dentro de nós e ao nosso redor. «Aquele que tem ódio ao seu irmão – escreve o apóstolo João – está nas trevas e nas trevas caminha, sem saber para onde vai, porque as trevas lhe cegaram os olhos» (1 Jo 2, 11).

2. Nesta noite, como um facho de luz claríssima, ressoa o anúncio do Apóstolo: «Manifestou-se a graça de Deus, que traz a salvação para todos os homens» (Tt 2, 11). 

A graça que se manifestou no mundo é Jesus, nascido da Virgem Maria, verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Entrou na nossa história, partilhou o nosso caminho. Veio para nos libertar das trevas e nos dar a luz. N’Ele manifestou-se a graça, a misericórdia, a ternura do Pai: Jesus é o Amor feito carne. Não se trata apenas dum mestre de sabedoria, nem dum ideal para o qual tendemos e do qual sabemos estar inexoravelmente distantes, mas é o sentido da vida e da história que pôs a sua tenda no meio de nós. 

3. Os pastores foram os primeiros a ver esta «tenda», a receber o anúncio do nascimento de Jesus. Foram os primeiros, porque estavam entre os últimos, os marginalizados. E foram os primeiros porque velavam durante a noite, guardando o seu rebanho. Com eles, detemo-nos diante do Menino, detemo-nos em silêncio. Com eles, agradecemos ao Pai do Céu por nos ter dado Jesus e, com eles, deixamos subir do fundo do coração o nosso louvor pela sua fidelidade: 

Nós Vos bendizemos, Senhor Deus Altíssimo, que Vos humilhastes por nós. Sois imenso, e fizestes-Vos pequenino; sois rico, e fizestes-Vos pobre; sois omnipotente, e fizestes-Vos frágil. 

Nesta Noite, partilhamos a alegria do Evangelho: Deus ama-nos; e ama-nos tanto que nos deu o seu Filho como nosso irmão, como luz nas nossas trevas. O Senhor repete-nos: «Não temais» (Lc 2, 10). E vo-lo repito também eu: Não temais! O nosso Pai é paciente, ama-nos, dá-nos Jesus para nos guiar no caminho para a terra prometida. Ele é a luz que ilumina as trevas. Ele é a nossa paz. 

Amem.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

I Domingo da Quaresma: tentação e redenção.


Neste I Domingo da Quaresma nós, católicos romanos, iniciamos nossa caminhada penitencial-quaresmal com a reflexão das tentações de Jesus no deserto (Lc 4,1-13). Mas o que foram essas tentações? O que elas significam para nós hoje? Como vencê-las e o que buscar verdadeiramente? Este artigo que escrevo, tirei das ideias bases do II capítulo do livro do Santo Padre Bento XVI Jesus de Nazaré. Junto com as ideias centrais do Papa (não por pretensão) apresento algumas conclusões minhas, feitas a partir da leitura atenta e minuciosa.
Jesus, no seu batismo, tem todo o mistério da sua vida revelado. Ao entrar na fila do batismo dos pecadores, se faz um de nós, não sendo pecador, mas tomando sobre si nossas misérias. Cumpriu tudo isto, mais tarde, plenamente na cruz. O Pai revela seu Filho amado, cumprindo a plenitude do amor na ressurreição, e o Espírito Santo (Lc 4,1a) desce em forma de pombo. Perceba, “como uma pomba”, ou seja, é semelhante, parecido com uma pomba, porque a figura do Espírito de Deus é misteriosa em sua essência; pelas coisas materiais pode se assemelhar, mas nunca ser de fato.


Mas o que está no centro aqui é outra coisa, não o batismo. Mas pelo seu batismo simbólico, o Espírito lhe da uma inspiração primeira; e qual é? Ir para o deserto para ser tentado (Lc 4,1b). Mas o Filho do homem, Salvador do gênero humano, ser tentado? Exatamente. Feito homem Ele quer sentir na sua carne o drama humano, as tentações dos homens e mulheres deste mundo. Quer ser tentado, encontrar-se com a ovelha desgarrada e ferida, para então tomá-la nos ombros e reconduzi-la para sua casa como Bom e Doce Pastor zeloso. Só sendo Deus para tamanha atitude!
Enfim, no deserto os demônios o tentam (Lc 4,2) e anjos o servem (Mt 4,11b). É a dialética humana! Nossa vida mortal e factível acontece nesse paradoxo: anjos e demônios! Anjos nos ajudam; demônios nos oferecem algo mais vislumbrante aos olhos. Anjos nos apresentam a vontade de Deus; demônios nos dão os prazeres do mundo. Anjos ajudam o Reino a acontecer em nós; demônios em legião o derrubam. A vida do homem na terra é assim; a vida espiritual do cristão é uma eterna luta, uma guerra, travada continuamente.
Jesus ficou 40 dias no deserto em jejum e profunda oração (Lc 4,2). Isso nos faz lembrar os 40 anos que o povo de Israel passou no deserto em busca da Terra Prometida, de onde brotariam leite e mel em abundância; dos 40 dias que Moisés se preparou para receber as tábuas dos mandamentos e ensinar, conduzir seu povo na justiça; dos 40 dias que Abraão preparou-se para o sacrifício derradeiro de seu filho. Parece-nos que Jesus em seus 40 dias percorre toda a história do povo eleito, da humanidade e também a toma sobre os ombros; suporta-a, assume-a, redime-a.


Passamos então às tentações. A primeira consiste em transformar as pedras em pães (Lc 4,3). Era uma dupla tentação. Primeiro porque Ele tinha fome (Lc 4,2b), e se tivesse pão ao seu alcance a saciaria; depois porque se as transformasse, subjugaria seu poder (que era sobrenatural) ao mal, ao demônio. Mas o intuito do Reino que Jesus traz não são os milagres. Jesus não veio ao mundo para realizar milagres, mas veio para encontrar pessoas, apresentá-las à proposta do Reino e revelar a face paternal de Deus. Jesus não se curva à tentação de satanás, e di-lo que o pão, o verdadeiro pão interessa aos retos de intenção. Milagre por milagre não leva a nada. Mas depois Ele mesmo se faria pão para nós, se multiplicaria em todos os altares do mundo. E este milagre até hoje acontece, e acontecerá até o fim dos tempos. Jesus não quer pessoas atrás dos seus milagres, mas sim atrás do seu verdadeiro alimento: “Fazer a vontade do Pai” (Lc 22,42).


Na segunda tentação o demônio promete ao Senhor em retiro o domínio sobre toda a terra, sob uma imposição: ajoelhar-se aos seus pés e o adorá-lo (Lc 4,6-7). Para que Cristo cederia a tal tentação se conhecia a vontade de seu Abbá? Ele sabia que depois de ressuscitado haveria de ter todo domínio, mas não apenas sobre a terra, e sim sobre o céu e a terra. Era um domínio de poder sobrenatural; e perante Seu nome teria dobrado todo joelho, na terra, no céu e no inferno.
Jesus é forte, espiritualmente (porque era o próprio Deus) e fisicamente; isto pelo jejum e oração, armas fortes contra a tentação, e expulsa o demônio da sua companhia! Porém esta tentação retorna aos tempos atuais. O demônio pede não a adoração a si diretamente, mas através da proposta pela escolha do que é mais racional para os homens, mais organizado, planificado. É o relativismo moderno. Propõe o mais “justo, igual” para todos, onde reine o bem-estar presente das pessoas e a desvalorização com a real essência do homem. Assim, nós decidimos o que deve fazer um “redentor”. É realmente triste constatarmos o crescimento disto hoje!


Na ultima tentação satanás, de modo engenhoso, toma um versículo da Escritura e o distorce bruscamente. Tira o sentido original, inspirado por Deus, e a interpreta do seu jeito. Esta é uma tentação mais que atual: como é cômodo e fácil interpretarmos a Bíblia do nosso jeito, para satisfazer nossos desejos e vontades. Ainda mais. Como é mais satisfatório tirarmos Deus do seu lugar de excelência em nossa vida e o adaptarmos de acordo com as próprias necessidades, subjugando-O à nossa vontade. Em certo ponto Feuerbach tinha razão, quando dizia ser Deus a projeção do próprio homem. Mas razão o tem em relação à situação atual dos ateus que nem razões sabem e têm para os serem. Mas para quem realmente crê a situação é outra. E Feuerbach passa longe de deter a verdade que realmente é verdade!
Enfim, Jesus não se jogou do pináculo do templo (Lc 4,9), pois este era um pedido com segundas intenções do demônio. Mas na cruz não. No madeiro santo Ele abraçou livremente a vontade do Pai e se jogou no maior pináculo da existência, a morte. E o Pai, como profetizara confusamente o demônio na tentação do deserto, O tomou pelas mãos e o ressuscitou, encheu sua humanidade do Espírito Santo e, até hoje, o faz reinar vivo, glorioso no céu à sua destra.


Vencendo as tentações no deserto, Cristo nos apresenta o verdadeiro bem do homem: o rosto misericordioso de Deus. Que nesta Quaresma que iniciamos possamos seguir os passos de Cristo, vencer o mal atual e presente, para esperançosos reinar com Ele no último dia.
16 de fevereiro de 2013.
Vésperas do I Domingo da Quaresma.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Catequese de Bento XVI - Fé Cristã I - Ano da Fé



O Papa Bento XVI começou nesta quarta-feira, 17, o ciclo de catequeses sobre a fé cristã, tendo em vista o Ano Fé, iniciado no último dia 11. O Santo Padre enfatizou que ter fé não é algo restrito à inteligência, ao campo intelectual, as envolve toda a vida: sentimentos, emoções, razões humanas.

Catequese do Papa Bento XVI

Praça São Pedro - Vaticano
Quarta-feira, 17 de outubro de 2012


Queridos irmãos e irmãs,

Hoje gostaria de introduzir o novo ciclo de catequeses, que se desenvolve durante todo o Ano da Fé há pouco iniciado e que interrompe – por este período – o ciclo dedicado à escola da oração. Com a Carta apostólica Porta Fidei, convoquei este Ano especial, para que a Igreja renove o entusiasmo de crer em Jesus Cristo, único salvador do mundo, reaviva a alegria de caminhar sobre a via que nos indicou, e testemunhe de modo concreto a força transformadora da fé.

A ocorrência dos cinquenta anos de abertura do Concílio Vaticano II é uma ocasião importante para retornar a Deus, para aprofundar e viver com maior coragem a própria fé, para fortalecer a adesão da Igreja, “mestra da humanidade”, que através do anúncio da Palavra, a celebração dos Sacramentos e as obras de caridade nos guia a encontrar e conhecer Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Trata-se do encontro não com uma ideia ou com um projeto de vida, mas com uma Pessoa viva que transforma em profundidade nós mesmos, revelando-nos a nossa verdadeira identidade de filhos de Deus. O encontro com Cristo renova os nossos relacionamentos humanos, orientando-lhes, dia após dia, à maior solidariedade e fraternidade, na lógica do amor. Ter fé no Senhor não é um fato que interessa somente à nossa inteligência, a área do saber intelectual, mas é uma mudança que envolve a vida, todos nós mesmos: sentimento, coração, inteligência, vontade, corporeidade, emoções, razões humanas. Com a fé muda verdadeiramente tudo em nós e para nós, e se revela com clareza o nosso destino futuro, a verdade da nossa vocação dentro da história, o sentido da vida, o gosto de ser peregrino para a Pátria celeste.

Mas – nos perguntamos – a fé é verdadeiramente a força transformadora na nossa vida, na minha vida? Ou é só um dos elementos que fazem parte da existência, sem ser aquele determinante que a envolve totalmente? Com as catequeses deste Ano da Fé, gostaríamos de fazer um caminho para fortalecer o voltar à alegria da fé, compreendendo que essa não é algo estranho, separado da vida cotidiana, mas é a alma. A fé em um Deus que é amor, e que se fez próximo ao homem encarnando-se e doando-se a si próprio na cruz para salvar-nos e reabrir-nos as portas do Céu, indica de modo luminoso que somente o amor é a plenitude do homem.  Hoje é necessário confrontar com clareza, enquanto as transformações culturais em ocorrência mostram sempre tantas formas de barbáries, que passam sobre o sinal de “conquistas da civilização”: a fé afirma que não há uma verdadeira humanidade se não nos lugares, nos gestos, nos tempos e nas formas em que o homem é animado pelo amor que vem de Deus, exprime-se como dom, manifesta-se em relações ricas de amor, de compaixão, de atenção e de serviço desinteressado para o outro. Onde há domínio, possessão, mercantilização, exploração do outro para o próprio egoísmo, onde tem arrogância do eu fechado em si mesmo, o homem está empobrecido, degradado, desfigurado. A fé cristã, operante na caridade e forte na esperança, não limita, mas humaniza a vida, de fato a torna plenamente humana.

A fé é acolher esta mensagem transformadora na nossa vida, é acolher a revelação de Deus, que nos faz conhecer quem Ele é, como atua, quais são os seus projetos para nós. Certo, o mistério de Deus está sempre para além dos nossos conceitos e da nossa razão, dos nossos ritos e da nossa oração. Contudo, com a revelação é sempre Deus que se autocomunica, que se diz, torna-se acessível. E nós somos feitos capazes de escutar a sua Palavra e de receber a sua verdade. Eis então a maravilha da fé: Deus, no seu amor, cria em nós – por meio da obra do Espírito Santo – as condições adequadas para que possamos reconhecer a sua Palavra. Deus mesmo, na sua vontade de manifestar-se, de entrar em contato conosco, de fazer-se presente na nossa história, nos torna capazes de escutá-Lo e de acolhê-Lo. São Paulo o exprime com alegria e reconhecimento assim: “Agradeçamos a Deus continuamente, porque, tendo recebido de nós as palavras divinas da pregação, a recebestes não como palavra dos homens, mas, como realmente é, aquela palavra de Deus, que opera em vós que credes” (1 Ts 2,13).

Deus se revelou com palavras e obras em toda uma longa história de amizade com o homem, que culmina na Encarnação do Filho de Deus e no seu Mistério de Morte e Ressurreição. Deus não só se revelou na história de um povo, não só falou por meio dos Profetas, mas cruzou seu Céu para entrar na terra dos homens como homem, para que possamos encontrá-Lo e escutá-Lo. E de Jerusalém o anúncio do Evangelho da salvação se difundiu até os confins da terra. A Igreja, nascida ao lado de Cristo, tornou-se portadora de uma nova sólida esperança: Jesus de Nazaré, crucificado e ressuscitado, salvador do mundo, que está à direita do Pai e é juiz dos vivos e dos mortos. Este é o querigma, o anúncio central e disruptivo da fé. Mas desde o início colocou-se o problema da “regra da fé”, ou seja, da fidelidade dos crentes à verdade do Evangelho, na qual permanecerem firmes, à verdade salvadora sobre Deus e sobre o homem que deve ser guardada e transmitida. São Paulo escreve: “Sereis salvos, se o conservardes [o evangelho] como vo-lo anunciei. Caso contrário, vós teríeis acreditado em vão” (1 Cor 15,2).

Mas onde encontramos a fórmula essencial da fé? Onde encontramos a verdade que nos foi fielmente transmitida e que constitui a luz para a nossa vida cotidiana? A resposta é simples: no Credo, na Profissão de Fé o Símbolo da fé, nós nos reportamos ao evento originário da Pessoa e da História de Jesus de Nazaré; torna-se concreto aquilo que o Apóstolo dos gentios dizia aos cristãos de Corinto: “Vos transmiti, antes de tudo, aquilo que eu também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados segundo as Escrituras, foi sepultado e ressurgiu ao terceiro dia” (1 Cor 15,3).

Também hoje precisamos que o Credo seja melhor conhecido, compreendido e pregado. Sobretudo é importante que o Credo seja, por assim dizer, “reconhecido”. Conhecer, de fato, poderia ser uma operação somente intelectual, enquanto “reconhecer” quer significar a necessidade de descobrir a ligação profunda entre a verdade que professamos no Credo e a nossa existência cotidiana, para que esta verdade seja verdadeiramente e concretamente – como sempre foi – luz para os passos do nosso viver, água que irriga o calor do nosso caminho, vida que vence certos desertos da vida contemporânea.  No Credo se enxerta a vida moral do cristão, que nesse encontra o seu fundamento e a sua justificativa.

Não é por acaso que o Beato João Paulo II quis que o Catecismo da Igreja Católica, norma segura para o ensinamento da fé e fonte certa para uma catequese renovada, fosse baseado no Credo. Tratou-se de confirmar e guardar este núcleo central da verdade da fé, tornando-o uma linguagem mais compreensível aos homens do nosso tempo, a nós. É um dever da Igreja transmitir a fé, comunicar o Evangelho, a fim de que a verdade cristã seja luz nas novas transformações culturais, e os cristãos sejam capazes de dar razões da esperança que portam (cfr 1 Pt 3,14). Hoje vivemos em uma sociedade profundamente alterada mesmo comparada a um passado recente, e em constante movimento. Os processos da secularização e de uma mentalidade niilista generalizada, em que tudo é relativo, impactaram fortemente a mentalidade comum. Assim, a vida é vista sempre com leveza, sem ideais claros e esperanças sólidas, dentro das ligações sociais e familiares líquidas, provisórias. Sobretudo as novas gerações não vêm educadas para a busca da verdade e do sentido profundo da existência que supera o contingente, da sensibilidade dos afetos, da fidelidade. Ao contrário, o relativismo leva a não ter pontos fixos, suspeita e volatilidade causam inconstâncias nas relações humanas, enquanto a vida é vista dentro de experiências que duram pouco, sem assumir responsabilidades. Se o individualismo e o relativismo parecem dominar a alma de muitos contemporâneos, não de pode dizer que os crentes estão totalmente imunes deste perigo, com o qual somos confrontados na transmissão da fé. A pesquisa promovida em todos os continentes para a celebração do Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização evidenciou alguns: uma fé vista de modo passivo e privado, a recusa da educação na fé, o rompimento entre a vida e a fé

O próprio cristão não conhece nem sequer o núcleo central da própria fé católica, do Credo, de modo a deixar espaço a um certo sincretismo e relativismo religioso, sem clareza sobre a verdade de crer e da singularidade salvífica do cristianismo. Não está tão longe hoje o risco de construir, por assim dizer, uma religião “faça você mesmo”. Devemos, em vez disso, voltar a Deus, ao Deus de Jesus Cristo, devemos redescobrir a mensagem do Evangelho, fazê-lo entrar de modo mais profundo nas nossas consciências e na vida cotidiana.

Nas catequeses deste Ano da Fé gostaria de oferecer uma ajuda para fazer este caminho, para retomar e aprofundar a verdade central da fé em Deus, no homem, na Igreja, em toda a realidade social e cósmica, meditando e refletindo sobre as afirmações do Credo. E gostaria que ficasse claro que este conteúdo ou verdade da fé (fides quae) se conectam diretamente às nossas vidas; pedem uma conversão da existência, que dá origem a um novo modo de crer em Deus (fides qua). Conhecer Deus, encontrá-Lo, aprofundar o conhecimento de sua face põe em jogo a nossa vida, porque Ele entra nos dinamismos profundos do ser humano.

Possa o caminho que iremos fazer neste ano fazer-nos crescer todos na fé e no amor a Cristo, para que aprendamos a viver, na escolha e nas ações cotidianas, a vida boa e bela do Evangelho. Obrigado.