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sábado, 1 de novembro de 2014

Duas comemorações, um só sentido



Neste fim de semana, é celebrada na Igreja duas importantes comemorações litúrgicas: no dia primeiro de novembro, a Solenidade de Todos os Santos, seguida pela Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos no dia dois de novembro.

A comemoração do dia de Todos os Santos originou-se, conforme registros, no século IV. A princípio, a liturgia reservava-se a recordar os mártires da terra. Mas foi o Papa Gregório IV que estendeu a comemoração em honra de todos os santos do orbe celeste.


Ao longo de seus dois milênios, a Igreja elevou à glória dos altares centenas de homens e mulheres que, durante suas vidas, materializaram a boa nova do Evangelho, aproximando-se fielmente da santidade pedida por Cristo.

No que tange a algumas confusões, muitas vezes propagadas por seguidores de profissões religiosas reformadas sobre a veneração aos Santos, o Catecismo da Igreja Católica elucida o tema, explicando-nos que não existe adoração aos santos dos Céus - como os fiéis também não adoram as mais diversas manifestações artísticas - mas sim, os veneramos e os admiramos por suas histórias de vida. 

O católico roga aos santos para que eles intercedam juntos diante do Trono de Deus, que é o "Operador" dos milagres.  Com efeito, respeitamos e muitas vezes nos espelhamos em tantos homens e mulheres que a seu tempo, em meio a tantas adversidades, se mantiveram fiéis à Fé de Cristo e foram capazes de renunciar aos apelos e desejos comuns e dominantes da sociedade. É esta força de vontade, reconhecida posteriormente como santidade - que só pode ser alcançada por dom e graça de Deus -, uma resposta do ser humano à iniciativa divina.

Assim, os santos foram capazes de tornarem-se o quinto Evangelho, um evangelho plenamente vivido e que todos nós ainda somos convidados a escrever com nossas próprias vidas.


Após o dia de Todos os Santos, celebramos a comemoração dos Fiéis Defuntos, quando a Igreja celebra em um só dia a memória de todos os seus fiéis que já encerraram sua peregrinação terrena. Neste dia recordamos, claro, nossos entes queridos que já nos deixaram, como também cabe a nós neste dia um olhar especial e diferente sobre a morte - o grande mistério e muitas vezes o grande temor dos seres humanos. Por essa experiência todos nós iremos passar, recordando, assim, a Jesus no Getsêmani, pedindo a Deus que Ele afaste o cálice, mas que prevaleça a sua vontade (cf. Mt 26,42). 

Ao contemplarmos a Paixão de Cristo, vimos que, embora receoso, Cristo enfrentou o desafio que se colocava à sua frente e venceu a morte, abrindo para nós o caminho da vida eterna. Por essa razão, não devemos temer o fim da vida terrena, pois este será apenas o caminho para realizarmos o pleno e definitivo encontro com Deus.


Portanto, neste fim de semana de Todos os Santos e de Todos os Fiéis Defuntos, formamos como que uma só festa, pela qual unimos a Igreja militante e peregrina nesta Terra e a Igreja triunfante dos Céus, para que roguem juntas pela Igreja sofredora e paciente, onde os fiéis defuntos estão à espera de contemplarem a glória da Jerusalém Celeste.


sábado, 16 de agosto de 2014

O Dogma da Assunção de Maria ao céus


"Pelo que, depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a paz do Espírito de verdade, para glória de Deus onipotente que à virgem Maria concedeu a sua especial benevolência, para honra do seu Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do pecado e da morte, para aumento da glória da sua augusta mãe, e para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos s. Pedro e s. Paulo e com a nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial".
Pio XII 

A Igreja no Brasil celebra neste domingo, 17 de agosto, a Festa da Assunção de Maria Santíssima ao céu, transferida do dia 15 de agosto. A assunção de Maria é um dogma de fé, proclamado por Pio XII em 01 de novembro de 1950.


I. Aspectos históricos

A Igreja professou unanimemente desde os primeiros séculos (V-VI) a sua fé na Assunção de Maria Santíssima em corpo e alma à gloria celestial. Porém, a tradição enraizada na cultura do povo só foi solenemente declarada como “dogma de fé” em 1950, por ordem de Sua Santidade o Papa Pio XII.

 
Pio XII é conduzido na sede gestatória para a solene proclamação do dogma
 
A promulgação do dogma se deu através da constituição apostólica “Munificentissimus Deus”, assinada e publicada em 01 de novembro de 1950. A definição dogmática foi antecedida por uma consulta ao episcopado do mundo inteiro, na qual o Papa – através da carta “Deiparae Virginis”, de 01 de maio de 1946 – consultava aos seus irmãos Bispos sobre a assunção de Maria.

Naturalmente a manifestação dos Bispos foi a mesma ao considerar que transcorridos seus dias na terra Maria Santíssima foi levada, em corpo e alma, para junto de seu Filho, o Redentor do Universo.

Desde a segunda metade do século XIX já haviam sido enviadas, de diversas partes do mundo, solicitações favoráveis a promulgação deste dogma. No Concílio Vaticano I (1869-1870) vemos que 204 padre conciliares haviam proposto a definição do dogma da Assunção de Maria.
O Papa Pacelli em certo trecho da constituição, diz: “Quando fomos elevado ao sumo pontificado, já tinham sido apresentadas a esta Sé Apostólica muitos milhares dessas súplicas, vindas de todas as partes do mundo e de todas as classes de pessoas: dos nossos amados filhos cardeais do Sacro Colégio, dos nossos veneráveis irmãos arcebispos e bispos, das dioceses e das paróquias.”

II. Dogma e o papel de Maria Santíssima na Salvação humana

Os dogmas são como setas que nos indicam o caminho certo por onde seguir. No dizer do Catecismo (n. 88) se entende que:

“O Magistério da Igreja faz pleno uso da autoridade que recebeu de Cristo quando define dogmas, isto é, quando propõe, dum modo que obriga o povo cristão a uma adesão irrevogável de fé, verdades contidas na Revelação divina ou quando propõe, de modo definitivo, verdades que tenham com elas um nexo necessário.”

O dogma é, portanto, uma doutrina na qual a Igreja: propõe uma verdade da fé de maneira definitiva, sendo está uma verdade revelada, de forma que obriga o povo cristão a crer nela, em sua totalidade, de modo que sua negação é repelida como heresia e estigmatizada com anátema.

Definidos pelo magistério da Igreja de maneira clara e definitiva, os dogmas são verdades de fé, contidas na Bíblia e na Tradição. Não se tratam de invenções novas, ou coisa apenas dos homens, de algum santo ou de algum Papa.
 
Os dogmas chamados marianos são quatro. Eles afirmam que Maria é:

- Theotokós, quando o Concílio de Éfeso (431) declarou a maternidade Santíssima de Maria, sendo ela a “portadora de Deus;”

- Virgem antes e depois do parto, embora fosse encarada como revelação dogmática, pela Igreja do Oriente e do Ocidente, a virgindade de Maria foi definida dogmaticamente apenas pelo Concílio de Trento, em 1555. Todavia, como indicam escritos de São Justino Mártir e Orígenes a virgindade já questão de fé desde o cristianismo primitivo;

- Imaculada Conceição, ou seja, que a concepção de Maria foi realizada sem qualquer mancha de pecado original, no ventre da sua mãe. Dessa forma, ela foi preservada por Deus do pecado desde o primeiro momento da sua existência, como apontam as palavras do Anjo Gabriel – "sempre cheia de graça divina" – kecaritwmenh, em grego. Essa doutrina foi definida dogmaticamente pelo Papa Pio IX na Constituição Ineffabilis Deus, em 8 de dezembro de 1854, e esta intimamente ligada ao dogma da Assunção;

- Assunta aos céus, sendo elevada ao céu de corpo e alma, após a sua morte.


Acreditamos que, quanto mais nos assemelhamos à Maria, mais temos condição de viver em união com Cristo. Essa é nossa experiência, como salienta São Luís Maria de Montfort – Maria é o caminho mais próximo, direto e imediato para encontrar-se com Jesus.

Na prática, quando as pessoas chegam à intimidade com Maria, não se dirigem a Ela por Ela mesma, mas para que possam chegar a Jesus. Pelo amor a Maria, pela vinculação a Ela, chegam a uma vinculação mais profunda e perfeita com Jesus. Porque imitar as atitudes e virtudes de Maria é fazer o que todo o cristão deve fazer, já que Ela foi pessoa mais próxima de Jesus, que mais aprendeu d'Ele. 


III. A festa litúrgica

A Assunção de Maria antes da solene proclamação do dogma, em 1950, era celebrada na chamada “dormição de Maria”, quando os cristãos – sobretudo do Oriente, e assim ainda permanece – celebravam a passagem da Mãe de Deus para o reino dos céus.

Na Igreja do Oriente a dormição era e é celebrada sempre em 15 de agosto, desde o século VI, e a festa é antecipada de 14 dias de jejum e intensa oração.

No Ocidente, além da herança oriental, a data da festa da Assunção está vinculada a memória chamada de Santa Maria de Agosto, celebrada em Portugal. Foi na véspera desta festa, no ano de 1385, que se travou a decisiva Batalha de Aljubarrota, na qual São Nunes Àlvares Pereira, Condestável de Portugal (canonizado por Bento XVI, em 2009), triunfou sobre o exército do rei de Castela, adepto do anti-Papa de Avinhão.

No Brasil quando o dia 15 de agosto ocorre em dia ferial à festa é transferida para o domingo seguinte.



domingo, 29 de junho de 2014

Solenidade de São Pedro e São Paulo e imposição do Pálio Pastoral

Às 09 horas e trinta minutos, no horário romano, iniciou na Basílica de São Pedro a celebração da Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo, com a imposição do Pálio Pastoral a 24 metropolitas de todo o Orbe.


Francisco, paramentado de maneira sóbria, porém, solene, ingressou – sob forte calor europeu - na monumental Basílica Romana. O olhar de milhares de cristãos, presentes ou não à Cidade Eterna, estavam voltados para aquele que celebraria o Santo Sacrifício da Missa, em honra de Pedro e Paulo, as colunas sob as quais está alicerçada à Igreja.



No último ano Francisco nomeou 27 novos Arcebispos Metropolitanos, dos quais 24 foram a Roma para, de suas mãos, receber o Pálio Pastoral. O pálio é um indumentária litúrgica que simboliza o vínculo das sedes metropolitanas a sede romana.

De fato, nesta celebração – como em tantas outras das quais o Baldaquino de Bernini já foi testemunha – se vê a universalidade da Igreja, reunida e congregada sob a guia de Pedro. 

Papa impõe o Pálio ao Arcebispo de Pouso Alegre
Os Arcebispos Metropolitanos são oriundos da Índia, Costa Rica, Escócia, Brasil, França, Estados Unidos, Nigéria, Paquistão, Áustria, Malawi, Madagáscar, Chile, Filipinas, Uganda, Uruguai, Tanzânia, Inglaterra, Vietnã, Polônia e Indonésia. 


Por motivos diversos dos 27 nomeados, três receberam o pálio em sua Sé, em Malawi, Mianmar e Alemanha.




Como de costume nesta celebração esteve presente também uma delegação do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla. O metropolita de Pérgamo, Ioannis Zizioulas, representou Bartolomeu na festa de São Pedro. Em 30 de novembro, Festa de Santo André, uma delegação católica romana irá a Istambul, na comemoração de seu patrono.

Hoje, pela primeira vez desde que foi eleito, Francisco utilizou um pálio sem adornos ou de tamanho diferente ao que é entregue aos metropolitas. Fez uso da chamada férula conciliar e do anel do pescador, recebido quando de sua entronização.

Papa impõe o Pálio ao Arcebispo de Porto Alegre
Na homilia o Papa destacou a importância de não ceder as malidiscências ou fofocas: "O Senhor nos pede para não perder tempo em conversas fúteis ou questões; não insistir em coisas pequenas, mas olhar para o essencial e siga-lo. "


A homilia foi centrada na ideia do medo e de tudo aquilo que nos aprisiona, porém, "Pedro percebe que o Senhor nos libertou do medo e correntes. Sim, o Senhor nos liberta do medo e de cada cadeia - disse o Papa -, para que possamos ser verdadeiramente livres ".




Na oração dos fiéis, a assembleia rezou-se em diversas línguas por variadas intenções: pela Igreja assente na rocha de Pedro (em russo), pelos novos arcebispos metropolitas (português), por todos os povos da terra e seus governantes (chinês), pelas pessoas pobres, solitárias ou idosas (francês) e pelos cristãos em geral (em língua iorubá, que se fala numa parte da Nigéria).




Nesta Festa de São Pedro e de São Paulo nos unimos ao sucessor de Pedro e a todos os Metropolitas que receberam o pálio pastoral. Rogamos ao Senhor que lhes cumule de muitas bênçãos do céus.

sábado, 28 de junho de 2014

O Pálio Pastoral e os Metropolitas


29 de junho, Festa de São Pedro e de São Paulo, o Santo Padre o Papa Francisco entregará o Pálio Pastoral a todos os Arcebispos Metropolitanos que foram nomeados no último ano, entre eles está o Arcebispo de Porto Alegre, Dom Jaime Spengler, OFM e o de Pouso Alegre, Dom José Luiz Majella Delgado, CSsR.



Spengler, que é o mais jovem Arcebispo do Brasil com 53 anos, tomou posse da Arquidiocese de Porto Alegre em 15 de novembro de 2013, em celebração realizada na Catedral Metropolitana Madre de Deus.

Oriundo da Ordem dos Frades Menores (OFM) era desde março de 2012, quando foi ordenado, era Bispo-Titular de Patara e Auxiliar da Sé gaúcha. Sua sucessão a Dom Dadeus Grings, o antigo metropolitana, aconteceu dois anos após a renúncia do velho prelado.

Seu lema episcopal é "In cruce gloriare" - Gloriar-se na Cruz.








Dom Majella Delgado nasceu em Juiz de Fora e tem 60 anos de idade.

Ainda criança fez-se religioso na Congregação do Santíssimo Redentor, os redentoristas. Foi ordenado sacerdote em março de 1981.

Em dezembro de 2009 o Papa-Emérito Bento XVI o nomeou Bispo da Diocese goiana de Jataí, ainda vacante. Sua sagração episcopal se deu em 27 de fevereiro de 2010. 

Em 28 de maio foi nomeado para a Sé Metropolitana de Pouso Alegre, Minas Gerais. Atualmente é também o Presidente do Regional Centro-Oeste da CNBB.

Seu lema episcoal é: “Servir por amor”.


O pálio é uma insígnia de lã branca, de 05 centímetros de largura e formada por dois apêndices, que comporta em si 06 pequenas cruzes bordadas em lã preta. A história desta antiga indumentária remonta ao Império Romano, mas, sua estrutural atual em forma de “Y” já poderia ser observada em representações do século VIII.

O pálio que é entregue aos Arcebispos Metropolitanos, ou seja, aqueles que possuem e estão à frente de uma diocese, quer representar a unidade dos bispos, espalhados nos cinco continentes, com o sucessor de Pedro, o Papa.

O pálio, feito da lã, quer também indicar a missão do Arcebispo como pastor, que carrega em seus ombros o rebanho a ele confiado, a ovelha ferida e desgarrada que é conduzida sob os ombros a exemplo de Jesus, que é sumo sacerdote e bom pastor.


















Segundo uma antiga tradição no dia 21 de janeiro, quando celebra-se Santa Inês (que em latim se escreve Agnes e significa cordeiro) o Papa dá a bênção a duas pequenas ovelhas que são entregues a uma grupo de religiosas beneditinas residentes ao mosteiro de Santa Cecilia in Trastevere, cuja abadessa presencia a bênção. Lá as ovelhas são tosquiadas e se procede a tecelagem para a confecção dos novos pálios.















Depois de prontos, no dia 24 de junho, na festa de São João Batista aquele que anunciou o Cordeiro de Deus, os pálios são colocados em uma urna que é depositada sob a tumba de São Pedro, tornando-se assim uma relíquia de terceiro grau. Lá as insígnias permanecerão até a missa da manhã do dia 29 de junho quando o Papa imporá o pálio a todos os Arcebispos Metropolitanos, que são Bispos Diocesanos espalhados por todo mundo.



Depois da entrega os bispos retornam as suas dioceses portando o pálio pastoral. Ele será utilizado nas celebrações litúrgicas – como a Santa Missa – dentro de qualquer diocese de sua circunscrição eclesiástica, ou seja, da sua Arquidiocese e das Diocese que possui como suas sufragâneas e sob as quais ele exerce o papel de referência da comunhão com a Igreja Católica, na sua união com o Bispo de Roma, que é o Papa. (Cânon 437 § 2º do CDC)


No caso de renúncia o Arcebispo passa a não fazer mais uso do pálio. No caso de transferência ele pedirá ao Santo Padre um novo pálio, que lhe será novamente entregue. Todos os Arcebispos Metropolitanos, mais o Patriarca Latino de Jerusalém e o Decano do Colégio de Cardeais possuem o direito de portar o pálio.


Na América, na África, na Ásia, na Oceania e na Europa – em todos os cantos do mundo – o pálio é o sinal da unidade com Pedro, que nos governa na caridade. O Bispo, como pai e pastor, nos conduz como ovelhas em seus ombros. Portanto, o pálio não é uma simples indumentária ou uma condecoração, mas, é um sinal claro e visível do nosso desejo sempre crescente de formar unidade e criar comunidade em Cristo Jesus.



quarta-feira, 19 de março de 2014

José: o varão que Deus quis chamar de Pai!


"Quando a condescendência divina escolhe alguém para uma missão especial ou para um estado sublime, concede à pessoa escolhida todos os carismas que lhe são necessários para a sua realização. 
Eis quanto se realizou, sobretudo, no Grande São José". 

(São Bernardino de Sena, Discurso, Obra VII, 16)


O pouco que sabemos sobre São José deve-se às Sagradas Escrituras. Foi na própria anunciação quando pela primeira vez encontramos seu nome mencionado no evangelho, onde se diz que Maria estava noiva de um homem chamado José. Mais tarde - quando a Virgem já havia concebido - o evangelista Lucas afirma que o esposo não sabia deste fenômeno e, quando soube, queria abandoná-la. Depois que o Anjo apareceu-lhe em sonho ele tomou Maria em casamento e, tão logo, partiu para Belém, para o recenseamento, já que José era da casa de Davi.

O Menino nasceu no pobre e humilde ambiente de uma manjedoura. José percebendo que não havia lugar para eles em Israel parte para o exílio, no Egito. Retornando apenas a após a morte do feroz Herodes, autor do massacre dos inocentes. Quando deixam as inóspitas terras africanas eles se dirigem para a Galileia dos gentios, em Nazaré, onde Jose se fixa com o ofício de carpiteiro.

Destes anos obscuros do Redentor pouco sabemos. Através do evangelho de Lucas temos conhecimento que na altura dos treze anos o menino se perdeu no templo e foi encontrado por seus pais, quando estava em meio aos doutores da lei. A narrativa deste episódio encerra-se dizendo que Ele crescia em estatura, sabedoria e graça diante de Deus e dos homens. Depois dissos os sinóticos se calam. As palavras humanas parecem pouco para descrever o ambiente e a vida familiar de José, de Maria e de seu Primogênito.

A fundadora dos focolares, Chiara Lubich, em Escritos Espirituais, diz: "na família de Nazaré, Maria certamente educava, mas, educava ouvindo a voz do Espírito Santo dentro dela, que estava em harmonia com o Filho de Deus, que estava diante dela. Educava também o seu filho obcecendo-lhe. Por outra parte, Jesus menino - ele era o guia da família de Nazaré, porque era Deus - estava também submisso a Maria e a José, como diz a Sagradas Escrituras. José, por sua vez, chefe da família aos olhos dos homens, pois era tido como pai de Jesus, pois Jesus lhe obedecia e poque Maria sem dúvida lhe terá obedecido, era ao mesmo tempo submisso a Deus e à Mãe de Deus. De tudo isso se vê que os três, de um ponto de vista, mandavam e os três, de um outro ponto de vista, obedeciam". 

Fato é que o próprio Deus escolheu a José para ser o verdadeiro varão que guiaria a Sua família. Cabe salientar que o Senhor não estabelece com José uma mera relação utilitarista, mas, um verdadeiro e sincero vínculo de paternidade e de fraternidade. A figura do homem para a família de Nazaré não é meramente uma convenção social, mas, fruto do desejo de Deus, que se personifica na pessoa de São José. Como diz o grande Doutor comum, Santo Tomas de Aquino, "José é ao mesmo tempo tanto pai de Cristo quanto esposo de Maria, não em virtude da união carnal, mas, do vínculo matrimonial". 

São José é, portanto, esposo casto de Maria e pai virgem de Jesus. Na sua pessoa estava a defesa de Maria Santíssima e a custódia do Divino Infante. Foi por este motivo que, em 1870,o Santo Padre o Papa Pio IX declarou São José como Patrono da Igreja Universal.

Hoje recorremos ao grande Patriarca da Família de Nazaré para que interceda pelo Santo Padre e por toda a Igreja Universal, afim que sejamos bem conduzidos pelas veredas deste mundo, rumo aos céus.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Bento, homem da Liturgia

O então Cardeal Ioseph Ratzinger escreveu em sua obra "Introdução ao espírito da liturgia" sobre a necessidade de compreendermos a Reforma Litúrgica, propiciada pelo Vaticano II, não como uma ruptura ou um cisma, mas, como um verdadeiro "aggiornamento", que de forma linear e contínua atualiza e revivifica o dom de Deus.

O Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé sempre foi partidário da chamada hermenêutica da continuidade, que visava tornar claro que não houve um rompimento com o que se vivia, ensinava e celebrava antes do CVII. 

Devido as más interpretações, sobretudo no âmbito litúrgico, poderíamos ainda falar em reforma da reforma, que constitui precisamente em chegar mais perto daquilo que foi pedido pela Sacrosanctum Concilium e pelos padres conciliares. 



Durante seu profícuo pontificado o Papa Bento XVI não mediu esforços para trazer a tona e tornar clara a posição que já como cardeal defendia. Quer seja na liturgia ou no magistério vimos uma perfeita e equilibrada harmonia entre os costumes, as rubricas e a tradição da Igreja. Porém, não poucas vezes foi taxado de conservador e retrógrado pela mídia e até mesmo nas esferas internas de sua grei. O papa foi um verdadeiro "mártir branco" da hermenêutica Concílio Vaticano II.

Vários foram os sinais concretos da reforma litúrgica propagada por Sua Santidade, entre elas destacamos: 

- Beleza e a solenidade do rito: as liturgias papais passaram por uma verdadeira mudança, sobretudo, nos paramentos e nos cantos sacros. O Papa retomou o uso de diversas vestes, enriquecendo a beleza externa da celebração. Por sua iniciativa o canto gregoriano e polifônico retomaram seu lugar de destaque; 







- Ênfase na participação interior na liturgia: ou seja, a participação ativa dos fiéis está mais ligada a uma participação interior do que exterior, por isso, em numerosas vezes o Papa insistiu pelo silêncio dentro da Santa Missa, ele mesmo sempre fazia diversas pausas reflexivas enquanto celebrava;













- O uso da língua latina: assim como prevê o documento conciliar Sacrosanctum Concilium o latim retomou seu lugar de direito na celebração papal, sobretudo, por ser um acontecimento com afluência de diversas nações; 














- A Cruz no centro do altar ladeada por velas (arranjo beneditino): para fazer perceber que a missa não é um espetáculo e que o sacerdote não é seu maestro, o Papa fez questão de ter junto do altar o crucifixo e um conjunto de velas, como prevê a Instrução Geral do Missal Romano; 





- A comunhão eucarística: por insistência pessoal do Papa a foi dada a devida reverência ao Corpo e Sangue de Nosso Senhor, em seu pontificado a comunhão passou sempre a ser distribuída na boca e de joelhos; 









- Incentivo a uma correta tradução dos livros litúrgicos: Bento empenhou esforços para se pudesse fazer um correta tradução dos livros litúrgicos, entre eles o Missal, já aplicado em alguns países.















Grandioso é o legado de Bento XVI para a liturgia, visto que como dizia o próprio Pontífice: "é na relação com a liturgia que se decide o futura da fé e da Igreja". Somos gratos ao Papa por nos ensinar o verdadeiro valor do sacrifício eucarístico e do culto a Deus. Ratzinger é um exemplo a ser seguido. 



Nós somos a geração que agradece a Deus por sua existência e seu valioso serviço a Igreja, que tanto amamos. Temos orgulho de dizer que somos privilegiados por sermos: "a geração Bento XVI".

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Guido Marini celebra 49 anos e ainda permanece no Oficio Litúrgico!

Hoje, 31 de janeiro, Monsenhor Guido Marini celebra 49 anos de vida. Desde outubro de 2007, é ele o Mestre de Cerimônias Litúrgicas do Sumo Pontífice, tendo servido inicialmente a Bento XVI e agora ao Papa Francisco.
 
 
 
 
Marini nasceu em Gênova em 1965 e foi ordenado sacerdote pelo Cardeal Giuseppe Siri, em 1989, incardinando-se em sua Arquidiocese natal. Nela serviu como professor e diretor espiritual do seminário, secretário particular de três Arcebispos Metropolitanos, os Cardeais Giovanni Canestri, Dionigi Tettamanzi e Tarcísio Bertone, com este último acumulou ainda o oficio de Cerimoniário Diocesano, mantido pelo seu sucessor o Cardeal Angelo Bagnasco até que o Santo Padre o convocou a Roma.
 
 
Guido Marini, como Mestre das Cerimônias Litúrgicas do Sumo Pontífice sucedeu a Dom Piero Marini, ordenado Bispo - com dignidade Arquiepiscopal - em 1998, pelo Beato João Paulo II. Apesar de possuírem o mesmo sobrenome os dois negam qualquer parentesco.
A transferência, segundo conta-se, foi arquitetada pelo então Cardeal Secretário de Estado, Tarcísio Bertone, que quando Arcebispo de Gênova contou com o auxílio de Guido nas celebrações litúrgicas. Piero, o Arcebispo antecessor, teria tomado conhecimento de sua sucessão apenas quando a notícia foi vinculada nos meios de comunicação. Desde então ele ocupa o Conselho para os Congressos Eucarísticos Internacionais.
A atuação de Guido Marini à frente da liturgia papal parecia estar mais de acordo com as preferências de Bento XVI, eleito em 2005. Houve uma mudança significativa na liturgia, que foi ocorrendo de forma gradativa. Costumes e paramentos que há muito estavam guardados foram retomados. O Papa e seu Cerimonário-Mor pareciam querer dizer: não há um antes e depois do Concílio, não existe o conceito pré-conciliar e pós-conciliar. Há uma só a Igreja de Cristo, sob a guia de Pedro.


O Papa, quando ainda Cardeal Ratzinger, já nos falava da "hermenêutica da continuidade" e Guido Marini em sua obra "Misterium Salutis" - Mistério da Salvação, Introdução ao Espírito da Liturgia, de 2010 -  nos alerta sobre a necessidade de não repudiarmos as práticas aplicadas antes ou depois do Concílio Vaticano II, como se estivéssemos em uma guerra branca.
 
 
 



Contrariando tudo o que a "grande e sensacionalista mídia blogueira" católica afirmou sobre as relações de Francisco e de Guido o Monsenhor se mantém no ofício litúrgico. Houve sim, não podemos negar, uma mudança no que chamamos "estética litúrgica", entretanto, o espírito e a nobreza das celebrações papais se mantém o mesmo.
 
 
 
 
 














Guido, sobretudo nos primeiros dias do pontificado de Francisco, foi e é um esteio para o Papa. Vemos que inúmeras vezes, mesmo durante as celebrações, o Pontífice aconselha-se e toma orientações com seu cerimoniário. Para o Papa o protocolo vaticano ainda é um pouco novo e na busca do êxito, Guido Marini desempenha um papel fundamental ao qual Francisco será sempre grato.
 
Nós, de longe e de perto, também agradecemos a Monsenhor Guido Marini, Protonotário Apostólico, por seu trabalho a frente das celebrações litúrgicas pontifícias! O empenho em nos fazer penetrar nos mistérios de Cristo e sua busca para que compreendamos que a Igreja é uma só, sem divisões cronométricas ou conciliares.
 
Que Deus o abençoe, Mons. Guido! Feliz Aniversário!

sábado, 25 de janeiro de 2014

Paulo: um contínuo convite a ser seguido!


Celebramos a Festa da Conversão de São Paulo. A história deste apóstolo do Senhor já é conhecida de todos nós: o perseguidor que se tornou perseguido; de Saulo para Paulo; o judeu irrepreensível que se transformou no grande propagador da fé em Cristo Jesus.

Paulo era – segundo suas próprias palavras  - um “Judeu, nascido em Tarso da Silícia, mas fui educado nesta cidade [Jerusalém], instruído aos pés de Gamaliel, em todo o rigor da Lei de nossos pais e cheio de zelo pelas coisas de Deus..." (cf At 22, 3). Um judeu profícuo, que após ter feito a experiência com o Ressuscitado (cf Gal 1, 11-12). Foi capaz de ser uma das principais colunas da Igreja de Cristo, sob qual está alicerçada nossa fé.





E a respeito desta experiência resplandecente, desta experiência com o Cristo Ressuscitado, o Santo Padre, Bento XVI, destaca que a “conversão de São Paulo não foi uma passagem da imoralidade à moralidade - a sua moralidade era alta; de uma fé errada a uma fé reta, a sua fé era verdadeira, embora fosse incompleta mas foi o ser conquistado pelo amor de Cristo”[1].

Com efeito, ao fazermos memoria de sua conversão somos também convidados a nos converter cotidianamente. Não por razões sinestésicas, meramente sentimentais; mas sim por razões concretas, que nos motivem à uma legítima transformação, não só de nossas vidas, mas, do meio à nossa volta.


Paulo e sua conversão sempre foram causa de inspiração e de ânimo para nossa vida como homens e mulheres cristãos. Foi no longínquo 25 de janeiro de 1554, quando Frei José de Anchieta celebrou “em paupérrima e estreitíssima casinha, a primeira missa”[2], onde alguns anos depois o colégio foi construído e se tornaria o embrião da atual cidade de São Paulo. 




O Apóstolo do Brasil – que muito em breve será canonizado - consagrou ao Apóstolo dos Gentios o que séculos mais tarde seria a maior cidade de nosso país e a terceira maior arquidiocese do mundo. Uma metrópole que possui, desde os primórdios, um solo cristão em suas raízes e tem o patrocínio de São Paulo desde a sua origem.



Hodiernamente esta cidade homônima ao Apóstolo dos gentios constituiu-se rica em contrates, sendo possível encontrar grande suntuosidade em paralelo à extrema pobreza; grandes concentrações religiosas - como a canonização do primeiro santo brasileiro, Frei Galvão -, como excessivas manifestações culturais contraditórias aos ensinamentos da Santa Igreja.


Mas qual a razão para a origem e proliferação destas contradições?

A resposta para este pertinente infortúnio é simples, é a omissão, ou total abandono da vida eclesial. No ano de 2007 o Papa Bento XVI, em um discurso na própria cidade de São Paulo, nos apontou o razão para tal consequência.

Sua Santidade justificou que a “falta de uma evangelização em que Cristo e a sua Igreja estejam no centro de toda explanação. As pessoas mais vulneráveis ao proselitismo agressivo das seitas - que é motivo de justa preocupação – e incapazes de resistir às investidas do agnosticismo, do relativismo e do laicismo são geralmente os batizados não suficientemente evangelizados, facilmente influenciáveis porque possuem uma fé fragilizada e, por vezes, confusa, vacilante e ingênua, embora conservem uma religiosidade inata”[3].

Destarte, que a exemplo destes dois grandes homens de Deus – Paulo o Apóstolo dos gentios e Anchieta o Apostolo do Brasil - sejamos capazes de zelarmos por uma fé viva e ardente, aumentando em nós uma lealdade mais plena, e uma conversão diária, afim de que o nosso orgulho diminua e Cristo cresça em nós.








São Paulo precisou não enxergar para ver a luz do caminho, da verdade e da vida. Esta conversão nos deixou uma lição importante: que ao fecharmos os olhos ao nosso orgulho, possamos abri-los à Cristo e ao próximo. Rogamos a São Paulo, que por sua conversão “oferece-nos o modelo e indica-nos a vereda para caminhar rumo à plena unidade”[4].




[1] Homilia do Papa Bento XVI, 25 de janeiro de 2009. http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2009/documents/hf_ben-xvi_hom_20090125_week-prayer_po.html

[2] Portal São Francisco: História da cidade de São Paulo - Fundação. Página visitada em 23 de janeiro de 2014. http://www.webcitation.org/66M19W25G

[3] Discurso do Papa Bento XVI, 11 de maio de 2007. http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2007/may/documents/hf_ben-xvi_spe_20070511_bishops-brazil_po.html

[4] Homilia do Papa Bento XVI, 25 de janeiro de 2009.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Francisco, Bento e a Hermenêutica da Continuidade!

No cinquentenário da realização do Concílio Vaticano II quis a Divina Providência conceder a sua Igreja um verdadeiro dom: a "hermenêutica da continuidade". O então Cardeal Ioseph Ratzinger escreve em sua obra "Introdução ao espírito da liturgia" sobre a necessidade de compreendermos o grande acontecimento da Igreja no século XX não como uma ruptura ou um cisma, mas, como um verdadeiro "aggiornamento", que de forma linear e contínua atualiza e revivifica o dom de Deus.


Durante seu profícuo pontificado o Papa Bento XVI não mediu esforços para trazer a tona e tornar clara a posição que já como cardeal defendia. Quer seja na liturgia ou no magistério vimos uma perfeita e equilibrada harmonia entre os costumes, as rubricas e a tradição da Igreja. Não poucas vezes foi taxado de conservador e retrógrado pela mídia e até mesmo nas esferas internas de sua grei. O papa foi um verdadeiro "mártir branco" da hermenêutica Concílio Vaticano II. 

Com a eleição do Papa Francisco, no inicio de 2013, houve quem julgasse ter chegado ao fim a era da hermenêutica da continuidade, que se interromperia este tempo de equilíbrio e de luta pela correta aplicação das reformas do Vaticano II. O Papa Bergoglio é, não podemos negar, diferente do Papa Ratzinger. Todavia, a fé e o amor pela Igreja de Jesus Cristo não só os une, mas, os torna irmãos.


O Santo Padre tem se mostrado um homem de profunda veneração e respeito pela obra e pela pessoa de seu antecessor, o Papa Bento XVI. Em recente entrevista a uma rede de televisão alemã o Arcebispo Georg Gaswein, Prefeito da Casa Pontifícia e Secretário Particular de Ratzinger, disse que entre os dois papas há um verdadeiro respeito e carinho mútuo, e que Francisco sempre está interessado por Bento. 

No que tange a vida pastoral a fé se mantém intacta. O Papa Francisco continua a pregar e a defender a mesma fé de Bento, de João Paulo, de Paulo e de João e assim por diante. Os anseios e os pedidos do Concílio Vaticano II continuam a ser aplicados, sobretudo, no que diz respeito a evangelização dos povos, do homem moderno. 

Na liturgia houve um verdadeiro espanto quando da primeira missa pública do Papa recém eleito. Ao contrário de seu antecessor, Francisco não fez uso do altar fixo da Capela Sistina, que é "ad Orientem", mas pediu que na capela fosse colocado outro, "versus populum". Alguns interpretaram este gesto tão simples do Papa como uma negação da "reforma-reforma" ou então um sinal claro de que tudo que vinha sendo aplicado já estava fora de contexto e não serviria para seu Papado. Alguns fizeram festa, soltaram confetes, outros choraram amargamente. 

Passados alguns meses, no último domingo - Festa do Batismo do Senhor - o Papa voltou a celebrar na mesma Capela Sistina, sob o olhar atento do Juízo Final de Michelângelo. Neste dia, 12 de janeiro, o Papa não solicitou que se colocasse outro altar na capela, outrossim, fez uso do altar fixo que lá está. Alguns comemoram com júbilo, outros julgaram que Francisco estava sob pressão da ala mais tradicionalista.


Creio que o Papa não esteja assim tão preocupado com a posição que o altar está, se "versus Deum" ou "versus populum", mas sim em aplicar e viver as normas litúrgicas. O Papa Francisco não é um demolidor, com alguns julgaram ser e tão pouco um reformista, como outros queriam. O Papa é alguém que está disposto a continuar investindo na hermenêutica da continuidade, fazendo ressoar na coração da Igreja frutos abundantes e fartos pela correta interpretação do Vaticano II. 

sábado, 28 de dezembro de 2013

Há alguma ligação entre os Santos Inocentes e a Sagrada Família?

Herodes, o grande, tendo tomado conhecimento da profecia de que o “Rei dos Judeus” teria nascido na pequena cidade de Belém da Judéia, mandou assassinar todos os meninos com idade de até dois anos, afim de que o pequeno infante fosse destruído. Cumpria-se aí o que já o Profeta Jeremias dizia: “Ouviu-se um clamor em Ramá, choro e grande lamento; era Raquel chorando a seus filhos, e não querendo ser consolada, porque eles já não existem”. (Jr 31:15).

As ruas empoeiradas da pequena Belém, da região e quiçá de toda Judéia abriram espaço para o sangue que vertia da garganta aberta dos pobres meninos degolados. A noite foi tomada por um luto gélido e sombrio, interrompido apenas pelas lágrimas e pelos gemidos de dor daquelas muitas mães que perderam seus filhos. As crianças que outrora eram acalentas em seus braços, afagadas em seus colos e amamentadas em seus peitos foram cruel e brutalmente assassinadas. A vaidade, a ganância e o ódio do rei lhes custou a própria vida.


Os santos inocentes são, justiça seja feita e dita, os primeiros mártires da cristandade. Ainda criança o Filho de Deus encarnado já era sinal, claro e verdadeiro, de contradição para este mundo. Sua chegada, ainda nos primeiros dias, já foi causa do derramamento de sangue de muitos irmãos nossos. As vítimas inocentes estão entre os companheiros de Cristo, que circundaram o berço do Jesus Menino num coro gracioso de crianças, vestidas com as cândidas vestes da inocência e a palma do martírio. São eles a pequena vanguarda do exército de mártires que testemunham ao longo dos séculos, com o seu próprio sangue, a pertença ao corpo de Cristo.

Ainda estando bem próximos do Natal de Nosso Senhor e da memória aos Santos Inocentes celebraremos a Sagrada Família de Nazaré: Jesus, Maria e José. Chama-nos atenção a vinculação que estas três festas tem entre sí: primeiro o verbo que se encarna sob a forma humana, nascendo numa pobre família de Nazaré. Família está que tem de fugir para o Egito afim de garantir a segurança do seu primogênito. É na sua partida, na calada da noite, que o massacre aos meninos inocentes acontece, e somente quando Herodes morre é que eles retornam das terras egípcias.

Passados muitos séculos desde o nascimento do Senhor e da morte dos inocentes, devemos refletir sobre os “novos Herodes”. Talvez gargantas já não tenham mais sido passadas a fio por uma espada judaica e tão pouco aquelas ruas estejam tomadas por sangue infantil, mas, crianças ainda vem sendo assassinadas aos montes e famílias destruídas sob o peso dos vícios e da violência. O fato de a festa da Sagrada Família estar vizinha à festa dos Santos Inocentes é um convite à oração e uma munição para que combatamos vivamente todos os Herodes que se apresentam na sociedade hodierna em múltiplas faces.



Os vícios do álcool e da drogas. O pecado da luxúria e do adultério. O crime do aborto. Todos estes e muitos outros se apresentam de maneira sútil e atraente a cada um de nós. Vivemos numa nova Judéia e padecemos sob “Herodes, o pós-moderno”. A ganância, soberba, vaidade e luxúria de um rei não é mais dele e sim nossa. O pecado entrou e habita dentro de nós e, por isso, matamos e violamos. A bainha da espada cedeu seu lugar para o bisturi e os outros tantos aparatos técnicos que retiram a vida e violam este direito divinamente concedido. O sangue que hoje jorra já não é – necessariamente – o vermelho dos infantis, mas, o sangue da moral e das virtudes, que se esvai sobre os nossos olhos. 

Roguemos que o Santos Inocentes, que a Virgem Santíssima e seu casto esposo, São José, intercedam por todos nós e por nossas famílias. Que sejamos libertados de todos os males que nos impossibilitam de ver e de reconhecer a verdade.